Miséria atrai miséria

Por uma vida mais abundante

                                                                                                               Prem Subali

                                                                                             

Miséria. Pode ser aquela economia de energia, aquela má vontade com o outro. Não se importar. Não ter cuidado. Não querer saber. Escolher pela economia, não pelo que tu podes ganhar. Deixar de te dar alguma coisa que, no fundo, te faria muito bem. Deixar de dar um bem para o outro. Calcular. Racionalizar. Tudo vai se resumindo a pequenos trocados: miséria.

 

A gente nem lembra, mas não nasceu assim. Se tu olhar uma criança brincando com outra, eles compartilham uma energia. Nenhuma criança está interessada em sacanear a outra, em economizar energia pra deixar de estar junto, de ficar contando os brinquedos pra não brincar. Nenhuma criança deixa de abraçar ou de brigar se tiver vontade. Se tu parar pra lembrar, vai sacar que, na tua infância, aquelas amizades tinham muita troca. Toda brincadeira poderia virar uma grande engenhoca, levar tempo, invenções, conflitos. Muita energia, muita doação. Tudo vale à pena.

 

Me lembro que uma vez, ainda criança, decidi fazer merengue assado e inventar formatos diferentes para brincar com a comida. Ansiosa para servir para minha família, não esperei minha mãe. Peguei a forma muito quente e, perto de colocar tudo na mesa, minha mão já estava queimando. Joguei tudo em cima da mesa que tinha uma toalha de plástico e queimou. Meu pai ficou louco, brigando porque eu “não dava valor para as coisas”: eu tinha queimado uma toalha tosca de plástico. Eu não entendia como aquilo podia importar tanto para ele – é claro que eu sabia que tinha feito algo errado e perigoso, mas aquela maldita toalha não podia ser o mais importante. Essa história me marcou muito. Na minha casa da infância, quebrar ou estragar alguma coisa era uma briga imensa. Eu fui me acostumando a ter medo, economizar. E olha que os meus pais tinham grana. Então a questão não era dinheiro: era a economia. O “desperdício”. A miséria.

 

Até hoje, meu pai é uma pessoa que vive mal pra caramba. A casa dele é um desconforto. Ele economiza em coisas toscas, em pequenas marcas, por exemplo, e gasta muita grana com obras inúteis. Tudo que ele conseguiu foi atrair gente mais miserável do que ele, negócios furados, amigos interesseiros, prejuízos que ele sequer contava.

 

Demorei tempo para sacar, mas ali eu já sentia: na miséria, a questão não é de grana. Nesse ritmo, a gente vai se acostumando a deixar de se dar. Vai contando os trocados da vida… não dar, não ter. Se distanciando. Se incomodando menos. Economizando. E vai atraindo situações miseráveis para a vida. Gente que também não vai te dar nada (em troca de nada). Gente que não vai se importar se tu está bem ou não, como, no meio das tuas economias de energia, tu também esqueceu de se importar.

 

Há pouco tempo atrás, vi um vídeo em que uma médica descrevia os arrependimentos que pacientes terminais relatavam logo antes de morrer. Quase todos se arrependiam de sonhos que não buscaram para si e de sentimentos que tinham deixado de demonstrar. Deve ter viralizado. A gente adora repetir “carpe diem” na internet e se emocionar com os arrependimentos dos outros. E, no fundo, ainda se contém tanto só pra dizer “eu te amo”, “tu é importante para mim”. Ou deixa de querer saber como aquele amigo está mais profundamente – e de lidar com isso na vida real. Se aquela pessoa está realmente precisando de alguma coisa. De dizer. De sentir.

 

Um vida miserável deixa o teu entorno igual. Tudo se apequena. A gente se apequena. É um círculo pobre, muito pobre de energia, de troca, de aprendizado. Pobre de vida. Pouca dor, pouco amor.

 

Agora, qual é o sentido disso tudo? Qual é a novidade de que tanta gente morre arrependida das coisas que não viveu, das palavras que não disse, das decisões que não teve coragem de tomar? E a gente vai seguindo, feito boi do mesmo caminho, para os mesmos arrependimentos. Por quê?

 

Lembro a primeira vez que senti como meu corpo tinha mais energia. Quanto mais me expressava emocionalmente, mais viva e clara com as minhas coisas me sentia. Tinha mais vontade de estar com as pessoas, de trocar, de dar afeto – e receber. Foi um momento muito bonito. Trabalhava mais, estava mais com os amigos, transava mais, me sentia mais disposta, me preocupava mais com as coisas. Brincava, criava, tinha ideias, me importava. Era uma sensação de energia que não acaba – e isso foi o mais precioso. Não tinha nada vindo de fora, era de dentro que eu descobria tudo aquilo.

 

Logo depois, vivendo em comunidade, eu fui entendendo como isso poderia ser ainda maior… eu fui conhecendo muita beleza e percebendo como eu tinha isso dentro para dar. Construir amigos, viver os amores, plantar, criar. Confiar nas pessoas. Doar teu tempo, tua energia, compartilhar algo que tu aprendeu porque alguém já te ensinou antes. Trocar uma hora, um lugar, um conhecimento.

 

Compartilhando a vida amigos, já criei muita coisa e já aprendi muito… já recebi muito. De construções incríveis que já fizemos na minha casa e momentos de amor muito forte que vivi nesse mesmo lugar, minha sensação é de tudo era grande e voltava. A beleza, o investimento, o carinho, o esforço, a alegria. Não tem conta de quanto dá pra ganhar, de quanto se perde. Lembra lá das cenas de criança, de que tudo vale à pena? Quando o coração entra na roda, contar trocados é impossível.

 

Ser abundante é confiar na vida. Saber – e sentir essa confiança – de que essas sementes crescem, voltam, que elas têm um gosto. É muito mais que sobreviver enquanto a morte não vem. É ter sede de vida porque se está vivo.

 

No final das contas, qual vai ser o saldo da tua poupança?

PULSAR DO CORAÇÃO

 

Me apaixonei totalmente por CASA DE PAPEL. Me apaixonei total! E não foi pela CASA DE PAPEL, foi por mim mesmo. Voltou a pulsar aquele revolucionário dentro de mim, voltou a pulsar meu coração! Voltou a pulsar a minha alegria de ver aquelas pessoas sensíveis e humanas numa aventura, acima de tudo. A aventura que falta na nossa vida, a aventura que o sistema nos roubou! O sistema nos jogou pra dentro de um shopping, pra dentro de um apartamento, pra dentro de uma sala de cinema, dentro de um restaurante, dentro da internet, dentro da puta que pariu! E aí nos murchamos… Por isso que as crianças são tão fantásticas, porque elas ainda não foram absorvidas, mas logo vão estar absorvidas pela internet, pela Coca-cola…

Sabe, eu sei que você se apaixonou pela CASA DE PAPEL. E essa é a grande notícia:
isso mostra que teu coração ainda palpita. Olha meu, se você não se apaixonou,
então, causa perdida! Vai pra uma igreja! Agora, se tocou teu coração, lembra
que ainda tem um pedaço do teu coração rompendo e querendo aparecer.
O grande mérito da CASA DE PAPEL é esse: trazer o coração de volta.
E você pode aproveitar isso. Porque vale muito a pena. Ali mostra claramente,
você sabe, aqueles policiais, o exército, as autoridades, sabe? Essa mentira
que a gente já conhece!

Lembra o Saddam Hussein? O Saddam Hussein era aquele cara que tinha
um búnquer poderoso. Eu chegava, na minha fantasia, a imaginar que devia
ter uns cinco andares para dentro da terra, mais uns 2 ou 3 km de extensão com
tudo o que é coisa, imaginando coisas fantásticas! O coitado foi achado dentro de
um buraco de esgoto. Vocês lembram daquela foto? E aí então os americanos e os
ingleses passaram essa visão, sabe por quê? Porque queriam roubar o petróleo deles! E eles vêm sempre com a moral, os bons costumes, o anti-terrorismo, a anti-sexualidade, principalmente, sendo que eles mesmos promovem putaria! Eles são os donos das redes pornográficas espalhadas na internet! Sabia? Não sei se o Edir Macedo também não é sócio disso daí! Parece tudo piada!

Nós queremos muito amor! Nós queremos a sexualidade! Nós queremos acampar! Nós queremos namorar sob o céu! Nós queremos muito! Queremos a aventura de volta! Eu quero é jogar futebol! Eu não quero olhar a televisão com aqueles “bonecos” ganhando um milhão e meio e depois dizendo “eu amo essa camiseta!”. Ele ama o UM MILHÃO E MEIO, BROTHER! Porque se alguém dá um milhão e seiscentos ele vai embora! Vamos parar com esse papo pra boi dormir.

Vamos nós jogar futebol! Vamos nós nos divertir, vamos nós ter aventura! Vamos criar! Vamos entregar pros nossos filhos criatividade, emoção, alegria! Vamos pisar em cima dessa merda de celular que tá afetando o cérebro da gente! Essas ondas entram direto no cérebro, por isso cada vez mais o ser humano
tá enlouquecido correndo atrás de um monte de coisas e não acha nada!
Na verdade, cada vez amando menos! O Namastê está aí para oferecer
uma ferramenta excepcional para vocês: Meditações Ativas
e Bioenergética para ajudar a te abrir mais, a trazer esse coração
pra fora, esse coração que ainda pulsa. A tua humanidade, a tua
inocência, a tua alegria! Se tu quer o outro lado, vai pra um shopping,
vai logo pra uma igreja! Agora, esse gostinho saboroso, essa paixão
que tu sentiu… não deixa essa chama apagar! O sistema quer logo
que acabe. Nós do Namastê estamos na rua pra quê? Para botar gás
nessa chama. Pra essa chama crescer! Pra essa chama queimar
todas as impurezas desse planeta. E nós voltarmos a SER HUMANOS!
Prem Milan

Como nossos pais

                                                                           

Por Shamin

“Apesar de termos feito tudo o que fizemos, ainda somos os mesmo e vivemos como nossos pais”.

Essa frase de Belchior diz muito sobre como levamos nossa vida em uma eterna reprodução de padrões familiares. Sempre mais do mesmo. Eu, durante minha adolescência, nunca tive o sonho de casar e ter filhos. Isso me bastava para acreditar que eu não seria uma mulher como minha mãe que vivia para cuidar da casa, dos filhos e trabalhar.

Na minha cabeça eu estava rompendo com a dependência da minha família quando decidi fazer faculdade em outra cidade. Eu escolhi um curso que não havia na minha cidade, nem por perto. Porque queria sair mesmo. Queria me desvincular fisicamente na ilusão de que tudo que eu trazia dentro de mim se desvinculasse também.

Mas essa conta não fecha assim tão fácil. Tudo aquilo que eu mais queria, que era  fugir dos meus pais era justamente o que mais forte dentro de mim gritava. O moralismo, a frieza e o controle do meu pai. A submissão, a carência e a frustração da minha mãe. Minha sexualidade, por exemplo, foi muito marcada pelos valores dos meus pais. Fiz faculdade durante quatro anos, morando numa cidade universitária, numa republica de estudantes. Um prato cheio para qualquer jovem curtir e se experimentar. Mas quase entrei e sai virgem da faculdade. Digo quase, pois, depois de um tempo em terapia percebi que não fazia sentido ser tão cruel com tudo o que eu sentia. Então com 21 anos decidi que ia transar e que estava na hora de deixar de lado os fantasmas que me acompanhavam quando eu sequer pensava em sexo: minha vida toda ouvia meu pai dando exemplos como o da vizinha ficou mal falada porque engravidou do namorado. Minha mãe dizia pra não confiar em homem. Meu pai dizia que sexo era pra depois do casamento, minha mãe dizia que se vivia muito bem sem sexo. Imagina a tensão que eu criei na minha sexualidade!

Bom, transei, tive relacionamentos, e ainda me sinto desconstruindo todos os conceitos que teoricamente eu não queria aplicar na minha vida. Pois quando eu reflito sobre o casamento dos meus pais ou tantos outros que presenciei, obviamente que não quero aquilo pra mim. Mas me vejo reproduzindo a mesma coisa quando transformo um espaço de amor numa instituição segura, num acordo onde tudo vale a pena para continuar num relacionamento. Isso é um casamento ou não é? E não falo só do amor dentro de um namoro, falo também do amor pelos amigos, por uma causa, pela comunidade onde moro. Transformar o amor em acordos seguros é a pior morte ao amor que se pode fazer.

O que tenho percebido nesse processo de viver, me desconstruir e construir de novo é que tenho mesmo é que construir o meu jeito de amar, os meus sonhos de trabalho, de projetos, de preenchimento. E isso não tem nada a ver com os modelos dos meus pais. E quando digo que não tem nada a ver quero dizer que minha vida não precisa ser uma cópia, mas também não precisa ser uma reação a eles. Essa, pra mim, é a pior armadilha do ego. Uma eterna birra com papai e mamãe disfarçada de vida independente. Fazer o contrário, fazer “diferente deles” no fundo é a mesma coisa. São os dois lados da mesma moeda.  A referência continua sendo “eles”. Como posso ser uma pessoa adulta, dona da minha vida se a referência continua sendo fora, e nunca dentro de mim. Como posso ter clareza da vida que quero se minha vida é sempre uma reação ao outro e nunca uma criação do novo?

Acredito que esse é o maior desafio. Traçar o meu caminho depende de uma postura adulta diante da vida. De não ser mais a criança que idealiza e espera, nem a adolescente que desafia e reage.

Os pais do Rosário

pais do rosario

Eu fiquei muito estarrecido e chocado ouvindo a Rádio Gaúcha sobre a manifestação dos pais do Rosário e suas reivindicações. Primeiro, eram três, quatro, cinco pais com uns deputados do PSL e se autodenominando que eles estão defendendo a Escola sem Partido, eles já são um próprio partido. E as reivindicações deles é que a escola não traga nenhum conteúdo além do cristão e o da família. E esse é um partido. Partido cristão, partido da família. Vão criar um bando de jumentos, que não sabem pensar. Vão pensar só por aquela ótica. A ótica cristã, a ótica da família. Só pode dar jumentos. Vão negar quem? Querem negar quem? Daqui uns dias Freud vai ser um criminoso de guerra. Daqui a uns dias… Marx já é, né? Engels, Einstein vão execrar, eles não vão poder nem ouvir o nome do Einstein, porque afinal de contas, ele botava a língua de fora. Einstein era irreverente, não era um cristão. Vão negar a vida, tudo, que absurdo! Eu acho ridículo, sabe? Mas eu tava ouvindo a Gaúcha e ouvi o tal de Paulo Germano falando e adorei o que ele falou. Adorei a coragem dele de chegar e encarar esses pais cristãos. Queria dar pessoalmente os parabéns pra esse cara porque ele teve a coragem de encarar esses malucos cristãos, sabe? Esses talibã cristão, entendeu? E eu vou reproduzir no nosso blog a coluna dele para que vocês vejam. Eu acho isso muito legal e também vai ser tema do Namasteen no Namastê essa coluna e discutir a respeito de ter idéias mais amplas.

Por Prem Milan

Segue abaixo a matéria do colunista Paulo Germano da ZH do dia 5 de agosto

Protesto no Rosário: pais contra doutrinação se comportam como doutrinadores
Justamente por ser contra qualquer lavagem cerebral, me agrada que os professores ofereçam conteúdos diferentes dos que as famílias já transmitem – e tentam impor – às crianças

Dois deputados e uma secretária municipal foram apoiar, na manhã desta segunda-feira (5), o protesto de pais que exigia, em frente ao Rosário, o fim de uma suposta doutrinação ideológica no colégio. Não foi. A culpa pela briga foi da insanidade que eles próprios vêm incentivando – no caso dos três políticos, vão me perdoar, vocês reproduzem o mesmíssimo divisionismo que o PT  praticava. E foi essa beligerância, essa intolerância no convívio entre visões divergentes, que levou aqueles meninos a se esbofetearem em frente ao professor.
Aliás, não havia nada de errado no vídeo que o professor apresentava quando os ânimos se acirraram: era uma entrevista com o sociólogo Sergio Adorno sobre as motivações (veja que irônico) da violência urbana no Brasil. Claro, pode-se discordar de cabo a rabo do que diz Adorno – e é justamente esse senso crítico que se espera de um bom aluno. Mas, definitivamente, não é senso crítico o que os pais querem.
O que eles querem é que o aluno, na escola, só tenha contato com o que a família concorda. Ora, justamente por ser contra qualquer tipo de doutrinação, proselitismo ou lavagem cerebral, a mim agrada que os professores ofereçam conteúdos diferentes dos que os pais já transmitem – e tentam impor – às crianças. Senão, para que serve o colégio?
O aluno ideal, como já escreveu Contardo Calligaris, é o que contesta os pais com o que aprendeu no colégio e contesta o colégio com o que aprendeu com os pais. Se a escola e a família são os grandes instrumentos de formação – e deformação – dos jovens, não pode ser saudável que as duas “concordem” o tempo todo. Pelo contrário: é a divergência entre elas que cria o espaço de conflito necessário para o aluno encontrar sua própria autonomia.
Até porque, no fim das contas, como os jovens poderão discordar de alguma coisa – seja no marxismo, seja na Bíblia – se mal sabem do que se trata? Impedir alguém de entrar em contato com tudo o que me desagrada, como se fosse eu o padroeiro da verdade, o guardião da certeza ou o mensageiro da luz, não é só defender a mediocridade. É, agora sim, praticar doutrinação.

A história da repressão sexual

repressão sexual II

Por Aiman

A História da repressão sexual começa na tua casa! “Ahh… mas e a sociedade, a religião, a cultura?” Não, não se engane. Tudo história da carochinha… Você conheceu as regras da , que não podem chorar, que você tem que cuidar o que fala, que não pode ser vulgar… Ou só o fato de não se falar sobre sexo, não se tocar no assunto, você aprende que tem algo de errado naquilo, e consequentemente com você que sente aquilo.

Quando você cresce, só depois que você entende que tudo isso tem a ver com a cultura, com a religião, e com a história. Antes de tudo, você aprendeu com seus pais, eles com os pais deles, e estes com seus pais e aí vamos parar em Adão e Eva. Só aí que talvez a história passe a ter alguma relevância.
Moisés foi o primeiro a colocar leis repressoras. Muito inteligente, inventou toda a história do Monte Sinai, esperou uns relâmpagos e desceu com resumo da “constituição de Deus”. Seu intuito era organizar aquela sociedade marcada pela divisão entre hebreus e egípcios e uma falta de critério, onde se matava por qualquer coisa as relações eram sem parâmetro algum. Nos mandamentos, começou com Deus, depois foi para os pais, até tabular as leis que regem nossa sociedade até hoje: “não pecar contra castidade” e “ não desejar a mulher do próximo”.
Esse parâmetro foi, aos poucos, determinando o que hoje chamamos de família, que na verdade foi criada única e exclusivamente para proteger e preservar a propriedade privada. Se uma mulher tem relações com vários homens, o homem não pode saber quem é seu herdeiro, não pode saber para quem iria passar seus bens, daí, astuto, Moisés instituiu o adultério como proibição, com o consentimento de nada mais, nada menos que Deus. E isso está presente até hoje.
Com o cristianismo, anos depois, A repressão se tornou oficial. Veja, uns quantos bispos se juntaram e decidiram quem seria e como seria o judeu da Galileia, que se autointitulava “Messias”. Existem registros muito sério de que Jesus de Nazaré realizava rituais pagãos e que a culminância era o encontro sexual. No português claro: eles buscavam Deus através do sexo. Além disso, a pessoa que deveria seguir levando seus ensinamentos para o mundo seria, não os apóstolos, e sim Maria Madalena, uma mulher! Há quem diga ainda que ela (Madalena) era sua esposa.
Como os adeptos de Jesus cresciam no Império Romano, um determinado Constantino I decidiu unir os bispos e determinar que o cristianismo era a religião oficial de Roma e que Jesus era divino e Madalena uma prostituta. Esconderam daí todos os evangelhos e registros que pudessem provar o contrário e chamaram de evangelhos apócrifos. Numa só canetada subjugaram a mulher, tornaram um homem divino retirando o sexo das relações. retirando do sexo o caráter divino e tornando algo sujo e usado unicamente para manter a família.
Como a capacidade sexual de uma mulher é infinitamente maior que a do homem, o homem através do patriarcado tratou de colocar a mulher abaixo. A função da igreja aposólica romana na idade média era caçar toda mulher que fosse livre sexualmente e que não obedecesse, queimando-as, torturando-as, massacrando-as.Na dinâmica da família, a mulher se tornou uma serviçal do lar e reprodutora.
É muito forte isso. A mulher foi tão fortemente reprimida e impedida de sua sexualidade total que hoje é comum pensar que o homem É poligâmico e a mulher monogâmica. O homem pode frequentar o prostíbulo enquanto a mulher fica em casa tomando conta dos filhos. Quando que na verdade é a mulher que tem a capacidade para estar com quantos homens ela quiser. O homem, basta ejacular que vira um peso morto, só serve para roncar. Já a mulher tem a capacidade de ter múltiplos orgasmos e multiplicar o seu prazer, com um ou quantos homens ELA desejar.
Pare e pense um pouco, socialmente o puteiro serve como um estratagema muito horroroso da repressão: ele existe para que os homens não comecem a desejar “a mulher dos outros homens”. Existem mulheres especiais para isso, daí não existe ameaça à família e se mantém a mentira e a ordem da sociedade e para a produção.
Se pensar nos sentido da produção, dentro do capitalismo moderno, podemos acrescentar à família, à essa moralidade podre, a educação disseminada para todos. O que chamamos de educação hoje, nada mais é, do que uma preparação para o mercado de trabalho, a criação de um exército de reserva onde, principalmente pela ação da igreja, também é repassado esses valores distorcidos.
Agora, um problema muito sério é que nos últimos anos do capitalismo aconteceu também movimentos de liberação de tentativa de se libertar dessa repressão. Isso acabou trazendo a tona um aspecto muito triste da repressão: tudo que fica abafado que fica trancado apodrece. Daí essa disseminação da pornografia e da perversão sexual fruto de tantos anos de repressão. Muita gente acabou indo para o outro lado vivendo uma sexualidade bagaceira e superficial, que inclusive hoje tem áres de sofisticação, com massagens tântricas e o escambau. Basta você entrar na internet e ter acesso a isso hoje em dia. É um mercado que movimenta bilhões.
Tudo isso é fruto desse histórico de repressão e violação da naturalidade humana. E quem é o ator principal nessa história é a família. A família é podre porque foi desenhada pela repressão, pela violação da natureza humana, desde sua origem. É o Veículo de perpetuação dos valores distorcidos, é a roda que gira todo essa máquina

Você trabalha para viver ou vive para trabalhar?

homem afrouxando a gravata

Por Bodhi Manindra

 

Vamos lá você passa a maior parte da sua vida, do seu tempo, do seu dia trabalhando. Já parou pra pensar nisso? Às vezes é difícil conectar com isso. O trabalho é extremamente importante. É ele quem nos dá a base da nossa sobrevivência. É uma atividade produtiva, e é saudável desenvolver uma atividade produtiva, manter a cabeça e o corpo em movimento. Produzir, criar, contribuir de alguma forma com nosso conhecimento. Além disso o trabalho garante que tenhamos dinheiro, não só para sobreviver, mas para ter acesso às coisas que gostamos, lazer, viagens, algum conforto. Mas uma coisa é fato, ele consome bastante tempo de vida. Ou assume uma importância demasiada, de forma que nos deixamos absorver tanto, mergulhar tanto no trabalho e deixar de viver. Para a maioria das pessoas o trabalho é a coisa mais importante. Tu podes achar que não, que é o amor, que são teus filhos. Mas olha a realidade, quanto tempo tu passas namorando, transando ou brincando com teus filhos? E quanto tempo tu passas trabalhando? Parece que com o tempo vamos nos conformando com isso. Lembro quando era criança e olhava meus pais trabalhando mais de 12, 13, 14 horas por dia. Aquilo me fazia mal, eles nunca tinham tempo para estar comigo, eles nunca estavam felizes. Eu só pensava que eu nunca queria ter a vida que eles tiveram. Mas, eu cresci e fiquei exatamente igual a eles.  Sou professora da rede municipal de ensino. Quando comecei, há 13 anos atrás minha carga horária era de 40h semanais. Ficava o dia inteiro dentro da escola. Eu moro num sítio lindo, com uma galera muito legal. Saia pra trabalhar antes das 7h da manhã e voltava depois das 22h, contando outras atividades que eu tinha na cidade. Me doía o fato de não poder desfrutar mais tempo ali no sitio, no meio da natureza, de ter mais tempo pra relaxar, pra meditar, estar em contato com a natureza e com as pessoas que moravam comigo. Então eu comecei a me questionar. Poxa eu trabalho pra poder viver, pra poder morar num lugar assim, mas eu nunca tenho tempo pra estar aqui. Para desfrutar. O que adianta? Às vezes trabalhava também aos sábados. Fim de semana estava podre de cansada e não conseguia fazer muita coisa. Sendo professora ainda tinha que preparar aulas e fazer avaliações dos alunos em casa. Percebi que estava ficando frustrada igual os meus pais. Estava no paraíso vivendo um inferno. Como morrer de sede em frente ao mar. Então eu decidi mudar a minha vida, foi um processo, foi um tempo. Aos poucos fui reduzindo a minha carga horária de trabalho e nunca mais levei trabalho pra fazer em casa. Percebi que eu teria uma vida mais simples. Percebi que muitas das coisas que eu consumia eu não precisava. Percebi que o carro do ano com seguro total valiam 10 horas de trabalho. Percebi que o “ócio” traz culpa pois às vezes no meu tempo livre fazendo coisas que me davam prazer sentia como se fosse errado, que o certo seria estar trabalhando naquele horário, que estava perdendo tempo ao não fazer uma atividade produtiva.

Outros dois exemplos de pessoas que conversei recentemente me trouxeram também essa reflexão sobre o trabalho. Uma colega que está se aposentando. Perguntei quais eram os planos dela pra aposentadoria e ela me disse “Agora eu vou viver.” Eu fiquei chocada com aquilo, por que os melhores anos da vida dela ela não viveu. “Agora vou curtir os netos, já que eu não consegui curtir os filhos.” Eu fiquei chocada pensando caralho!!! Que vida louca. Eu lembro quando era criança escutava meus pais dizendo que faziam sacrifício pra me dar as coisas. Eu pensava que a presença deles valia muito , mas muito mais do que qualquer coisa que eles pudessem me dar. Talvez se meu pai ou minha mãe tivessem abrido mão de um turno de trabalho, só um turno pra ficar comigo, pra me levar num passeio, pra brincar. Eu tenho certeza que isso teria feito muita diferença na minha vida! Agora gente tem pais que ficam dando Ipads pros seus filhos de três e quatro anos. Cada filho tem um. O tempo que tu gasta trabalhando pra pagar essas coisas tu já pensou que poderia estar com teu filho? Olha o absurdo que estão fazendo com as crianças! Cada criança tem um ipad, um celular. Gente isso é louco! O tempo que tu se mata pra pagar esse ipad, duvido, se tu perguntar pros teus filhos, eles vão preferir estar contigo, fazendo coisas simples!

Outro exemplo foi um ex cliente do Namaste que retornou. Ele ficou um ano e meio aqui. Fez escola de meditação, fez bioenergética e saiu. Começou a assumir mais responsabilidade no trabalho, foi ficando sem tempo pra ele mesmo. Outro dia ele voltou. Estava com um tumor na face. Muito triste. Ele se deu conta do que fez. Disse que até quando ficava em casa muitas vezes estava no computador trabalhando enquanto as bençãos estavam na frente dele, que eram os filhos dele. E ao invés de desfrutar com os filhos estava enfiado no trabalho. Então esse tumor fez ele parar e voltar pra si. Para o que é realmente importante.

Eu vejo colegas que trabalham até 60 horas por semana. Eu sei, quando eu entrei pra prefeitura eu também tive vontade de trabalhar 60 horas por que eu ia ter mais dinheiro pra comprar mais coisas. Ainda bem que eu não fiz isso. Com certeza eu  teria mais coisas, mas seria muito infeliz.

Talvez lendo esse texto venham na tua cabeça coisas do tipo “Ah, mas quem vai pagar minhas contas? Eu não tenho condições de fazer isso! Então me diz, quem vai pagar a tua vida? Na hora da tua velhice, da tua morte, quando tu olhar pra trás e ver o que foi a tua vida? Quantas vezes tu vais ter brincado com teus filhos? Quantas vezes tu vais ter realmente desfrutado a vida? A doçura da vida, sua beleza? Quantas vezes tu vais ter feito coisas que te deram prazer e alegria? Talvez te doa ter se tornado um adulto tão sério, tão sisudo, tão sem tempo pra nada, cheio de compromissos. O que tu pode fazer com isso? Não sei, cada um tem a capacidade de criar a sua vida. Talvez tu estejas tão enquadrado, tão amarrado nesse sistema podre que tu nem consegue vislumbrar uma possibilidade. Talvez o trabalho te alienou tanto que tu não enxerga nada além das paredes do teu escritório, do teu consultório, da tua sala de aula, do teu departamento. Talvez tu use inconscientemente o trabalho para não se deparar com coisas da tua vida. Bom isso é tema para outro texto.

Tem um filme que eu gosto muito. “La belle verte” em português o turista espacial. São pessoas que vivem num planeta diferente. Ao acordar a primeira coisa é mover o corpo. Eles nadam, fazem acrobacia aérea, exercitam o corpo. Depois eles trabalham nas lavouras, hortas, plantações de onde vem o sustendo deles. Eles comem o que plantam. Os adultos trabalham junto com as crianças, trabalham ao ar livre de uma forma descontraída. Eles tem os corpos fortes e saudáveis. Vivem em meio à natureza, em contato total com ela. É um filme realmente inspirador, tu podes ver! Viver a vida da forma mais simples e mais rica que é possível, em contato com o seu corpo, com os outros seres humanos, com os teus filhos, com a natureza. Não é pra tu seguir aquilo ali, nem pra virar hippie, nada disso. É pra trazer inspiração pra tua vida.

A vida vale muito. E a gente vive como se fosse na eternidade, mas não é. Quando era adolescente a gente usava uma frase que escrevia nos cadernos, nas agendas das amigas. Pode parecer idiota, mas pra mim ainda diz muito. Curta a vida, pois a vida é curta!

 

Pobre é Quem Precisa Muito – Parte II

camping

Por Prem Milan

 

Então é hora de olhar pra vida, é hora de você olhar pro conteúdo. Estão nos esvaziando de conteúdo. O sistema tá nos criando de um jeito tal, que a gente não só tá vazio de conteúdo, como de capacidade corporal, de capacidade emocional, de capacidade de amar, de capacidade de discernir as coisas.

Nós estamos virando burros, nós compramos ideias repetidas n vezes na internet, sabe? Os caras repetem mil vezes coisas. Agora, quando eu vi a Folha de São Paulo ser chamada de jornal comunista, eu olho e digo “My God!”. A Folha de São Paulo baixava o pau no Lula pra cacete, ela virou comunista? Gente, é uma burrice extraordinária. E eu não digo que a Folha não tinha razão em certos paus que baixava no Lula, agora dizer que ela é comunista? Agora o Jornal Nacional deve ter virado comunista! Gente, isto é piada. Isto é uma piada, mas vai repetindo mil vezes a ideia e a burrice fica.

Porque o sistema que tá aí quer mostrar só o fake news deles, quer que você fique bitolado e só veja os fake news deles, aquelas bobagens e mostrando um monte de coisa, como o exército trabalha, como o exército faz coisas. Gente, pelo amor de deus! Os caras fazem o que o dia inteiro? O que os caras fazem o dia inteiro, me diz? E eles ganham salário, o que eles fazem? Eu acho que eles deviam fazer um monte de estrada, no mínimo. Agora, como herói, não, me desculpe, me desculpe. Herói porque ajudaram lá em Brumadinho, mas então, os caras ficam anos recebendo salário, em algum momento eles tem que dar algum retorno, né? Sabe? Mas não to querendo brigar com milico, nada, também são seres humanos, aqueles soldados. Mas eles estão condicionados por uma ideia, nós estamos condicionados por uma ideia também, a mesma ideia consumista. Consumir, consumir, consumir.

Esse é o grande sistema que se criou, os presidentes, os deputados, são pequenas engrenagens desse sistema, e esse sistema sim que consome muito dinheiro, que tem muito, muito dinheiro. Mas muito dinheiro mesmo, entendeu? Bilhões e bilhões. E eles são muito infelizes né, eles são muito infelizes.

Aquele que não consegue dar é muito infeliz.

Eles acham que eles estão ajudando os outros, explorando cada vez mais, sabe? “Ai, to dando emprego pra eles” HAHAHA!  Tu tá vendendo para criar mais e mais miséria, é uma fábrica de criar miséria com seus lucros astronômicos. E a humanidade onde é que está? A humanidade onde é que está? Então eu fiquei muito encantado vendo um videozinho de um minuto e meio com o Pepe Mujica. Eu tinha assistido o filme dele e já tinha me admirado pelo cara, e é um cara muito de se admirar, perto desses medíocres que foram presidentes em toda America Latina. Não, o Pepe ia trabalhar com o Fuquinha dele. Ninguém nunca falou isso né? Por que não interessa, não interessa. Imagina, um presidente de Fusca, indo trabalhar de Fusca e quando ele saiu do governo foi de Fusca e continua com seu Fusca.

Como é que se explica isso? Não da né? Então, esqueça-se. Mas é uma figura que eu gostaria que vocês vissem, mas eu não quero pra você se posicionar politicamente, eu quero pra você olhar pra sua vida. Olhar pra sua vida e não cair nesse conto do consumo, nesse conto de precisar tanto, tanta coisa. Tudo que eu queria do meu pai era poder ter brincado muito mais do que ele, do que ter tido tudo aquilo que ele construiu. Nunca me adiantou muito as heranças, não me adiantou grande coisa.

Agora, eu sinto muita falta de ter jogado futebol com ele na praia, de ter tomado banho de mar com ele na praia, de no dia-a-dia ter brincado mais com ele, sabe? Isso sim eu sinto muita falta, apesar de que teve alguns momentos em que ele brincou comigo e, esses são preciosos, que eu guardo lá no fundo do coração. Os momentos mais lindos, sabe? Mais lindos, quando meu pai era apaixonado por um clube de futebol da cidade, que ele ia todo enfezado e eu ia ali junto, sabe? Era uma alegria incrível, agora hoje, toda essa tecnologia, toda essa televisão muquirana.

Mas eu tenho uma novidade pra você, eu gostaria de ganhar na Mega Sena, muito dinheiro, sabe pra quê? Eu nunca vi o que eu vou promover, acabar com a miséria não vai. Eu ia fazer o maior campeonato amador do Rio Grande do Sul porque eu ia resgatar muita alegria de toda cidade. Isso é um sonho que eu tenho. Criar de um jeito que todas as cidades voltassem a ter seu time de futebol, em uma disputa onde a cidade participaria, e aí nós íamos parar de ficar colados nessa maldita televisão, pra ver os Luan, D’Alessandro, não sei o quem lá, os Neymar, gente nojenta, Messi, tudo nojento ganhando milhões e com papo de coração. Coração crivado de milhões, isso aí não é coração, isso aí é prostituição.

Eu gostaria de ver o time lá da minha cidade, o Guarani de Garibaldi, o Juventude. Ai que saudades de um GuaJu! Ai que coisa mais linda, e todo aqueles times, os times de Carlos Barbosa, na minha cidade também tinha o Lajeadense, os times do interior. Tinha um campeonato que eu me lembro que também tinha uma taça imensa e vinham todos os times de todas as colônias, era muito bonito toda aquela gente jogando, e era um futebol bonito de gente com vontade, de gente que trabalhava, de gente que é gente. Isso que tá faltando: gente que é gente.

Então esperem! Eu continuo jogando na Mega Sena para, um dia, fazer o maior campeonato amador do planeta! Entendeu? Ia recuperar a alegria de um monte de cidades e recuperar a alegria é fundamental para as pessoas serem mais felizes e viverem mais. Então me aguardem! Torçam pra eu ganhar na Mega Sena! Torçam! Que todo dinheiro eu vou botar nisso daí.

Pobre é Aquele que Precisa Muito – Parte I

blog1

Por Prem Milan

“Pobre é aquele que precisa muito”, essa é uma frase que eu vi em um vídeo bem curtinho do Pepe Mujica (https://www.youtube.com/watch?v=4K_uhepjii0), aquele que foi presidente do Uruguai. Aliás, eu vi um filme dele “Uma Noite de Doze Anos” que me impressionou. Me impressionou sua capacidade humana, de suportar, de manter firmeza nos seus princípios. Quando eu vi esse filme eu cheguei à conclusão de que às vezes me queixo por pouca coisa, sabe? Eu recomendo que você veja esse filme. Mas essa frase dele eu queria explorar, talvez você diga “Ah, comunista!”… Não me vem com esse papo para boi dormir! O cara é uma figura mundialmente reconhecida, pela sua capacidade, pela sua determinação e pela sua HUMANIDADE. Veja bem, HU-MA-NI-DA-DE. Aquilo que tá faltando muito, mas muito mesmo em nosso planeta. E eu concordo plenamente com essa frase dele.

Na minha vida também, eu fui criado em uma família italiana – meio italiana, meio alemã – onde, para o meu pai, o importante era ter as coisas, ter dinheiro, ter capital, é ter bens, ter carro, ter casas, é ter, ter, ter, ter, ter, ter. O verbo que se conjugava na minha casa era ter. E nunca foi viver, saber, prazer. Não, era ter, possuir, ser dono.

E durante minha vida, apesar de ser um cara de esquerda eu achava que se eu fosse rico estariam resolvidos todos os meus problemas. É muito absurdo porque eu conheço a vida dos ricos e é um tédio, um porre, todos frustrados, a grande maioria usa cocaína para não sentir o desespero do vazio das suas vidas. Mas mesmo assim, como isso é ensinado desde criança, a associar felicidade com estar bem com dinheiro, é muito difícil tirar essa teoria da cabeça da gente. É um programa instalado na cabeça muito forte. É uma coisa skinneriana, uma associação direta de felicidade com dinheiro. Mas os meus problemas na real eram emocionais “Eu ia ser amado pelas mulheres? Eu ia viver feliz?”. Então eu por muitos anos corri muito atrás disso, de várias formas: negociando, tentando ganhar dinheiro e jogava muito, jogava loteria esportiva, joguei muito, na ilusão, sonhando com aqueles milhões que eu ia ganhar. Depois veio a Mega Sena e eu sonhava durante muito tempo… Eu me lembro de prêmios de 150 milhões, e eu ficava sonhando de como eu gastaria esse dinheiro, como eu ia gastar. Só que um detalhe: toda a viagem eu fazia, completa, e toda vez que eu gastava todo esse dinheiro, todo ele, no final eu sentia um buraco vazio, uma frustração.

Fiz muitas vezes esse processo. E muitos anos da minha vida perdi na busca por isso. Eu perdi vida. O dinheiro custa vida. Custa muito a vida da gente. Lutamos tanto por dinheiro, mas dinheiro significa vida. Você não está gastando dinheiro, você está gastando vida. Para ganhar esse dinheiro você gasta vida. Então a gente consome um monte de bobagem, um monte de porcaria, na real a gente está trocando porcaria por tempo de vida! Criei cavalos de corrida, sempre esperava ter um grande campeão, que ia ser vendido para os EUA por um milhão de dólares, no tempo que um milhão de dólares era muito, muito, muito, muito dinheiro, né. Hoje se fala em dez, vinte bilhões, uma imundície muito grande.

Aí em determinado momento da minha vida eu parei e olhei, quando eu tava realmente feliz e realizado. Gente, eu fiquei muito chocado que era sempre quando eu tive menos, sempre. Sabe? Quando eu tinha meus 18, 19, 20 anos comendo no R.U., sem dinheiro, militando na esquerda, mas eram momentos muito, muito felizes da minha vida. Ali eu era feliz, era cheio de atividade, de ação, entendeu? Muito entusiasmo. Eu me lembro em 1974, sabe, a gente foi acampar em Garopaba. Garopaba não tinha nada, gente, nada. Não existia nada, nada além de pescador e um que outro grupinho de maconheiro que ia acampar. Nós íamos acampar ali na beira da praia naquela parte com gramados e eu me lembro que na época eu olhava… Eu sou filho de comerciante então sempre tem esse maldito olho de comércio, eu olhava uns terrenos grandes, na beira da praia com 100 x 50 metros que podiam ser comprados por meio salário mínimo, uma mixaria. Imagina o quanto valeria hoje! Ainda bem que eu não comprei, pois estaria hoje numa viagem super capitalista, deixando de lado meu coração. Se nós fossemos gananciosos naquela época, nós juntaríamos um dinheirinho e comprava aquilo pra ter.

Ainda bem que os meus projetos de grana não deram resultado. Esses projetos pessoais, onde eu ganhava muito dinheiro e acabava queimando. Porque se eu tivesse tido muita grana, talvez não tivesse vivido uma vida tão bonita quanto eu estou vivendo. Mas eu fui feliz pra caramba acampando ali, comendo salsicha, indo pra praia ajudar a puxar o barco pra fora e ganhava o peixe, uns peixes viola. Olha, aquele peixe viola que nós ganhávamos depois de ajudar os pescadores era o peixe mais gostoso da minha vida, feito num fogão de pedra, gente. Uma maravilha. E quando dava aquele calor, aquele calor sabe o que nós fazíamos? Não era ar condicionado, nós íamos naqueles matinhos, nós íamos naquelas rochas e descobríamos uma caverna na rocha e nós ficávamos horas ali esperando passar aquele calorão, olhando para aquele mar imenso, aquela brisa nos tocando… Gente, milhões de vezes melhor que ar condicionado! Milhões de vezes melhor que ar condicionado! E a gente caminhava e nossos corpos eram saudáveis, belos, vitais, sabe? E comendo aquelas comidinhas simples, nós passamos comendo mais ou menos dez, doze dias, só peixe. Direto do pescador com arrozinho, feijãozinho e era isso aí minha gente. Era assim um acampamento que eu não me esqueço jamais, jamais. Não tem preço aquilo, foi uma coisa inesquecível. Nove amigos, sabe, pelados, sem dinheiro, sabe? Fantástico. Fantástico. Criando e se recriando. Sabe?

Depois, mais adiante, foi o lugar onde eu gerei meu primeiro filho. Foi em Quatro Ilhas, início de 1982. Quatro Ilhas não tinha uma casa. A gente acampava na época da Páscoa, três casais em barracas. A gente ficava ali na beira do mar o tempo inteiro. Um matinho incrível, um cenário incrível, fazendo aquela nossa comidinha, uma coisa indescritível, uma coisa linda maravilhosa, sabe? Me lembro a gente andando pelado à noite, na lua, fazendo amor sob o luar. Nós não precisávamos de nada, camas assim, camas assado. Era na areia, areia, AREIA. Selvagem, vida, vida, vida, VIDA. Coisa que nos estão roubando, vida, VI-DA! Veja bem, vida.

A gente paga todo esse pseudo-luxo, esse pseudo conforto com vida, conforto custa vida, você tem que trabalhar pra caramba pra ter uma porra de um não sei o que, uma porra de um fogão assim, uma porra de um carro. Gente, pelo amor, eu sempre sonhava em ter aqueles carrões. Sabe, hoje em dia eu tenho um Mondeo 1996 que me saiu em torno de uns 14 mil. Sabe? Ele tem 60 mil km, nenhuma Mercedes. É maravilhoso, fantástico. Mas não tá no top, nenhum ladrão quer. Eu me lembro que tava passando ali em Viamão por uma ponte que eles sempre assaltam, tavam vindo todos os guris, quando viam os outros carros eles paravam e assaltavam, quando viam o Mondeo só faltava jogar cinco reais pra mim. Maravilha, é um carro confortável pra caramba. Entendeu? E eu vi que todo esse luxo é uma bobagem, é vida, a gente paga com vida. Veja, esse vídeo pequenininho do Mujica: https://www.youtube.com/watch?v=4K_uhepjii0

E eu to aqui na praia e eu to vivendo assim. Eu faço todos os dias comida para os meus netos e meus amigos, faço questão de fazer comida, sabe por quê? Porque tem sabor, tem gosto. Todos esses imensos restaurantes que tem aqui no Rosa são sem gosto, sem graça. Eu faço um camarão maravilhoso, não da nem pra comparar com essas cozinhas. É que lá é o status de tu pagar, o status. Tu se sente bem, importante, pagando a conta com teu cartão de crédito. Depois trabalha que nem um cachorro. Não, eu me sinto bem fazendo uma comida gostosa e gosto de perguntar pra eles “gostaram?” Eu faço um feijão maravilhoso, então todos os dias meus netos e meus amigos comem uma comida maravilhosa que eu gasto uma hora pra fazer e me divirto porque eu to dando sabor, qualidade, vida, essência, ESSÊNCIA, essência de vida. Sabe? E não esse gosto plástico, o visual das comidas é muito bonito, as fotos são incrivelmente bonitas, mas tudo ruim, cheio de veneno, sem sabor, né? O sabor que tem é o do tetraclorato de não sei o que que eles põe ali pra te enganar. E tu continua na vida saudando isso, que eu tenho um emprego, que botem tudo que é fábrica que polua pra caralho pra eu ter um emprego, pra comprar mais carro, mais coisas plásticas, mais coisas no supermercado, mais isso, mais aquilo. E tudo infeliz.

Meus netos estão felizes pra caralho, com pãozinho cacetinho de manhã, queijo que a gente faz lá na comunidade que é limpo e maravilhoso. E claro, a gente faz umas transgressões ali, compra uma mortadela, umas coisinhas assim e é isso, mas a gente tenta tirar o melhor. A gente não abre mão do sorvete né? Vem o meu netinho ali, “Gelomel hoje, vô, Gelomel!” Tudo bem, deixa eles comerem essas coisa, e é uma imundície sorvete né, é uma imundície, viciante e tudo, mas são as férias dele aqui, eles passam o ano todo no sítio e não tomam uma gota de refrigerante, eles nem gostam. Me lembro uma vez um neto meu, o Caetano, nós fomos comer uma pizza e o cara falou que tinha Pepsi e meu neto perguntou “que que é isso vô?”. Ele não sabia, tem 6 anos e não sabia o que era pepsi. Eu fiquei feliz que ele não sabe. Talvez você ache “Que ignorante, não sabe o que é Pepsi”. HAHAHA, que ignorante! Deve ser uma cultura incrível saber o que é Pepsi Cola, Coca Cola, Whatsapp, não sei o que lá, mídia, não sei o que. Tu acha que isso é ser muito inteligente. Qualquer energúmeno, idiota sabe isso aí. Tu não precisa nem ter coração, qualquer computador de quinta categoria sabe, daqueles mais furreco, antigo. Agora, ter inocência, ter amor, ter alegria, isso tu não é afim.

Eu to falando isso porque é pra gente olhar de uma vez pra vida, o que a gente quer da vida… você quer entrar nessa loucura? Nessa loucura consumista. Quem deve ficar feliz é o dono da Havan, aquela, sabe? Havan, aquela loja imensa que as pessoas adoram ir pra comprar o que não precisam. Mas o cara botou a Estátua da Liberdade, que não é a Estátua da Liberdade, aquela é a estátua da exploração, estátua da vigarice que tem lá nos Estados Unidos. Porque a liberdade já se foi há muito tempo. Daí esse malandro usa isso aí pra te vender o que tu não precisa, e tu vai lá e compra porque acha que “tá barato, tá barato, tá barato”. Barato nada, ta comendo tua vida pouco a pouco. Eu sei que você tá carente emocional, então você precisa ir lá comprar pra ficar te sentindo satisfeito com aquele carrinho cheio, comprando isso e aquilo. Mas depois quando tu chega em casa, tu já ta arrependido. O buraco continua.

Criando Filhos em Comunidade

crianças teatro

Por Prem Jwala

 

Uma das experiências mais maravilhosas e mais difíceis que se pode ter na vida é ter um filho, não só ter, mas “criar” um filho. Meu segundo filho está com 3 meses agora e nada ocupa mais espaço no meu dia a dia e no meu coração do que eles. Gostaria de contar minha experiência, pois estamos criando algo muito revolucionário aqui na Comunidade Osho Rachana, que é você criar filhos em Comunidade. Isso significa que tem 80 pessoas que também moram, convivem e se relacionam com eles. Você não imagina a riqueza que isso traz para eles!

Eu vejo as crianças por aí ficando cada vez mais infantilizadas, regredidas, viciadas em atrolhos e tecnologias, com medo de se relacionar e de se expressar. Aqui está acontecendo o oposto. Recentemente, o Pramit chegou de viagem, quando meu filho mais velho o viu,  saiu correndo pra abraçar. O Pramit é pai do Caetano, primo do Lorenzo, mas ele sente tanta saudades e tanto amor por ele e também por vários outros homens e mulheres da comunidade que ele ama profundamente, não apenas o pai e a mãe. É obvio que o canal mais profundo é com o pai e a mãe, mas ele tem muitos amores a mais do que isso, muitas outras referências, muitas outras relações, brincadeiras, brigas, ensinamentos, tudo.

Isso jamais seria possível sem ter esse monte de gente da comunidade ajudado e pegando junto, desde muito pequeno. Nos momentos em que estava com ele e queria fazer outra coisa, meditar, jogar bola, transar, enfim, coisas normais do dia a dia, sempre tinha alguém para cuidar dele, várias pessoas e elas sempre cuidavam muito bem dele, quase nunca dava problema. Então, desde bebezinho as pessoas se acostumaram com ele e o amam, dificilmente ele cruza por alguém na comunidade sem que alguém cumprimente ou pare para brincar com ele. Então, quando eu fico com eles, eu realmente estou ali, curtindo estar com eles, me divertindo, me preenchendo e não querendo fazer outras coisas ou emocionalmente ausente.

Isso dá uma qualidade muito maior e muito mais preenchimento pra eles. É muito difícil você curtir ficar com crianças se está cansado, sem saco, frustrado sexualmente ou sem vontade. Minha vida mudou muito pouco depois que eles nasceram, eu continuo fazendo as mesmas coisas que gosto e amo, continuo me divertindo com os amigos, continuo vivendo minha sexualidade com a mãe deles e continuo criando e expandindo no meu trabalho.

Eu fui criado para ser  o “filho da minha mãe”, mas eu nunca fiz isso com eles, eu quero que eles sejam da comunidade, não meus! Não faço deles minha razão de viver e nem minha única fonte de preenchimento, isso da uma liberdade imensa pra eles. Pois eles não precisam cumprir minhas expectativas, nem preencher meus buracos emocionais, e a mãe deles a mesma coisa.

Isso só é possível por viver nessa comunidade, às vezes fico imaginando se a gente morasse num  apartamento na cidade e só vejo tragédia, nossa relação não duraria nem 3 meses. Imagina: sozinhos, com a ajuda só dos nossos pais e famílias (o que muitas vezes só piora). E o resultado da nossa escolha é que essas crianças estão crescendo com um relaxamento em relação aos sentimentos, ao sexo, a amizade que é difícil imaginar. Outro dia o Lorenzo chamou a mim e a mãe dele pra conversar e disse “É que cada vez que eu cresço, eu sinto uma angústia. Eu to com medo de crescer, porque vou ficar sozinho, porque vocês tão ficando mais tempo com o Valentim (o bebê) do que comigo”. Eu não acreditava estar ouvindo aquilo, a clareza e honestidade dele, aquilo mexeu muito comigo, pois me senti daquela forma muitas vezes quando criança por ser o mais velho também, mas nem passava pela minha cabeça a possibilidade de falar aquilo pros meus pais.

Quanto à sexualidade, todos eles sabem o que é sexo e sabem que os adultos fazem sexo e que é uma coisa natural e prazerosa, e  nenhuma tragédia aconteceu com eles por isso. Imagina o relaxamento que eles vão ter na adolescência e idade adulta, nem se compara com o que vivemos. Essas crianças estão experimentando a liberdade de poder ser elas mesmas sem toda aquela repressão e moralismo que nós recebemos, e mesmo que hoje a faixada pareça ser mais legal, a desconexão emocional é bem maior.

Na Comunidade nós dividimos entre os pais o tempo de cuidar das crianças. Esse fim de semana era meu dia de ficar com eles, mas eu estava com meu joelho estourado. Como estava impossibilitado, em 10 min fiz uma escala com 7 pessoas para que cada um cuidasse das crianças por uma hora, e assim foi o dia. A mãe deles só vinha pra dar de mamar e o resto a galera cuidava, então ela pôde fazer as coisas dela e descansar ao invés de cobrir o meu tempo. Isso tem um valor inestimável.

É obvio que também tem dificuldades e problemas, mas sempre tem pessoas pra ajudar e dar feedback, dizendo ”oh, vocês estão mimando demais ele, não estão dando limite”, ou “tu não brinca com teu filho, fica só na função da tua namorada”, “teu filho tá muito carente”, etc. É algo muito novo e revolucionário, quebrar estes conceitos de família, de que os filhos são propriedades dos pais e só eles que são responsáveis pelas crianças. Quando vejo a beleza e a espontaneidade dessas crianças, cada vez tenho mais certeza de que estamos no caminho certo.

Quem tem medo do amor livre?

Amor livre

Por Gyan Pavita

 

Pra começar, sempre desconfiei dessa expressão. “Amor livre”… parece pleonasmo. Se não for livre, vai ser o quê? Amor preso? Amor limitado, amor escravo…? Decerto vai… e decerto é por isso que as pessoas tem tanto medo do tal “amor livre”, acostumadas que estão a serem limitadas, presas, escravas…
Amor e liberdade são palavras grandes, que assustam… os dois vem sem manual de instrução, sem rede de segurança. Pra amar e pra ser livre é preciso confiança, justamente algo que foi muito machucado na vida de todo mundo que foi criança um dia. A gente cresce com a noção (duramente aprendida) de que amar é perigoso, e que liberdade é um estado a ser alcançado quando eu tiver dinheiro suficiente, segurança suficiente, status suficiente…
Amor livre é um caminho de crescimento. A gente se apaixona, se envolve e começa um relacionamento. O início é vivo, cheio de tesão, de sentimento, frio na barriga… a gente fica mais bonito, mais amoroso, cheio de energia. E aí surge a grande idéia de garantir que isso não acabe nunca! Até contrato assinado a gente faz pra registrar essa garantia! Mas não é assim que funciona, amigos! A gente sentiu esse amor num momento em que se sentia livre, disponível, aberto pra isso. Essa é a dica! Vale muito mais investir nessa liberdade, disponibilidade e abertura, pois assim é que as coisas acontecem! Assim é que o amor acontece. A partir do momento em que você decide trancar num cofre teu tesão, teu amor, teu carinho, pra só tirar na hora certa, com a pessoa certa… estamos decretando a falência do amor.

O Fantasma da Traição
Responde rápido: do que você tem mais medo – de sentir atração por outra pessoa ou de que seu parceiro, sua parceira sinta atração por outra pessoa? Já parou pra pensar? O mais normal é que a pessoa tenha medo de que o outro fique a fim de alguém. E aí? O que pode acontecer de tão terrível?
Cenário 1 = ele ou ela se apaixonam pela outra pessoa e você baila. Você acha mesmo que se ele ou ela reprimirem o que sentem por essa outra pessoa vocês vão ficar melhor? Preferiria que ele/ela ficasse com você, mesmo sendo a fim de outro/a? (se a resposta for sim, não precisa continuar lendo esse texto)
Cenário 2 = ele ou ela sentem atração por outra pessoa, “conferem a situação” (se permitem ficar com essa pessoa e ver o que rola) e vêem que não era nada importante, e voltam pra você ainda mais confiante no amor de vocês. Legal, né?
Cenário 3 = ele/ela sentem atração, conferem a situação e vêem que não era nada demais, mas que na verdade sentiram atração por outra pessoa porque não está mais rolando entre vocês. Assim uma situação que pode ter estado estagnada entre vocês se resolve e fica tudo mais claro. Melhor do que ficar na estagnação, né?
Cenário 4 = ele/ela sentem atração por várias pessoas, o tempo todo e “tem que conferir” o tempo todo, ou seja, transar com todo mundo… bem, talvez esta pessoa não esteja a fim de estar num relacionamento… E aí, você vai querer estar num relacionamento com esta pessoa? Agora inverte estes cenários e considera que você é a pessoa que sentiu atração por outro/a. Como se dão estas equações?

Ciúme nunca foi medida de amor, só em música de dor de cotovelo… Ciúme é um sintoma da falta de amor que nós vivemos ao crescermos, da falta de confiança no amor, da falta de confiança em nós mesmos. E querer limitar o parceiro para sentirmos menos ciúmes só garante uma coisa: que o ciúme vai continuar intacto e a falta de confiança também. A gente pode brincar de pertencer um ao outro, como falam tantas músicas de “amor”, mas à medida que a gente amadurece, chega hora que a brincadeira vence a validade e a gente tem que partir pra vôos mais altos. Mas, veja bem, envelhecer é certo pra todo mundo, já amadurecer é escolha pessoal…
E a piada escondida nisso tudo, todo esse pandemônio de pavor do amor livre e de ser deixado, rejeitado, abandonado, é que, à medida que você permanece honesto e autêntico com o que sente, sem se esquivar dos desafios que o amor vai inevitavelmente trazer, toda essa necessidade de experiência vai relaxando e caindo literalmente “de madura”. O amor sobrevive a desafios, e cresce com eles, assim como tudo que é vivo. As próprias plantas para crescerem fortes, precisam de ventos, chuvas, sol, não só de tempo bom…

“Felizes para Sempre”
Era uma frase bonitinha quando a gente tinha 5 anos e ouvia as histórias na hora de dormir. Mas eu desconfio da felicidade contínua da Cinderela e seu príncipe, da Branca de Neve e seu príncipe, Rapunzel, Bela adormecida, etc, etc…
A gente precisa entender o sentido de “endless love” (amor sem fim). O amor da gente não acaba, mesmo, mas vai mudando de direção. Não dá pra forçar. Não tem que durar pra sempre com aquela pessoa. Importa é o amor que você viveu, não o tempo que ele durou. Cada encontro é uma possibilidade de amor. Amores de uma noite, semanas, anos, qual não vale a pena? E “se não há amor, não te demores”.
Tá mais que na hora da gente sair desse clichê que “amor livre” significa transar com outras pessoas. Tá na hora de respeitar o amor mais do que os nossos medos, de reconhecer que o amor vem pra esculhambar nossos limites e nos fazer expandir, a ponto de nos querermos livres, e a quem amamos também. E aí esse amor pode expandir pra fora do relacionamento, pra amizades, causas, nossa comunidade, nosso planeta. Estamos perdendo muito do que o amor tem pra nos mostrar enquanto insistimos na birra do “é só meu!”

 

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