Carta às belas adormecidas

Por Pavita Machado

 

“Nosso medo mais profundo não é o de sermos inadequados.
Nosso medo mais profundo é de sermos poderosos além da medida.
É nossa luz, não nossa escuridão que mais nos assusta.

Nós nos perguntamos: quem sou eu para ser brilhante, maravilhoso, talentoso e fabuloso?
Na verdade, quem é você para não ser?

Você é um filho do Universo!
Bancar o pequeno não serve ao mundo.
Não há nada de iluminado em se encolher para que outras as pessoas não se sintam inseguras ao seu redor.

Nascemos para manifestar a glória do Universo que está dentro de nós.
Não apenas em alguns de nós, está em todos.
E quando deixamos nossa luz brilhar, inconscientemente damos permissão às outras pessoas para fazerem o mesmo.

Quando nos libertamos do nosso próprio medo,
nossa presença automaticamente liberta os outros.”

Marianne Williamson

Vamos começar por este texto, tantas vezes atribuído a Nelson Mandela num equívoco muito significativo…

Pode uma mulher ter esse poder, de escrever esse texto tão inspirado? Sobre poder? O texto na verdade é da autora americana Marianne Williamson que, ao saber de tantas pessoas atribuindo seu texto a Mandela ou pelo menos que Mandela teria usado seu texto em seu discurso, (o que também é um engano) sentiu-se “honrada”.

Sim, Mandela poderia ter dito estas palavras. Nelson tinha a sabedoria, a coragem e o poder destas palavras, e Marianne também. E assim é: os homens não tem mais poder do que as mulheres e as mulheres não tem mais sensibilidade do que os homens.

Existem muitas questões sociais sobre a competição entre os sexos e não pretendo entrar neste aspecto aqui. Quero mais é ir na raiz, femininamente no útero da questão, onde tudo foi gerado.

A verdade é que o poder natural do ser humano é represado e oprimido desde o início da vida no nosso mundo neurótico. A criança, que está em um contato muito profundo com sua verdade, suas reais necessidades e desejos, é desde cedo “adestrada” a se encaixar num mundo que não gira em torno da sua realidade.

Assim, os meninos sofrem a sua “castração” metafórica, a qual eu vou deixar pra algum rapaz escrever a respeito num próximo post, e as meninas passam pela invalidação do feminino.

Todas aprendemos que ser “menininha” é sinônimo de ser incapaz e que nos resta duas opções: nos resignarmos à impotência de nossa condição e atrairmos um príncipe encantado que cuidará de nós para sempre ou, na menos pior das hipóteses, tentar provar que podemos ser homens melhores que os homens para garantir um lugar digno no mundo! A primeira opção nos congela numa situação sem saída e a segunda, nos faz validar um sistema autoritário, ultrapassado e doente, que em nada ressoa com nossas reais qualidades e necessidades. Reafirmamos com esta atitude que não acreditamos no poder da mulher. E as duas estratégias não deixam espaço para o amor acontecer.

Sim, isto vem de muitos séculos de condicionamento e é mais do que esperado que haja tanto ressentimento em relação a toda opressão sofrida pelas mulheres através desta triste jornada. Um longo momento histórico de luta social pela libertação da mulher foi válido e inevitável. E qual o próximo passo?

Não se trata de ter mais poder sobre o outro, mas de finalmente mirarmos na direção certa e encontrarmos nosso poder onde ele realmente está. É uma questão de voltar a si. Exatamente aquela você que ninguém enxergou, validou, amou, precisa ser tirada da torre não por um príncipe encantado, mas por você mesma! Aquela sabedoria que a gente tinha pra aprender a falar, a caminhar, a fazer funções extremamente complexas no tenro início de nossas vidas tá lá na torre, trancada a sete chaves e bem guardada pelo dragão do condicionamento. Trancada lá também está nossa confiança e capacidade de amar, de corpo e alma! O dragão pode ser grande, mas a gente é mais esperta, como na luta de Davi e Golias…

A verdade é que nós, mulheres, temos acesso a uma sabedoria muito específica, profundamente enraizada em nossos corpos. Ao ouvirmos nossos corpos, nos tornamos responsáveis pelas nossas escolhas, donas do nosso espaço e do nosso tesão. Naturalmente “sabemos” o que fazer ao longo dos nove meses em que gestamos outro ser humano, bem como na hora de deixar este serzinho sair de dentro da gente. Isso é sabedoria natural, que só cresceria com o passar dos anos, se os adultos na nossa volta permitissem. E isso explica também o fenômeno moderno da sensação de incapacidade que muitas mulheres tem em relação a gestar e parir. De tal forma vamos sendo dissociadas de nossa realidade mais vital, que chegamos a este ponto, de nos sentirmos incapazes de realizar ações que qualquer bicho faz!

Mas esta sabedoria feminina não se restringe à maternidade. De forma geral, as qualidades ditas femininas acabam ficando latentes dentro da gente, como se fosse proibido expressá-las. Nossa sensualidade é sequestrada pelos padrões estereotipados vendidos na nossa cultura. Já reparou na sensualidade crua e linda das mulheres nativas de tribos indígenas não-aculturadas que existem pelo mundo? A maioria dos homens que você conhece ficaria intimidado por uma força tão vibrante e envolvente? Isto não é problema seu! Quando você era criança, precisou recuar na sua expressão de raiva, de prazer, na sua expansão como ser humano. Era na época que você dependia de outras pessoas pra viver!

Hoje o papo é bem outro, e precisamos vencer o medo da liberdade para criarmos mais justiça e espaço para nós, mulheres, neste mundo. Precisamos investigar profundamente dentro de nós aquele pontinho que se sente segura e protegida em depender, ou acreditar que depende. Não é um ponto consciente, gente, há que cavocar nas entranhas para enxergá-lo. Conscientemente toda mulher (ou quase toda) quer ser livre, assim como conscientemente nenhum homem (ou quase nenhum) quer uma mulher que dependa dele. Mas e se o parceiro não gostar de como eu desfruto da minha liberdade e eu “ficar sozinha”? Ou, se a mulher, em pleno desfrute da sua liberdade, não quiser mais ficar com o homem? Estes são enormes mitos que despertam o dragão que luta ferozmente para recuperar o status quo, pondo a princesa de volta no seu lugar.

Sim, abrir mão do seu “dragão de proteção” pessoal pode parecer assustador, e é preciso muito poder para encarar a vulnerabilidade que vem com esta escolha. Mas é bem no fundo desta vulnerabilidade que a gente tanto teme que se esconde a nossa força mais preciosa. Perceber e sentir a vida, a cada momento, é a chave de lidar com ela de verdade, ao invés de continuar nos iludindo com meias-soluções que só perpetuam o sono.

Toda mulher tem o poder de ser mãe. Mesmo que nunca tenhamos filhos, em primeiro lugar precisamos dar à luz nós mesmas, parindo essa mulher linda e poderosa deste longo transe a que foi submetida. A conquista desta liberdade não implica em derrotar ninguém, senão nosso próprio medo arraigado em nossas crenças limitantes.

Imagine, todas estas “mães” despertando juntas, conectando com sua intuição e poder, olhando o mundo com amor e potência – que revolução!

Mulheres, nós temos o que precisamos para cuidar de nós mesmas e da vida ao nosso redor. Temos o que precisamos para expandirmos, curtirmos e brilharmos nessa vida exatamente como merecemos. Não precisamos do dragão, nem do príncipe. E, tomando este passo de responsabilidade/liberdade, acabamos por tabela libertando também a madrasta malvada que nos trancou na torre…

Quanto aos homens? Lindos seres humanos com seu kit muito especial de qualidades com os quais podemos ter trocas incríveis e unir esforços pra cuidar desta grande mãe-Terra!

Bora ser totalmente mulher?

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