Amor X Ciúme

Por Gyan Vanmalli e Prem Milan

Acreditamos que ciúme indica amor. Até gostamos que nossos parceiros sejam possessivos e ciumentos, pois assim acreditamos que somos amados. Mas você já se perguntou que tipo de amor é esse?
“O ciúme é uma das áreas em que mais prevalece a ignorância psicológica com relação a nós mesmos, com relação aos outros e, particularmente com relação aos relacionamentos. As pessoas acham que sabem o que é amor; elas não sabem. E esse mal-entendido sobre o amor provoca ciúme. As pessoas acham que “amor” é uma espécie de monopólio, de possessividade, sem entender um simples fato da vida: no momento que possui um ser humano você mata essa pessoa. Osho, em “Saúde Emocional: Transforme o Medo, a Raiva e o Ciúme em Energia Criativa”
Quem sente ciúme parte do princípio de que é o centro do universo e o dono de tudo. O ciumento leva como traição o fato de a pessoa amada (ou nem tão amada assim) ter outros amigos, outras atrações, ex-relacionamentos. Só ele é digno do interesse daquela pessoa. É um sentimento de posse do outro, um sentimento que aprisiona, motivado por uma grande insegurança. É como se, pelo fato do outro estar tendo um momento de diversão, de amor, de atração com outra pessoa que não ele, todo o seu valor fosse para o ralo, como se ele não fosse suficiente. Mas que relação miserável seria essa se ambos fossem suficientes um para o outro! Ou se os dois se contentassem com o suficiente, não buscassem algo mais do que apenas o mínimo.

Tem algo errado comigo…

Mas apesar do ciúme ser esse sentimento horrível e inaceitável para o amor, todos nós sentimos. Sentimos ciúmes de tudo. De nossos parceiros, pais, amigos, ex-parceiros… Quando somos crianças e nossos pais dão atenção ou carinho a outras crianças, sentimos que vamos ser trocados, que eles gostam mais dos outros do que de nós. E eles dão uma mãozinha: “está vendo como fulano se comporta direitinho? Você devia ser mais como ele”… Desde pequenos somos estimulados a achar que não somos certos do jeito que somos e que por isso vamos ser trocados, rejeitados. Isso se repete na vida adulta com amigos e relacionamentos amorosos. Sentimos ciúmes quando um amigo ou amiga sai com outros amigos e não nos convida. Sentimos ciúmes quando o parceiro tem amigos muito próximos, ou quando ele deixa de fazer algo conosco pra fazer com outras pessoas. Sentimos ciúmes até de nossos ex-parceiros, quando começam um novo relacionamento (mesmo quando não os amamos mais nem temos vontade
de reatar a relação)- vem aquela pergunta: “o que ela tem que eu não tinha?”. E tem até o ciúmes da ex do atual parceiro…  Em todos os casos o ciúme revela muita insegurança e comparação, e tentamos compensar esses furos com posse e aprisionamento. É exatamente o contrário do amor, onde tudo flui livremente.

Aonde começa isso tudo?

O ciúme começa lá na infância. Muitas vezes a mãe está carente, numa relação frustrada e, ao engravidar, com toda alteração circunstancial e hormonal, ela se sente preenchida, validada como pessoa por ser capaz de ser mãe. A partir daí, aquele bebê passa a ter a dura tarefa de continuar preenchendo essa carência da mamãe e começa uma relação de posse. Além disso, a mãe pode se satisfazer com esta nova relação e deixar o parceiro de lado, o que desperta o ciúme do parceiro em relação ao bebê (que nem nasceu ainda e já tem que lidar com tudo isso!). Geralmente são relações que estão fracassando e que são alimentadas pela vinda de um filho. Depois, no desenvolvimento da criança, existe a fase em que o menino e a menina querem uma validação sexual do seu genitor do sexo oposto. Perturbados com aquela energia sexual de repente direcionada e eles, os pais e mães tendem a reprimir este processo natural ou, ainda pior, estimular de forma distorcida para sua própria validação. Isso dá origem a jogos de sedução e à fixação do menino com a mãe, e da menina com o pai, muitas vezes estimulada pelos próprios (a namoradinha do papai, o menininho da mamãe…). E começa o conflito da mãe com ciúmes da menina com o pai, o pai com ciúmes da mãe com o menino, as crianças com ciúmes do pai ou da mãe…
Esta situação aconteceu comigo, aconteceu com você, mas talvez você não lembre, porque dói. Ora, complexo de Édipo existe, não é uma peça de teatro. Quando o menino e a menina jogam sua energia sexual e amorosa para o genitor do sexo oposto, eles estão querendo ser validados, reconhecidos, e não praticar sexo com seus pais. Pais relaxados e satisfeitos não ficarão tão inseguros com esta situação, conseguindo reconhecer e atender as necessidades reais de seus filhos. O nível de resolução da sua situação edipiana vai influenciar diretamente no grau de ciúmes que você vai ter.
Eu sinto ciúmes, e todas as vezes que vivi uma situação de ciúme, tive a escolha de me tornar cético, raivoso, medíocre, ou atravessar minha dor e ir além. Isso causou um salto em minha vida. Me lembro de passar o dia inteiro com a mente ocupada com minha parceira e o que ela estaria fazendo. Acho que é assim com muita gente e a energia que se gasta nisso é enorme! Depois, na hora de amar, esse pano de fundo atrapalha muito.
“Ciúme é acúmulo de dúvida e incerteza de si mesmo projetado, jogado como lama anti-erótica na cara do desejo mais pro intenso de ficar com a pessoa.” Fausto Fawcet
Nunca me separei por minha parceira ter estado com outra pessoa ou por eu ter me envolvido com outra pessoa. Passei pela dor, pela raiva… Mas toda vez que eu reprimi uma vontade real e consistente de estar com outra pessoa, isso acabou destruindo o amor que eu tinha. Esta é uma verdade inequívoca.

Tem saída?

Ao invés de buscarmos formas de melhor controlar o parceiro, a parceira, o foco precisa ir para como viver mais profundamente o amor, como amar mais. A vontade de estar com outras pessoas é algo extremamente natural. É parte do crescimento. Eu não seria a mesma pessoa se tivesse amado ou transado só com uma ou duas mulheres. O fato de ter vários amores e várias trocas sexuais na vida, me fizeram um ser humano muito mais completo e possibilitou que eu amasse muito mais as minhas parceiras.
Eu posso afirmar que vivi sete grandes amores. Digamos que em 58 anos é algo razoável, ou você acha que isso é ser uma pessoa muito galinha? Não, tive amores consistentes, que enriqueceram minha vida. Realmente é muito raro uma pessoa não ter ciúmes, mas conheço muitas pessoas que foram crescendo e conseguindo ir além do ciúme, permitindo uma maior abertura em seus relacionamentos. Esse crescimento implica necessariamente em limpar as feridas do passado- da falta de valor próprio,
da insegurança em relação ao amor; para abrir espaço para a experiência real do amor. Como tudo na vida real, o amor não é seguro: é vivo, vibrante, selvagem e não pode ser controlado e manipulado. E aí reside sua beleza e potencial.

 

2 comentários sobre “Amor X Ciúme

  1. Falar de ciúme realmente faz desacomodar muitas coisas dentro da gente.. e isso é ótimo, ou deveria ser sentido assim. Mas essa palavrinha tem representações bem diferentes para as pessoas… ou talvez aí estaríamos falando dos “níveis de ciúme” que já escutei por ai… e mais que um “pouquinho de ciúme sempre é bom.. indicaria interesse”. Enfim, as muitas distorções que isso gera, fazendo com que o amor e a liberdade também sejam distorcidos. Para muitos, quando se fala de ciúme (e eu incluiria amor e liberdade) o que de pronto vem em mente é: Meu parceiro interessado SEXUALMENTE por outra pessoa!!! Agora… reduzir os relacionamentos a isso é pensar muito pequeno na minha opinião… cada um de nós é mundo a ser explorado, um mundo de possibilidades e sensações e que deve poder se expressar! Isso não me faz deixar de acreditar na possibilidade de duas pessoas se envolverem sexualmente somente uma com a outra, até porque uma real entrega sexual, que implica a conexão de sentimentos, é uma extrema expressão de liberdade! Mas a liberdade de viver vai muito além do envolvimento sexual, ela implica a expressão do ser em todos os sentidos! E daí se acaba sentindo ciúme de alguma situação?? Sim!! E bom, se aproxime da situação, entenda por que sente isso (certamente não é por amor hehe) use o desconforto pra crescer e aprender mais de si e de sua relação… e existem escolhas, isso faz parte da conquista da liberdade… e nem sempre as vontades estão em sintonia, isso não significa falta de amor, de interesse… e me parece que quem consegue AMAR conseguiria compreender isso sem ciúme… pois o outro não é um OBJETO é um SER VIVO, com diversas vontades e é exatamente isso que faz dele interessante e encantador a ponto de querermos nos relacionar. Ou você prefere se relacionar com um par de chinelos os quais você calça a hora que quer e caminha por ai pisoteando-o com suas escolhas de caminhos pela vida???

  2. Mas e se a pessoa q sente ciúmes não tem vontade estar com outra pessoa ou mesmo nem sente atração por outras pessoas ? Ou ate sente atracao e idealiza mentalmente um momento com uma figura sexualmente atraente mas nunca chega a concretiza-lo por se sentir satisfeito demais com sua compania ? Então tera que batalhar pra achar alguem q pense igual senao estara sujeita a se submeter a tortura de ver seu parceio (a) sentir seus desejos e vontades em achar que outras pessoas tbm podem ser interessantes por ninguem ser dono de ninguém ?
    Onde está a coerencia nisso. Talvez duas pessoas possam pensar em igualdade nesse sentido. Apenas aumentaria a dificuldade de se encontrar alguem com o mesmo idealismo. Mas ai estaria o verdadeiro trunfo da vida. No reino animal existe a poligamia, o homosexualismo, o ciume como o doentio do Joao de Barro q prende sua parceira para morte em sua casa caso descubra sua traição, e todo tipo de relacionamento possivel e impossivel como a cruza de especies diferentes, mas ha o caso das araras, maritacas e outros em q o parceiro se tornará unico ate o final de suas vidas. Quem vivera feliz de verdade ? Quem experimentou tudo que pode enquanto teve a ” mente aberta ” deixando seu parceiro (a) a vontade para tbm realizar suas experiencias de desejos ou quem experimentou o amor pleno e sem culpas ou desculpas para aquela escapadinha sexual ? Poderia o ser humano ao chegar ao fim da vida e saber q foi tao especial e único pra alguem tendo sua reprocidade nisso… ? Como os antigos…. ? Como meus avós…. ?

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