Até que a morte os separe

Por Prem Milan

 

Repita pra você mesmo a frase acima. Se preciso faça mais de uma vez. Você vai se dar conta do peso dessa afirmação. Se, brincando sozinho, isso já é por si um peso, imagine agora isso ecoando por anos, sendo repetido de geração em geração. Nossos pai, avós, bisavós… Ao longo da história esse foi o compromisso: até que a morte os separe. Hoje isso me soa mais como uma sentença. Você tem que ficar DE QUALQUER JEITO, de qualquer maneira, com aquela mesma pessoa até o fim de sua vida.

 

O casamento é uma instituição que veio pra tentar domar o amor e tudo que é selvagem. E como qualquer coisa que é domada, o amor, domado, morre. Basta ver os bichos nos zoológicos, são uns mortos-vivos. Isso aconteceu com o amor por causa da tal segurança… As pessoas querem ter a segurança de que aquele homem, ou mulher, não vão lhes abandonar. Essa segurança teve início por uma necessidade social, para estabilizar as famílias, as propriedades… Uma questão de organização social, não de amor! Pro amor isto fez muito mal.

 

Quando você cria esse pacto – e não precisa estar casado na igreja, as vezes até esses relacionamentos “new age”, mais “moderninhos”,  têm esse pacto: “você é meu e eu sou sua”! Uma dominação de consenso mútuo. Quando você faz isso, dobra a pessoa, e o amor perde a graça. Porque você deixa de ter o que conquistar naquele amor, ele se torna garantido. Aos poucos você se contenta com isso, então, são  duas pessoas semimortas juntas.

 

Segurança é bom pra presídio. Amor é aventura. Observe, pois muito provavelmente, neste momento, você está sim aprisionando! Nós agimos assim, vigiamos para que o parceiro, a parceira não fique a fim de ninguém, não fique mexido/a com ninguém. Por medo disso, você se condena a passar o resto da vida sem ficar mexido com mais ninguém. Só que, para acontecer isso, uma parte do seu ser precisa ser negada. Aos poucos as pessoas se de-sensualizam, engordam, ficam feias, tratam mal a si mesmas, elas perdem a cor. Aí, é claro, ninguém olha! Viram dois atrolhos! Só que ficam um atrolho um para o outro também.

 

No período da paixão, quando você está apaixonado/a, todo seu ser vibra de amor. Mas esse período de muito calor e êxtase, passa. Por que? A paixão acaba porque nesse pacto você começa a comprometer sua verdade. O que antes era espontâneo, natural, vai cedendo ao que é esperado pelo outro e até por você mesmo. Vocês transavam um monte, curtiam um monte quando estavam juntos, mas não moravam juntos. Agora vocês moram juntos sobre o mesmo teto. Estão juntos 24 horas por dia, ou em todo o tempo livre – são dois pólos opostos, o negativo e o positivo, em permanente contato. Não há magnetismo que aguente, a atração vai se perdendo. Essa é uma lei natural. Dormir toda santa noite com seu parceiro/a é um absurdo! Pare pra pensar um pouco e se questione de verdade. Hoje não parece ser absurdo porque ouvimos que isso era o certo e vimos todo mundo fazer – a instituição chamada casamento – logo reproduzimos que o certo é morar junto. Quando você não mora junto ou não está todo o tempo junto, se cria aquela atração mais forte.

 

Eu sei que existe toda uma situação econômica por trás, porque facilita economicamente pra família, pra cuidar dos filhos, etc, etc… Mas e daí? O que vemos é que muitas vezes as pessoas passam a se odiar depois que vão morar juntas, aí elas tem que se anular para poder aguentar o convívio. Depois esse peso é transferido para os filhos, que acabam tendo que carregar a responsabilidade desta união mórbida. Quantas vezes os pais não se separam por causa dos filhos? Responda você! Muitas vezes não falam diretamente, mas fica subtendido o tempo inteiro: “por sua causa eu fiquei com  aquele idiota ou com aquela megera!”

Se a questão for econômica, é perfeitamente viável você morar com amigos, ela com amigas e vocês se encontrarem pra se amar. Vai ser muito mais forte e rico. E os filhos? Eu sou separado há muitos anos e conheço pessoas que são separadas e compartilham um monte com seus filhos. Para os próprios filhos é muito melhor ter pais amorosos, que pais casados. Eles acabam sendo muito mais realizados. É claro que tem alguns pais e mães irresponsáveis que abandonam seus filhos totalmente. Isto é outro papo. A questão é, mesmo morando sob o mesmo teto, há pais que não tem um contato real com seus filhos, não dão bola pra eles.

 

Amor não precisa de segurança. Quando o sentimento passar é porque a existência quis assim, porque as coisas são assim. Quando uma historia de amor passa, você tem mais é que chorar e agradecer aqueles momentos lindos e belos que teve e ir em frente. Respeitar essa pessoa e a pessoa lhe respeitar. Se nós não conseguimos fazer isso é por causa de uma deficiência que temos de situações vividas lá atrás, na nossa infância. Quando acontece de um amor acabar e dar fim a um relacionamento, vem um desespero enorme, uma sensação de que vamos morrer. Mas é o desespero daquela criança lá, que não teve aquela segurança do pai e da mãe, não teve aquele amor. Na nossa infância, a falta do pai e da mãe abriram buracos enormes no nosso ser. E isso não tem nada a ver com a vida adulta. Criança precisa saber que o pai e a mãe estarão ali, um adulto não precisa disso. Um adulto é capaz de se mover pelas suas pernas, ter autonomia. Ele não está ali carente, precisando do amor de alguém, ele está ali para trocar amor com outra pessoa. Isso muda o foco da relação.

 

O amor não tem um objetivo. Qual é o objetivo de um relacionamento? É ter filhos? Não! O amor é uma provocação para você crescer, aprender sobre si mesmo na relação e alcançar estágios mais elevados como ser humano.

 

Bonito é quando acontece o amor que pode durar, 10, 20, 30 anos, 1 mês, 2 meses, 3 meses, 4 meses, 5 meses, e sempre crescer. Agora, ficar empacando a vida da outra pessoa e a sua própria em nome dessa segurança é uma sentença de morte. Seguro está o morto no cemitério. Aquele lá ninguém vai incomodar… Você não quer perturbação na vida, não quer desafios, não quer riscos? Morre! E não tem problema, existem mortos verticais às pencas por aí. Basta olhar na rua. Defunto é o que não falta, é só olhar como caminham na rua, como se portam.

 

Para o amor não vai fazer bem você ficar com a pessoa por medo de entrar em contato com suas dores. Nossas dores precisam ser processadas, ou  elas vão se transformar em doenças, não tem escapatória. Ou você prefere viver tomando comprimidos toda hora? Ou se entupindo de drogas, internet, compras, etc pra desconectar? É super importante quebrar com todas essas estratégias de segurança, compromissos, contratos. Tudo isso só faz mal ao amor. Precisamos aprender a confiar no coração.

 

Para mexer nisso tudo, temos que lutar com um condicionamento de milênios, já muito arraigado em nós! Se você quiser manter o seu calor amoroso, você vai precisar de muito trabalho sobre si mesmo. Vai precisar de muita meditação. Eu adoro o mestre indiano OSHO por isso, além de ter criado técnicas fantásticas que nos ajudam a sair desse transe neurótico, ele é o cara que tem a coragem de denunciar tudo isso.

Encarar essa mudança vai trazer uma enorme riqueza para o seu ser. E essa é nossa missão na vida: resgatar o amor, viver o amor.

 

Para um pouco e sente. Teu coração vai te dizer. Nem a morte separa dois corações amorosos. A morte separa dois cadáveres ambulantes.

 

 

 

2 comentários sobre “Até que a morte os separe

  1. Um texto desse lido por uma pessoa sem experiência vai até acreditar . É por isso que o casamento ficou banal, por pessoas que fracassaram no casamento e tentam colocar essas idéias contrárias a de um verdadeiro casamento, amor, união etc… Eu quero viver com meu marido até q a morte nos separe, mas com muito amor, carinho, compreensão , dedicação etc …sacrifícios fazemos o tempo todo na vida. Seja no trabalho, na família ou com os amigos. Assim como na amizade q nos aborrecemos ou não aceitamos ou não concordamos com o amigo, não é por isso q vou deixar a sua amizade . Assim tbem não vou deixar meu casamento por alguns fatos que não concordo. Mas na verdade é mais fácil, descartar. Enfim, tenho pena de quem pensa dessa forma em relação a casamento.

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