Sentir faz bem!

 

sentir

Por Pavita

Na fila do controle de passaporte no aeroporto encontrei uma moça, com seus vinte e poucos anos, carregando um travesseiro e uma mochila e… Chorando. Bastante. Em silêncio, mas as lágrimas saltavam grossas dos seus olhos. Perguntei a ela se estava bem, se queria falar comigo. Ela pareceu com vergonha por ter sido “pega” chorando, como se tivesse algo errado nisso. Realmente não é comum ver as pessoas chorando em locais públicos assim, mas gente aos berros no trânsito, ou até com seus filhos no supermercado ou no restaurante, a gente tá mais que acostumado…

Ser vulnerável ficou associado a impotência, a fraqueza, algo profundamente reprimido na vida da gente, individual e coletivamente. A ponto de nos escondermos de nós mesmos quando o sentimento aflora. São muitas as maneiras de evitar se conectar com o sentimento: comemos demais, falamos demais, assistimos TV demais, passamos horas demais na internet, compramos demais, corremos demais, trabalhamos demais, reclamamos demais, dormimos demais, e por aí afora… Daí, aquele sentimento que era bem inocente e pertinente naquele momento, vai ficando guardado num caldeirão chamado inconsciente, já abarrotado de outros sentimentos outrora também escanteado. Boa coisa não pode dar! A qualquer momento vem a emoção “gota d’água”, que faz o caldeirão transbordar, queimando tudo que vê pela frente. Aí a gente se assusta. E aí já não adianta ver TV, trabalhar, correr, comprar ou qualquer fuga habitual. Há quem recorra a recursos mais extremos: drogas, lícitas ou não, comportamentos autodestrutivos como distúrbios alimentares (bulimia, anorexia), automutilação, ou a comportamentos sociopáticos, como bullying e outras formas de agressão para “descontar” a carga que não aguentamos sentir.

Uma das maneiras mais aceitas atualmente na nossa sociedade neurótica para lidar com estes momentos de transbordamento são os “remedinhos”. Aquela pilulazinha pra não ficar ansiosa, pra não ficar deprimida, pra conseguir dormir, pra conseguir acordar, pra conseguir prestar atenção, pra conseguir ter ereção, pra conseguir emagrecer, pra conseguir “sobreviver” aos sentimentos. Outro dia minha depiladora ofereceu uma “ritalinazinha” pra cliente ao lado, “que é muito bom pra essas coisas de estar atucanada”.

Gente, sentir faz muito bem! É coisa de ser humano! É claro que quando tem muito sentimento acumulado, ao abrirmos os portões virá uma avalanche e talvez a gente precise de ajuda mesmo. Talvez a gente precise de ajuda terapêutica, mas talvez um simples ombro amigo, alguém pra nos ouvir ou nos abraçar enquanto choramos já seja de bom tamanho. Amizade não tem efeito colateral, não cria dependência, e funciona tanto em momentos de tristeza, como de prazer e alegria.

Embotamos tanto os nossos sentimentos, que precisamos de mais recursos artificiais para sentirmos algum prazer na vida. Até mesmo nossa sexualidade virou uma fonte artificial de prazer, onde a imagem e o estímulo mental contam mais do que a capacidade do nosso corpo em sentir prazer. Buscamos a adrenalina em situações de perigo para nos sentirmos vivos, pois a vida, simples e magnífica como é, só pode ser sentida se estivermos com nossos sentidos abertos, vivos, vibrantes. Quando éramos crianças, não precisávamos de toda essa baboseira artificial para nos maravilharmos com a existência. Um bebê não pede aos pais todo este arsenal de brinquedos ultra tecnológicos que acabam expondo o pequeno, um sisteminha tão delicado em desenvolvimento, a um abuso de informações visuais e auditivas. Um bebê se maravilha com os raios de sol entrando pela janela e refletindo na lâmpada, produzindo incríveis efeitos visuais e coloridos. A criança sabe explorar cada coisinha, por mais simples que seja, e descobrir suas capacidades e habilidades motoras, sensoriais e emocionais. Mas claro, a criança ainda está emocionalmente limpinha, por isso expressa o que sente com toda a intensidade. Após um choro profundo, ela é capaz de passar ao próximo momento com o frescor de quem acabou de acordar.

Nós, adultos, também temos essa capacidade. De sentir e expressar totalmente, de forma que o sentimento nos atravesse e saia lá do outro lado, fresco e pronto para o próximo capítulo da vida. Mas claro, vamos perdendo essa resiliência à medida que somos treinados para não sentir. Menino não chora, menina com raiva é feio, etc, etc, etc. É hora de dar uma olhada bem sentida para a realidade e ver para onde a desconexão dos sentimentos está nos levando.

Negando os sentimentos, nos desconectamos das nossas necessidades mais primitivas e negligenciamos a realidade. Nos habituamos a uma vida artificial, completamente avessa à nossa natureza, e assim vamos causando danos irreversíveis a nós mesmos, às gerações futuras, ao planeta. Estamos perdendo a capacidade de perceber que o nosso amigo está precisando de apoio emocional, a capacidade de sentir o que os nossos filhos realmente precisam, a capacidade enxergar que estamos detonando o mundo em que vivemos. Tudo pelo “fazer”, “alcançar”, “atingir”, que tomaram proporções catastroficamente maiores do que o “ser”.

Todo o nosso sistema social está organizado de forma equivocada e neurótica. Escolas, religiões, sistema financeiro, político… As “organizações sociais” se tornaram armadilhas nas quais estamos presos. E o pior, acreditamos que não podemos nos libertar delas. Poucos loucos, ao longo da história da humanidade, abriram a boca pra dizer que é possível. Que dá pra mudar. E eu acredito nisso, penso que a mudança deve passar pelo sentir. Tudo: amor, raiva, dor, tesão, alegria, saudade, êxtase, o que o nosso coração tiver no menu! Estudos apontam que usamos muito pouco da nossa capacidade mental. Acredito nisso. Mas acho que utilizamos menos ainda de nossa capacidade emocional! E é nela que reside o verdadeiro poder! As mães sabem disso. Elas sentem o amor incondicional por seus filhos. Um amor que chega a arder o coração. Tá aí a resposta! O coração tem uma sabedoria que nenhum curso de doutorado pode ensinar!

Estamos no jardim de infância dos sentimentos, mas isso não quer dizer que não possamos nos empenhar e aprender o que é sentir.

Sentir faz muito bem, existem muitas formas de ajudar a desbloquear os caminhos para sentir, pra citar algumas que eu conheço: a bioenergética, as meditações ativas, o renascimento… Você pode encontrar a sua, é só deixar o teu coração te guiar.

Obrigada, guria da fila do aeroporto, por sentir tanto na minha frente e inspirar esse post.

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