Culpa: a arma da vítima

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Por Anand Aiman

Lembro quando ouvi pela primeira vez a frase “Castramos os animais para que fiquem dóceis. Ser humano se castra com culpa”. Aquilo me incomodava primeiro porque para eu considerar aquilo verdade, tinha que reconhecer que, antes de mais nada, eu era castrado! E quanto mais me debatia com a afirmação, mais eu via que era verdade! Que somos castrados.

E esse é o algoz. Na verdade, vivemos numa sociedade que prega e escreve sobre liberdade, mas somos reféns. Atados e amordaçados por uma culpa inconsciente arraigada em cada pedaço de nosso comportamento.

Esqueça por um instante seu carro, seu cargo, sua posição… Esqueça o título o qual responde, pai, mãe, filho, esposa… Faça isso por um segundo. Prometo que não vai ser aquelas visualizações baratas de auto-ajuda em que você se encontra numa flor no final. Você já clicou, agora vai até o fim. Esqueça tudo aquilo que seu ego e as pessoas consideram ser você. Respire fundo e seja honesto, você se sente livre? Tirando todos os artifícios, você se sente “ok” com você? Para ser do jeito e se expressar como quiser? Este é o primeiro ponto. Estamos surdos de tanto silêncio e apáticos de tão contidos. Isso é um reflexo de que não sentimos confiantes para ser nós mesmos, como se fossemos inadequedos ou tivessemos emoções inadequedas.

Essa sensação de inadequação é pura e simplesmente uma mensagem de que somos errados ou que não somos o que deveriamos ser. É como se ouvisse uma vozinha dizendo “não pode”. Sabe? Aquela leve sensação de que se você tiver sucesso pode machucar alguém? Um amigo do trabalho, a namorada… Sabe? Quando você está em um relacionamento e se sente mal quando outra pessoa mexe com você. Nem precisa acontecer nada, basta a pessoa existir e mexer com você. Esses dias vi isso acontecer.

CULPA!

Você pode não sentir, mas exite um peso enorme que rouba uma energia gigante. A culpa é uma doença disseminada em nós principalmente (“eurocêntricos” que somos) pela religião cristã. Mas isso é assunto para um texto maior.

A primeira coisa que precisa ficar clara é que culpa é RAIVA! Só que uma raiva não expressa que não é colocada no causador da raiva e ela acaba voltando para si mesmo. Observe uma criança quando é contrariada. Quando de repente alguém toma seu brinquedo ou a impedem de brincar de algum modo. O que ela sente? Amor, ternura? Não, cara, ela fica muito puta! O que acontece? Ela não pode ir contra os pais, então ela diminui a respiração e se reprime e acha que ela é que está errada por sentir raiva. Será que isso não aconteceu contigo? Observe, porque é daí que vão se armando os jogos, as manipulações.

Quando era pequeno ouvia muito uma história de uma menina que virou pedra. A mãe mandou ela varrer o patio e ela não queria. A mãe tanto perturbou que ela foi contrariada. Quando percebeu que estava com raiva a  mãe questionou e a menina disfarçou. A mãe tanto cutucou a criança que ela em fúria pegou a vassoura e tentou bater na mãe. Nesse momento, ela se petrificou e a estátua dela está até hoje guardada no porão de uma igreja em Belém do Pará.

Talvez histórias desse tipo sejam mais comuns para o norte ou nordeste do país. Mas por mais ridícula que pareça, imagine a repercussão dessa mensagem para uma criança! E mesmo que você não tenha ouvido histórias desse tipo, essa mensagem pesada, de que você não pode contrariar seus pais é muito forte. A gente cresce cheio de culpa por sentir raiva, tesão, e tudo aquilo que é mais do universo instintivo.

E nossa liberdade real se esconde atrás disso. De ser e sentir com mais naturalidade ou espontaneidade. E não se iluda. Se conseguíssemos mais liberdade de estar mais abertos e espontâneos, isso não vai nos colocar num mundo mais harmônico ou puro, onde as pessoas só dançam e supostamente são mais felizes… Isso nos trará conflitos, incômodos do mundo adulto, e seremos forçados a crescer como seres humanos. Soltar nossas quinquilharias.

Estamos sempre metade fracasso, metade sucesso. Estamos num pacto coletivo de caretice e pequenez por culpa. E isso não se desfaz porque, sim, tem um lado que essa culpa dói, mas tem um lado que ela CONVÉM! Se você cresce e assume a responsabilidade pelo seu crescimento emocional, a culpa deixa de ter razão de existir, e isso te obriga a sair da posição da vítima. Pra mim hoje a culpa é uma moeda de barganha, onde nós nos mantemos por conveniência atingindo um ao outro.

Quando você rompe com isso e libera seu ser, isso automaticamente libera os outros, como diz o texto citado há uns post’s atrás atribuído à Nelson Mandela. Para mim hoje, crescer significa dar um passo em relação à isso. Ter o poder de bancar aquilo que sente e de abandonar a passividade. Ter coragem para retomar um contato mais real e vivo com o que se sente.

 

 

 

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As aparências enganam

Por Prem Milan

A capacidade de suportar do ser humano é incrível. Pela octagésima oitava vez, estou mergulhado, facilitando um trabalho terapêutico de imersão chamado Pai e Mãe, que acontece num período de 17 dias. São dias muito intensos convivendo com pessoas, seres humanos que buscam resgatar sua verdade. 

As coisas que acontecem aqui são indescritíveis. Vocês simplesmente não conseguiriam imaginar. Faço esse trabalho desde 1987 e para mim é sempre uma experiência nova, renovadora. É um trabalho em constante desenvolvimento, aprimoramento, mudança. Mas apesar de dar o Pai e Mãe há tanto tempo, eu ainda fico chocado vendo como as pessoas têm a capacidade de armazenar, de segurar tantos sentimentos! De guardá-los. Se fosse um computador precisaria de, no mínimo, 5000 terabytes de memória para armazenar tanto assim. É chocante a quantidade de medos que guardamos desde o início de nossas vidas. Medos que reprimimos para não sentí-los, medos que tivemos que engolir.

Tristezas…

A quantidade de choro que as pessoas que passam pelo Pai e Mãe choram é algo impressionante. Simplesmente chocante! Talvez você pense: “São pessoas que têm problemas”. Não… São neuróticos normais como eu, você, nós, vós, eles…

Vocês não têm ideia da quantidade de raiva que somos capazes de guardar, é fenomenal! E é impressinante como reprimimos isso. No Pai e Mãe, quando esses sentimentos vêm à tona, chegam com a mesma carga emocional e energética da memória da infância da pessoa. Pelos exercícios que são propostos nesse processo terapeutico, vêm a lembrança momentos em que ela sentiu muita raiva, até mesmo ira de seus pais e isso vem tão forte que até a sua voz fica com um tom infantil, como se ela revivesse aqueles momentos de criança. 

Esses exercícios têm movimentos corporais tão intensos, tão fortes, que, normalmente, você cairia no chão exaurido, sem nenhuma força. E o que acontece aqui é exatamente o contrario, a pessoa fica cheia de energia, de força, de vida. 

Eu fico olhando a quantidade de energia que precisamos gastar para reter essa energia, para manter esse sistema defasado, protegido para que não se exponha, para que não venha à tona. Às vezes, esse sistema é bloqueado por situações da vida, como por exemplo, alguém que te rejeita e você pira, desrregula. Você sabe que isso acontece! Então por medo de nos perdermos nesse sentimento, tentamos evitar que isso aconteça e cada vez mais evitamos, e assim vamos morrendo, porque a natureza da vida é expansão, é expressão. 

Segurando esse fluxo de vida, a gente também reprime a nossa alegria. É impressionante os momento de alegria que brotam durante o Pai e Mãe, assim como atitudes de amor, de solidariedade… Tais quais quando vocês eram crianças e tinham seus amigos, igual ao amor puro que vocês sentiam por eles. Tudo isso está guardado, reprimido. E esse armazenamento custa uma energia incrível, talvez por isso o ser humano não tenha mais energia para viver, talvez por isso a gente ame pouco, transe pouco, dance pouco, ria pouco. Talvez, nossa vontade de viver seja pequena porque toda energia tenha que ser consumida para manter esse sistema fechado, preso, reprimido. 

Eu consigo entender isso, porque aqui eu vejo quanto medo as pessoas têm de ficar loucas se expressarem seus sentimentos. Acho que só dentro de um trabalho como este você pode perder o controle. Por que nele temos pessoas preparadas para cuidar que você não vai fazer merda. Pense um pouco… Pense na quantidade de energia que está sendo gasta para armazenar coisas velhas, quinquilharias, coisas que já não existem mais… 

Ninguém constrói um prédio no centro da cidade para guardar velharia! Agindo assim vai chegar um momento em que você não aguenta mais segurar tantas coisas e essa energia vai lhe implodir, daí você cria uma doença para morrer. O seu corpo vai apresentando sinais naquilo que chamamos de somatização, pequenas doenças surgem, elas são o resultado de emoções não expressas.

Colunas que vão entortando, lombares, cervicais, lordoses, escolioses. A gente vai virando caco para manter esse lixo! 

Pense profundamente em começar a expressar. Estamos em ano de eleições. Gostaria de propor uma medida do governo: instalar em todo país lugares onde se pratique meditações catarticas. Isso ia gerar uma economia muito grande para SUS. Quase que com toda certeza, ia desaforgar todo o sistema de saúde, pois as pessoas iam ficar muito menos doentes. Diminuiria o movimento das farmácias. 

Mas isso talvez virasse um problema social, sim? Muitas delas fechariam, inclusive o setor de cosméticos, pois eu percebo que quando a pessoa expressa seus sentimento ela rejuvenece, não tem pés de galinha no rosto. 

Provavelmente você não acredite pois esse dado não está na Globo. Quem experimenta saber que é verdade…!

A questão essencial para refletirmos é o quanto de energia estamos desperdiçando e, junto com isso, ainda temos que criar uma casca bonita para esconder todo esse lixo. O facebook é a cara disso, todo mundo tem foto bonita, faz programas excitantes… parecem japoneses no período do surgimento da fotografia, eles iam para os lugares para fotografar para depois ver em casa. Quem vive tem a experiência de expressar, de sentir realmente dentro não precisa mostrar para ninguém. O problema é ter coragem para quebrar a casca. 

Têm 15 pessoas aqui na Comunidade neste processo de 17 dias. Eu tenho que considerar essas pessoas notáveis, nesse momento. Por 17 dias se dispor a sair da toca, mergulhar em sentimentos, expressá-los. É uma coragem! Ainda que depois não sigam adiante na propria vida, eles sempre terão uma referência, nunca mais vão esquecer. Por mais que você resolva caretiar de novo, você nunca mais vai esquecer daquela experiência, da inteireza do seu ser, da inocência. Essa referência, essa sensação você nunca mais vai esquecer!

Think about! Talvez você esteja perdendo muito da vida!

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O medo de amar é o medo de ser livre para o que der e vier

Por Prem Amrita
 
“Quem de dentro de si não sai, vai morrer sem amar ninguém”. Essa frase do poeta Vinícius de Moraes me toca muito. Para amar tem que confiar e se entregar, apesar dos medos e das inseguranças. Não é fácil. Romper com as barreiras do ego e permitir ser enxergada é um caminho que envolve prazer e dor.
Na real, é mais fácil criar necessidades externas do que entrar em contato com a falta de confiança, o medo de amar e ser amada. Aquela sensação de vazio que nada preenche. Mas nossa mente é sagaz na busca de subterfúgios, elaboração de estratégias para fazer de conta que o buraco não existe. E assim vamos levando a vida.
 
Encontramos saídas, geralmente pela porta dos fundos, como se queixar da vida, culpar os outros, e continuamos sem assumir a responsabilidade da mudança. Quando apontamos o dedo pro outro, justificamos a grande dificuldade que temos de partilhar, de sermos inteiros, seja com nossa luz ou nossa sombra.
O amor nos possibilita nos conhecermos. Ao nos relacionar, também temos que admitir que não somos tão legais. Não queremos que enxerguem nosso egoísmo, nossa inveja, nossa raiva, nossos medos, nossa fragilidade. Mas o viver dia-a-dia muito próximo e em diferentes circunstâncias, torna cada vez mais difícil disfarçar fraquezas, vícios, manias, padrões.
 
O conhecer de “podres” reforça demais a noção do eu bom, o outro ruim. Esse maniqueísmo, fruto da imagem que fazemos de nós, só estimula os jogos, as projeções e as acusações. Então parece mais seguro manter uma distância das pessoas, pelo menos podemos fingir sem sermos descobertos.
 
Mas, como dizia o polêmico mestre indiano Osho, é tão difícil nos relacionarmos porque ainda não somos, ainda não nascemos, somos apenas uma possibilidade. “Relacionar-se é uma das maiores coisas na vida. Significa amar, compartilhar. Mas antes de poder compartilhar, você tem que ter. Duas sementes não podem se relacionar, elas estão fechadas. E esta é a situação. O ser humano nasce como uma semente, ele pode se tornar uma flor, ou não. Tudo depende de você, se cresce ou não. É sua a escolha – e a cada momento esta escolha tem que ser encarada”.
 
Neste mundo em que vivemos, o normal é escolher não crescer. É permanecer semente. As potencialidades nunca se tornam realidade. O chamado “amor” se reduz a jogos de poder e dominação. Por isso, tanta possessividade[KM1] , ciúme, violência e abuso. Por isso, o amor cria mais miséria do que alegria. Ficamos no medíocre, no dito seguro. Preferimos amar um cachorro, um gato, ou um carro, computadores, celulares, máquinas que podemos dominar. Por quê?
 
Osho explica: “Porque amar seres humanos tem se tornado um verdadeiro inferno. Um eterno conflito. Sempre na garganta uns dos outros. Esta é a forma mais baixa de amor. Não há nada de errado, se você puder usar isso como um aprendizado, se você puder usar isso como uma meditação. Se você puder observar, se tentar entender, você subirá um outro degrau, estará se movendo para cima. Somente no pico mais alto, quando o amor não é mais um relacionamento, quando o amor é um estado de ser, a flor de lótus se abre totalmente e um grande perfume é exalado”.
 
 
 
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Carta às belas adormecidas

Por Pavita Machado

 

“Nosso medo mais profundo não é o de sermos inadequados.
Nosso medo mais profundo é de sermos poderosos além da medida.
É nossa luz, não nossa escuridão que mais nos assusta.

Nós nos perguntamos: quem sou eu para ser brilhante, maravilhoso, talentoso e fabuloso?
Na verdade, quem é você para não ser?

Você é um filho do Universo!
Bancar o pequeno não serve ao mundo.
Não há nada de iluminado em se encolher para que outras as pessoas não se sintam inseguras ao seu redor.

Nascemos para manifestar a glória do Universo que está dentro de nós.
Não apenas em alguns de nós, está em todos.
E quando deixamos nossa luz brilhar, inconscientemente damos permissão às outras pessoas para fazerem o mesmo.

Quando nos libertamos do nosso próprio medo,
nossa presença automaticamente liberta os outros.”

Marianne Williamson

Vamos começar por este texto, tantas vezes atribuído a Nelson Mandela num equívoco muito significativo…

Pode uma mulher ter esse poder, de escrever esse texto tão inspirado? Sobre poder? O texto na verdade é da autora americana Marianne Williamson que, ao saber de tantas pessoas atribuindo seu texto a Mandela ou pelo menos que Mandela teria usado seu texto em seu discurso, (o que também é um engano) sentiu-se “honrada”.

Sim, Mandela poderia ter dito estas palavras. Nelson tinha a sabedoria, a coragem e o poder destas palavras, e Marianne também. E assim é: os homens não tem mais poder do que as mulheres e as mulheres não tem mais sensibilidade do que os homens.

Existem muitas questões sociais sobre a competição entre os sexos e não pretendo entrar neste aspecto aqui. Quero mais é ir na raiz, femininamente no útero da questão, onde tudo foi gerado.

A verdade é que o poder natural do ser humano é represado e oprimido desde o início da vida no nosso mundo neurótico. A criança, que está em um contato muito profundo com sua verdade, suas reais necessidades e desejos, é desde cedo “adestrada” a se encaixar num mundo que não gira em torno da sua realidade.

Assim, os meninos sofrem a sua “castração” metafórica, a qual eu vou deixar pra algum rapaz escrever a respeito num próximo post, e as meninas passam pela invalidação do feminino.

Todas aprendemos que ser “menininha” é sinônimo de ser incapaz e que nos resta duas opções: nos resignarmos à impotência de nossa condição e atrairmos um príncipe encantado que cuidará de nós para sempre ou, na menos pior das hipóteses, tentar provar que podemos ser homens melhores que os homens para garantir um lugar digno no mundo! A primeira opção nos congela numa situação sem saída e a segunda, nos faz validar um sistema autoritário, ultrapassado e doente, que em nada ressoa com nossas reais qualidades e necessidades. Reafirmamos com esta atitude que não acreditamos no poder da mulher. E as duas estratégias não deixam espaço para o amor acontecer.

Sim, isto vem de muitos séculos de condicionamento e é mais do que esperado que haja tanto ressentimento em relação a toda opressão sofrida pelas mulheres através desta triste jornada. Um longo momento histórico de luta social pela libertação da mulher foi válido e inevitável. E qual o próximo passo?

Não se trata de ter mais poder sobre o outro, mas de finalmente mirarmos na direção certa e encontrarmos nosso poder onde ele realmente está. É uma questão de voltar a si. Exatamente aquela você que ninguém enxergou, validou, amou, precisa ser tirada da torre não por um príncipe encantado, mas por você mesma! Aquela sabedoria que a gente tinha pra aprender a falar, a caminhar, a fazer funções extremamente complexas no tenro início de nossas vidas tá lá na torre, trancada a sete chaves e bem guardada pelo dragão do condicionamento. Trancada lá também está nossa confiança e capacidade de amar, de corpo e alma! O dragão pode ser grande, mas a gente é mais esperta, como na luta de Davi e Golias…

A verdade é que nós, mulheres, temos acesso a uma sabedoria muito específica, profundamente enraizada em nossos corpos. Ao ouvirmos nossos corpos, nos tornamos responsáveis pelas nossas escolhas, donas do nosso espaço e do nosso tesão. Naturalmente “sabemos” o que fazer ao longo dos nove meses em que gestamos outro ser humano, bem como na hora de deixar este serzinho sair de dentro da gente. Isso é sabedoria natural, que só cresceria com o passar dos anos, se os adultos na nossa volta permitissem. E isso explica também o fenômeno moderno da sensação de incapacidade que muitas mulheres tem em relação a gestar e parir. De tal forma vamos sendo dissociadas de nossa realidade mais vital, que chegamos a este ponto, de nos sentirmos incapazes de realizar ações que qualquer bicho faz!

Mas esta sabedoria feminina não se restringe à maternidade. De forma geral, as qualidades ditas femininas acabam ficando latentes dentro da gente, como se fosse proibido expressá-las. Nossa sensualidade é sequestrada pelos padrões estereotipados vendidos na nossa cultura. Já reparou na sensualidade crua e linda das mulheres nativas de tribos indígenas não-aculturadas que existem pelo mundo? A maioria dos homens que você conhece ficaria intimidado por uma força tão vibrante e envolvente? Isto não é problema seu! Quando você era criança, precisou recuar na sua expressão de raiva, de prazer, na sua expansão como ser humano. Era na época que você dependia de outras pessoas pra viver!

Hoje o papo é bem outro, e precisamos vencer o medo da liberdade para criarmos mais justiça e espaço para nós, mulheres, neste mundo. Precisamos investigar profundamente dentro de nós aquele pontinho que se sente segura e protegida em depender, ou acreditar que depende. Não é um ponto consciente, gente, há que cavocar nas entranhas para enxergá-lo. Conscientemente toda mulher (ou quase toda) quer ser livre, assim como conscientemente nenhum homem (ou quase nenhum) quer uma mulher que dependa dele. Mas e se o parceiro não gostar de como eu desfruto da minha liberdade e eu “ficar sozinha”? Ou, se a mulher, em pleno desfrute da sua liberdade, não quiser mais ficar com o homem? Estes são enormes mitos que despertam o dragão que luta ferozmente para recuperar o status quo, pondo a princesa de volta no seu lugar.

Sim, abrir mão do seu “dragão de proteção” pessoal pode parecer assustador, e é preciso muito poder para encarar a vulnerabilidade que vem com esta escolha. Mas é bem no fundo desta vulnerabilidade que a gente tanto teme que se esconde a nossa força mais preciosa. Perceber e sentir a vida, a cada momento, é a chave de lidar com ela de verdade, ao invés de continuar nos iludindo com meias-soluções que só perpetuam o sono.

Toda mulher tem o poder de ser mãe. Mesmo que nunca tenhamos filhos, em primeiro lugar precisamos dar à luz nós mesmas, parindo essa mulher linda e poderosa deste longo transe a que foi submetida. A conquista desta liberdade não implica em derrotar ninguém, senão nosso próprio medo arraigado em nossas crenças limitantes.

Imagine, todas estas “mães” despertando juntas, conectando com sua intuição e poder, olhando o mundo com amor e potência – que revolução!

Mulheres, nós temos o que precisamos para cuidar de nós mesmas e da vida ao nosso redor. Temos o que precisamos para expandirmos, curtirmos e brilharmos nessa vida exatamente como merecemos. Não precisamos do dragão, nem do príncipe. E, tomando este passo de responsabilidade/liberdade, acabamos por tabela libertando também a madrasta malvada que nos trancou na torre…

Quanto aos homens? Lindos seres humanos com seu kit muito especial de qualidades com os quais podemos ter trocas incríveis e unir esforços pra cuidar desta grande mãe-Terra!

Bora ser totalmente mulher?

Sexo mental não faz meu estilo

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Por Prem Jwala

Nossa sexualidade deveria ser uma inestimável fonte de prazer, mas não é isso que vem acontecendo em nossa sociedade. Pelo contrário, depressão está virando epidemia, remédios psiquiátricos são vendidos a rodo, e o consumismo continua desenfreado. Tudo isso decorre de um simples fato: temos muito pouco prazer em nossas vidas.

Isso inclui a sexualidade que, segundo Alexander Lowen, mentor da Bioenergética, é uma forma adulta de trocar afeto. Hoje não temos aquela repressão escancarada de anos atrás quando era dito explicitamente que sexo era sujo e feio, pelo contrário, em todos outdoors, propagandas de TV, em tudo o sexo está lá, na cara. Tudo direcionado para o consumo. Casas de swing, sex shops, sites pornográficos, existe todo um mercado em volta do sexo, tentando fazer com que as pessoas consumam e acreditem que assim vão se satisfazer sexualmente. Mas, se isso funcionasse, como se explicaria o consumo cada vez mais o alto de remédios como “sialis” e “viagra”? Como se explicaria cada vez mais homens com impotência e ejaculação precoce e mulheres com dificuldades de ter orgasmo?

Porque todo esse aparato não traz a satisfação real do sexo. Para se alcançar isso é necessário entregar seu corpo aos seus sentimentos e à sua energia; é necessário ter uma conexão com a outra pessoa. E não é com remédios e brinquedinhos que se alcança este nível de satisfação. Quando nos apaixonamos o sexo fica maravilhoso, transamos horas, dormimos tarde e acordamos cedo felizes da vida. Tudo fica mais bonito, você fica mais amoroso, mais sensível. E o sexo, quando vivido de uma maneira mais natural, inevitavelmente vai chegar no coração.

No entanto, todos esses “objetos sexuais” não passam de uma excitação mental e nunca vão proporcionar o êxtase e o relaxamento que um encontro sexual profundo pode trazer. É claro que é bom vivermos nossas fantasias sexuais e nos soltarmos na cama, pois crescemos cheios delas devido à imensa repressão sexual que sofremos desde a infância. Porém ficar somente nisso é abrir mão de uma parte fundamental da vida que é o sexo conectado ao coração, onde você “sai da cabeça” e o ego perde o controle e você fica mais sensível, mais humano, com mais compaixão.

Na verdade todo esse aparato existe como uma forma das pessoas viverem um pouco a sexualidade mas permanecerem funcionando normalmente no “sistema”, pois pessoas sexualmente satisfeitas jamais aceitariam viver do jeito que vivemos hoje, sem tempo para nada, num super stress, aguentando passar três ou quatro horas por dia no trânsito, como acontece em muitas das grandes cidades. Seria insuportável passar tanto tempo em ambientes fechados sem luz e sem graça, como apartamentos, empresas, muitas vezes na maior parte do dia respirando ar condicionado ao invés do ar natural.

Não é possível viver uma vida frustrante o dia inteiro, cheia de problemas, num trabalho chato, sem contato mais íntimo com outras pessoas, sem contato com a natureza e depois chegar na hora do sexo e estar super relaxado e presente. Talvez por isso sejam necessários tantos entorpecedores, para as pessoas simplesmente poderem relaxar. Sóbrias, a maioria das pessoas se sente tensa e constrangida, tanto que diversão é sinônimo de festa e bebedeira.

Portanto a falsa liberação sexual que existe hoje não passa de uma maneira de distrair as pessoas para elas continuarem no sistema produtivo sem questionar o que realmente elas precisam, e o que realmente é importante na vida. Quando, na verdade, se não houver uma transformação interior, no jeito como você se sente o sexo, o seu corpo, como se sente em relação aos homens e às mulheres, você pode mudar do jeito que quiser a periferia que não vai adiantar, pois o sentir vem de dentro e se dá no corpo e não na cabeça.

Talvez você se identifique com muitas das situações citadas, então se mexa porque a vida passa e é muito triste chegar lá no fim com a conta do banco cheia mas o coração vazio.