Eram garotos que, como eu, amavam futebol com padrão de alegria.

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Por Prem Milan

Lembro de mim com o radinho, em 66. Primeiro jogo do Brasil contra a Bulgária. Garrincha, Pelé, Edu! Um ataque e tanto! Ainda o velho Djalma Santos na lateral, Gilmar como goleiro, o Mendes Ribeiro transmitindo e nós, garotos, imaginando as jogadas. Acabava o jogo, saíamos direto pro campo de pelada. Ali nós eramos os craques, tentávamos dar aquela bicicleta que o Pelé deu, ali tentávamos os lançamentos, fazíamos as jogadas do Garrincha. Só na imaginação.

Mas nós tentávamos. Criávamos as nossas jogadas, as nossa belezas. Só parávamos quando escurecia e não dava pra ver mais nada. Chegávamos tarde em casa, onde provavelmente levávamos uma bronca ou uma sova! Era muito incrível. Nós aprofundávamos as amizades, brigávamos, disputávamos poder e depois tínhamos que nos perdoar, porque o jogo tinha que continuar. Esse era o amor principal. Todas as nossas desavenças tinham que ser resolvidas para a nossa brincadeira continuar.

O fominha, que não passava a bola, todo mundo peitava. Todos nós éramos craques. Lá todo mundo era Djalma Santos, Nilton Santos, Gilmar, Beline, Zito, Didi, Vavá, Pelé… Todos nós éramos craques. Ninguém era coadjuvante e isso era bonito, por que nós começávamos a aprender a verdadeira democracia. Não tínhamos que servir ao craque. As imagens, nós só víamos no canal 100, 6 ou 8 meses depois, no cinema. A nossa tecnologia era muito muquirana, mas nosso coração era algo intacto e apaixonante.

Nós criávamos nosso timezinho de futebol, construíamos nosso campinho. Todos pegavam junto. Era toda uma gurizada que pegava uma enxada e ia lá capinar. Ninguém se negava ao trabalho. E era uma lei muito bonita: não trabalhou, não joga! Fazíamos nossos torneios, com as turminhas de cada lugar da cidade. Era algo emocionante, uma vibração, uma paixão contagiante. Era uma tarde inteira de pés descalços, correndo. E aprendemos muito ali. Situações limites, a expansão do nosso corpo, agilidade, equilíbrio corporal que futuramente nos trouxe equilíbrio emocional e, acima de tudo, prazer, alegria! Ir para casa de cabeça erguida e satisfeito, pronto para as broncas da mamãe.

Lembro do nosso timezinho de futebol: o Relâmpago. Éramos 7 garotos no porão da minha casa discutindo sobre como conseguir dinheiro para fazer a camiseta do time. Um sugeria vender vidro, outro, ferro, fio de cobre, e assim nós conseguíamos. Aquela camiseta verde, com o Relâmpago desenhado de um jeito meio grotesco, era linda. Na estréia entramos com uma pompa que nenhum ‘Cristiano Bolstaldo’ tem. Éramos imperadores, pois tínhamos construído aquilo. Lembro do Juventude, timezinho da cidade. Uma paixão que eu tinha. Me lembro de uma cena incrível no café da cidade num sábado, antes do clássico GUAxJU. O treinador desse time, o Cavaim, que era um serrador de lenha, só com dois dentes na frente, entra e vê dois jogadores bebendo e fumando. Aos gritos, ele tira o cigarro e a cerveja e bota os dois a subir o morro enorme da cidade como castigo! Eu ali, impressionado com a energia, com o amor e o respeito que aqueles dois reconheceram o seu erro e aceitaram. Era incrível porque depois, na segunda-feira, esses nossos ídolos estavam com a gente tomando cafezinho.

Eu era e sou gremista fanático, da época do Alcindo, Volmir, Ortunho… Mas eu não queria ser eles, queria ser o Robertinho, o meio-campista do juventude que batia uma falta maravilhosamente bem.

Hoje, olho para meus filhos e eles perderam tudo isso. Tem um amor pelo Grêmio, pelo Inter, mas existe uma distância quilométrica. Não participam em nada, veêm na televisão… Não tem seu campinho de futebol. Por isso, estou organizando a criação de uma escolinha de futebol aqui no sítio, para dar ao meu filho esta experiência, o êxtase do futebol nosso de cada dia.

Eu vou assistir a todos os jogos do mundial. Mas domingo, às 4 da tarde, no Monumental Cantagalo*, vou demonstrar minha categoria acumulada, de 48 anos de copa. Aqui, na Comunidade Osho Rachana, onde moro, todos domingos à tarde, o bicho pega no campo! São craques reproduzindo jogadas… É um simples desfilar de muitos craques exercendo a possibilidade do futebol ser uma brincadeira, um resgate da amizade, uma conexão com o corpo e, acima de tudo, alegria.

Sou quase sessentão e tenho orgulho de poder jogar futebol com a gurizada de 30, 25. Isto é maravilhoso, é saudável. Para mim o futebol é uma meditação pois, naquele momento, solto tudo e fico presente no ato, me superando em muitos aspectos.

Isso é uma alegria à qual nenhum padrão FIFA se equipara. Mas falaremos mais sobre isso adiante.

[segue num próximo post…]

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