Culpa: a arma da vítima

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Por Anand Aiman

Lembro quando ouvi pela primeira vez a frase “Castramos os animais para que fiquem dóceis. Ser humano se castra com culpa”. Aquilo me incomodava primeiro porque para eu considerar aquilo verdade, tinha que reconhecer que, antes de mais nada, eu era castrado! E quanto mais me debatia com a afirmação, mais eu via que era verdade! Que somos castrados.

E esse é o algoz. Na verdade, vivemos numa sociedade que prega e escreve sobre liberdade, mas somos reféns. Atados e amordaçados por uma culpa inconsciente arraigada em cada pedaço de nosso comportamento.

Esqueça por um instante seu carro, seu cargo, sua posição… Esqueça o título o qual responde, pai, mãe, filho, esposa… Faça isso por um segundo. Prometo que não vai ser aquelas visualizações baratas de auto-ajuda em que você se encontra numa flor no final. Você já clicou, agora vai até o fim. Esqueça tudo aquilo que seu ego e as pessoas consideram ser você. Respire fundo e seja honesto, você se sente livre? Tirando todos os artifícios, você se sente “ok” com você? Para ser do jeito e se expressar como quiser? Este é o primeiro ponto. Estamos surdos de tanto silêncio e apáticos de tão contidos. Isso é um reflexo de que não sentimos confiantes para ser nós mesmos, como se fossemos inadequedos ou tivessemos emoções inadequedas.

Essa sensação de inadequação é pura e simplesmente uma mensagem de que somos errados ou que não somos o que deveriamos ser. É como se ouvisse uma vozinha dizendo “não pode”. Sabe? Aquela leve sensação de que se você tiver sucesso pode machucar alguém? Um amigo do trabalho, a namorada… Sabe? Quando você está em um relacionamento e se sente mal quando outra pessoa mexe com você. Nem precisa acontecer nada, basta a pessoa existir e mexer com você. Esses dias vi isso acontecer.

CULPA!

Você pode não sentir, mas exite um peso enorme que rouba uma energia gigante. A culpa é uma doença disseminada em nós principalmente (“eurocêntricos” que somos) pela religião cristã. Mas isso é assunto para um texto maior.

A primeira coisa que precisa ficar clara é que culpa é RAIVA! Só que uma raiva não expressa que não é colocada no causador da raiva e ela acaba voltando para si mesmo. Observe uma criança quando é contrariada. Quando de repente alguém toma seu brinquedo ou a impedem de brincar de algum modo. O que ela sente? Amor, ternura? Não, cara, ela fica muito puta! O que acontece? Ela não pode ir contra os pais, então ela diminui a respiração e se reprime e acha que ela é que está errada por sentir raiva. Será que isso não aconteceu contigo? Observe, porque é daí que vão se armando os jogos, as manipulações.

Quando era pequeno ouvia muito uma história de uma menina que virou pedra. A mãe mandou ela varrer o patio e ela não queria. A mãe tanto perturbou que ela foi contrariada. Quando percebeu que estava com raiva a  mãe questionou e a menina disfarçou. A mãe tanto cutucou a criança que ela em fúria pegou a vassoura e tentou bater na mãe. Nesse momento, ela se petrificou e a estátua dela está até hoje guardada no porão de uma igreja em Belém do Pará.

Talvez histórias desse tipo sejam mais comuns para o norte ou nordeste do país. Mas por mais ridícula que pareça, imagine a repercussão dessa mensagem para uma criança! E mesmo que você não tenha ouvido histórias desse tipo, essa mensagem pesada, de que você não pode contrariar seus pais é muito forte. A gente cresce cheio de culpa por sentir raiva, tesão, e tudo aquilo que é mais do universo instintivo.

E nossa liberdade real se esconde atrás disso. De ser e sentir com mais naturalidade ou espontaneidade. E não se iluda. Se conseguíssemos mais liberdade de estar mais abertos e espontâneos, isso não vai nos colocar num mundo mais harmônico ou puro, onde as pessoas só dançam e supostamente são mais felizes… Isso nos trará conflitos, incômodos do mundo adulto, e seremos forçados a crescer como seres humanos. Soltar nossas quinquilharias.

Estamos sempre metade fracasso, metade sucesso. Estamos num pacto coletivo de caretice e pequenez por culpa. E isso não se desfaz porque, sim, tem um lado que essa culpa dói, mas tem um lado que ela CONVÉM! Se você cresce e assume a responsabilidade pelo seu crescimento emocional, a culpa deixa de ter razão de existir, e isso te obriga a sair da posição da vítima. Pra mim hoje a culpa é uma moeda de barganha, onde nós nos mantemos por conveniência atingindo um ao outro.

Quando você rompe com isso e libera seu ser, isso automaticamente libera os outros, como diz o texto citado há uns post’s atrás atribuído à Nelson Mandela. Para mim hoje, crescer significa dar um passo em relação à isso. Ter o poder de bancar aquilo que sente e de abandonar a passividade. Ter coragem para retomar um contato mais real e vivo com o que se sente.

 

 

 

Um comentário sobre “Culpa: a arma da vítima

  1. Concordo muito com as ideias colocadas neste post! Acredito sim que o caminho é enfrentarmos nossos sentimentos, instintivos ou não, e que cresceremos quando os olharmos e os encararmos de frente. Mas acho que a maioria das pessoas não está preparada para escutar sobre os sentimentos alheios (muitas vezes nem os próprios), então só falar, sem ter noção dos desdobramentos que isso trará, continua sendo irresponsabilidade!

    Precisamos encontrar novas formas de comunicar, de interagir, de estar em relação com o outro. “Apenas” levantar nossa bandeira não nós fará evoluir enquanto espécie humana! Precisamos que muitos evoluam juntos. Precisamos re | descobrir a compaixão, a empatia, o amor! Por que quando falamos de como nós estamos nos sentindo, precisamos estar preparados para lidar com o que o outro irá sentir…. e isso vai ser o mais difícil! Pode acreditar…. falo com experiência própria…

    Falo isso como forma de construirmos mais do que destruírmos! 😉

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