Da Solidão Virtual ao Amor Real

Por Shanti Lu

A vida humana prescinde de relacionamentos e era mesmo impossível que o tal mundo virtual não entrasse também nessa área de nossas vidas. No entanto, sendo imprescindível que a gente tenha contato com outros seres humanos, precisamos refletir acerca da qualidade das relações que estamos estabelecendo e as conseqüências disso.

A internet está sendo cada vez usada não só para iniciar um contato com alguém, mas também como fonte de (pseudo) preenchimento emocional. Assim, o que era pra ser apenas mais uma facilidade da vida moderna, virou um vício e, como tal, tem causado muito mais dano que benefício. Na prática, o/a camarada que buscava apenas facilitar ou ampliar seu contato com pessoas está se isolando e se iludindo ainda mais dentro do conforto solitário de seu doce lar ou trabalho. E, quando se dá conta, já está perdendo a maior parte do seu tempo buscando sites, chats e redes sociais, respondendo mensagens e checando se alguém viu o seu perfil varias vezes ao dia, numa verdadeira “larica” emocional.

Se identificou? Então se liga! Você também já é um adicto de relacionamento virtual. Você está disfarçando sua solidão e não encarando-a. Infeliz e contraditoriamente, você não está sozinho, está “acompanhado” de outros zilhões de solitários, numa cadeia que hoje abrange em maior ou menor grau a grande maioria das pessoas que têm acesso à rede.

Sim, a  maioria das pessoas, mesmo as que jamais acessaram um site de relacionamentos, ou um chat de paquera. É só olhar a nossa volta (e pra gente mesmo)  e ver que aquela ingênua e desenfreada troca de mensagens que se faz na mesa de um restaurante quando se está cercado de amigos reais, é, no fundo, uma opção por não se relacionar. Assim como quando no elevador com vizinhos ou colegas de trabalho; no ônibus, metrô, (até dirigindo!); caminhando na rua e, mesmo em casa, cercado de filhos, irmãos… Porque a vida real com gente de corpo presente  está acontecendo o tempo todo à nosso volta e, pasmem, fora das telinhas grandes ou pequenas. Já parou pra pensar nisso?

Você pode estar pensando: “qual a novidade? É o mesmo papo desde que inventaram a TV.” Mas, duas coisas fazem toda a diferença hoje: primeiro a interatividade e agilidade de resposta,  segundo, todo esse acesso acontece em um aparelho pequeno que carregamos no bolso. É como aquelas velhas mini-garrafas de uísque, estão sempre à mão para um golinho. Só que pior, porque o álcool você não vai poder beber, ou vai ter vergonha de fazê-lo no trabalho ou na frente de seus filhos mas, um “golinho” de Facebook ou WhatsApp, quem se importa?

As histórias são muitas, mas não por acaso todas elas acontecem nessa sociedade, baseada no medo e na repressão na qual nos sentimos acuados, desconfiando de todos e de nós mesmos e, por isso, permanecemos super solitários, isolados atrás de laptops, tablets, smartphones… tomando pílulas que vendem felicidade e trabalhando como robôs, mesmo que com algum status , para que a “Grande Máquina” não pare funcionar.

Em um mundo cada vez acelerado, movido basicamente por grana, imagem e status, a internet se tornou uma espécie de deus do qual ficamos dependentes e submissos. Um deus para o qual rezamos todo santo dia e no qual projetamos expectativas irreais, ilusórias, entre elas a de encontrar um amor para viver… Será?

É assustador constatar que  filmes como: “1984”, Laranja Mecânica, Matrix e Ela, se tornaram roteiros que, de forma ou outra, estamos vivendo na realidade.

Qualquer um que tenha assistido Ela (Her, EUA, 2013) se deparou e, talvez como eu, pirou com a equação que envolve amor, solidão, ilusão e realidade. Resumindo muito, o filme conta a história de um solitário escritor que se apaixona por nada  mais, nada menos, que um Sistema Operacional!!! Isso mesmo. E o pior é que o filme é tão bem feito que lá pelas tantas a gente entra mesmo na viagem do protagonista que, apesar de inteligente e sensível, se vê enlouquecido em um relacionamento amoroso pra lá de virtual.

Mais uma vez a sétima arte não está nada longe da realidade. Conversando com muitas pessoas sobre relacionamentos virtuais, surgem as mais variadas histórias, das mais bizarras, tipo o cara que se faz de mulher mega sedutora, cria relações virtuais triangulares com homens casados e depois denuncia os maridos seduzidos às suas esposas. Às “Novas Princesas da Disney” que, encasteladas em seu computador, foram salvas pelos seus príncipes e se dizem, felizes para sempre, ou até conviverem com eles em carne e osso. Tem também os solitários convictos que se preenchem apenas com um bate-papo, uma troca de e-mails, ou uma masturbação movida a brinquedinhos virtuais. Ou ainda, pessoas casadas que mantém relacionamentos paralelos para aguentar seus parceiros e atenuar o tédio de suas relações.

Pra quem está buscando apenas escapar da sua realidade e não transformá-la, ou ainda quer um relacionamento mas não amar de verdade, talvez as mil e uma possibilidades da internet sejam um ótimo serviço. Mas pra quem quer mais do que isso, uma relação só virtual, ou construída na virtualidade não tem como ser suficiente, não tem como aquecer teu coração e te fazer sentir apaixonado de verdade, só na ilusão, na imaginação, na mente.

Talvez você seja muito tímido mesmo e fique apavorado ante a possibilidade de ter que puxar um assunto com alguém que lhe interesse. Ou você não tem mais saco pra ir a bares, danceterias, topar com um monte de gente loucona, em busca de algum possível relacionamento.  Fazer o quê? Paquerar em um Parque, no supermercado? Com o dia claro e sem aditivos químicos talvez te dê mais medo ainda, né?

Mas, e aí? Você pode até encontrar alguém com um perfil que tem afinidade com o seu (se for verdadeiro) mas não há  nenhuma garantia de encontrar alguém pra se apaixonar, amar mesmo. Pode até ser alguém legal com quem você possa conversar e quem sabe até ter algum contato físico, mas a magia toda do amor é outra coisa! E precisa sim, ser desvendada pelos sentidos.

Lembro daquela música do Caetano: “A tua presença entra pelos sete buracos da minha cabeça… pelos olhos, boca, narinas e orelhas…” Nenhum espaço virtual pode te dar isso. Nenhum amor idealizado, virtualizado vai te dar isso. Não vai te trazer o desafio, o frio na barriga que é o próprio combustível que mantém vivo o amor e te faz crescer, se conhecer mais através da relação. Essa é a melhor parte!

A solidão e o medo do contato fizeram a gente se acostumar com os “enlatados”, mas corremos o risco de viver relacionamentos que não nos nutrem de verdade. A gente pode estar viciado em um monte de porcarias falsas, desde a comida até o sexo, mas comer um enlatado com um ótima embalagem nunca vai ser tão bom e saudável quanto saborear algo fresquinho, vivo.

Não há volta para o avanço tecnológico, ainda bem. Se não nem essa Mosca aqui poderia voar pelo espaço virtual e espalhar o vírus que perturba o sono dos acomodados. Mas, podemos e devemos tratar uma máquina como máquina, uma ferramenta como ferramenta e nos declarar deuses de nossas próprias vidas. Deuses que no fundo somos, de carne e osso, buscando nos conhecer e trocar mais: riso, choro, gozo, grito… Dando toda a nossa energia por um mundo mais amoroso. Mas não o amor das igrejas, nem o dos computadores e sim o amor de verdade que começa no olhar, na pele, passa pelas nossas vísceras e vai até o coração e além. 

2 comentários sobre “Da Solidão Virtual ao Amor Real

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