Apesar de termos feito tudo o que fizemos…

father and little daughter walking on sunset beach

Por Prem Milan

É muito incrível o tipo de relação que temos com os nossos pais. A função da paternidade e da maternidade nunca acaba. Pais e mães seguem acompanhando os passos dos filhos até onde podem. Mas se nós formos olhar na natureza, todos os animais tratam seus filhos como filhos até eles conseguirem se mover por conta própria e forem capazes de batalhar a própria comida. Há o momento em que o elo é naturalmente rompido. Com a égua, a vaca, a cabrita, a galinha, a coelha… Depois do desmame, elas não reconhecem mais o animal como um filhote, o reconhece como outro ser, independente, e assim, esse filhote vai desenvolver sua própria vida, exercitar sua autonomia.

A diferença entre humanos e animais é a capacidade de amar. A égua ou a vaca nutrem um amor instintivo por seus filhotes. O ser humano tem um amor maior, mais profundo, vinculado com uma consciência. Mas há algo que vai além. Eu trabalhei com muitos pais que simplesmente não enxergaram os filhos, nunca conviveram exatamente com eles, mas, ainda sim, esta criança consegue reproduzir as características do pai em si. É algo energético. Nós adquirimos um monte de coisas pela convivência com nossos progenitores. E muitas, subliminarmente, nos são instintivamente passadas. A maior parte das nossas características nos é transmitida pela convivência. Todos nós começamos a imitar os pais em atitudes e ideias, para que desta maneira consigamos o seu amor. E isto é algo muito forte.

Na realidade, para nós é uma questão de sobrevivência conseguir o amor dos nossos pais. Para as crianças é uma questão de vida ou morte. E graças a isso acabamos repetindo padrões. Mesmo que intelectualmente não concordemos com eles, em um momento de tensão e conflito acabamos assumindo a posição deles. Eles também foram assim com os seus pais e assim por diante… O elo não é quebrado, apenas a roupagem é mais moderna, diferente. O sentido de posse nas relações continua o mesmo, há séculos: a valorização do dinheiro, do mundo material em detrimento do amor.

E é bem fácil ver. Todos nós achamos que o amor é a coisa mais importante, não é? Porém, de fato, o tempo que dedicamos ao amor é mínimo. É sempre o resto, a sobra. O amor é a nossa melhor energia, mas a maior parte do tempo que dispomos, doamos ao trabalho. É puro papo furado dizer que damos prioridade ao amor. Idem com a sexualidade. Como fonte de prazer e alegria, dedicamos o tempo que sobra.

Voltando à questão dos pais. Você está com 30 anos e ainda assim, eles te tratam como uma criança. E você segue agindo como tal. Eles não deixam a paternidade e a maternidade de lado, e muito menos se relacionam como amigos com você. Pelo contrário, eles impõem que os filhos façam as mesmas merdas que eles fizeram. Conheço uma pessoa que ficou tão cego e dependente dos pais, que olhando de fora chega a ser chocante. Uma pessoa que amou e que viveu várias descobertas, mas acabou fazendo de tudo para destruí-las, pura e simplesmente porque os pais não concordavam com aquilo. É muito absurdo que essa pessoa só consiga tomar decisões optando somente pelo o que a família acha legal. E não se engane quanto à idade. Essa pessoa já é quase quarentona.

A minha mãe nunca soube como eu era realmente. Muito menos o meu pai. Eu fazia um personagenzinho e eles nunca imaginaram o que eu era de verdade. E olha… Eu fui um dos grandes rebeldes, mas até a minha rebeldia estava presa à teia deles. Eu lutei muito na vida, trabalhei muito nesses processos de Pai & Mãe. E mesmo tendo 60 anos, se eu vacilar, acabo por repetir os padrões deles.

Hoje, consegui estabelecer uma relação diferente com os meus filhos. E te digo: NÃO É FÁCIL. Digamos que eu sou 60% amigo e 40% pai deles. E acho isso um avanço do caralho! Eu sei quem são os meus filhos. Eu posso curtir essa conexão. Já não espero que eles sejam desta ou daquela forma. Mas te confesso que isso não é algo fácil. A grande maioria das pessoas vai morrer mantendo uma relação infantil com seus pais. Seja de dependência positiva, ou negativa.

Eu, que vivo em uma comunidade posso dar exemplos. Tem uma menina que mora há muito tempo na Osho Rachana. E ela sempre fala aos pais que ama aquela vida, que é o que ela quer. Os pais odeiam. Não aceitam. E não querem nem saber se ela é feliz ou não. Querem somente que ela faça o que eles desejam. Eles são tão sem amor e egoístas, que conseguem infernizar a vida dela, que acaba, consequentemente, não conseguindo se aprofundar naquilo que quer. Já tem dez anos e eles vão ganhar… Estão ganhando. Veja bem, há dez anos esses pais tentam destruir a felicidade dela e vão conseguir! Você tem que ter a força de um leão e a fúria de um vulcão para vencer, ou você acaba cedendo a eles.

E, infelizmente, há outros exemplos de menor intensidade.

Os pais tem uma grande arma que se chama FAMÍLIA. Você, sendo da família, tem direito à herança, a dinheiro… Você ouve desde pequeno que eles estão construindo o teu futuro, que eles estão trabalhando para ti, e isso pega muito forte na consciência. Aliás, é quase uma forma de prostituição. Eles estão comprando a tua consciência. “Se tu fizer aquilo que nós queremos e deixar de lado as tuas bobagens, nós te damos tudo”! O pior é que eles acham que isso é amor. Até a prostituta é mais honesta. Na verdade, isto tem um valor emocional tão forte, que eu conheço pessoas cujos pais não têm nada materialmente, são pobres, e ainda assim seus filhos temem perder a herança! Parece estranho, mas sei que isso acontece. A herança seria toda a recompensa por todo o amor que não recebemos na infância, só que isto continua não sendo amor. Mesmo quando há muito dinheiro – os ricos normalmente são as pessoas mais carentes emocionalmente que conheço – é um poço sem fundo. Eles tentam comprar tudo e a todos para disfarçar a própria miséria emocional. E aí, dê-lhe cocaína.

A minha vida é dedicada a fazer esse trabalho chamado Pai & Mãe para que eles não vençam. Para que nós não sejamos os mesmos e vivamos diferente dos nossos pais. Nisto, quero te contrariar com toda a minha força, querida Elis Regina. Mas sei que a tua música é um alerta para aqueles que ainda têm ouvidos para ouvir e não foram deturpados pela ação dos próprios pais.

Hoje, eu consigo sentir mais amor pelos meus pais do que sentia antes. Porque eu desmanchei e enfrentei estes conceitos dentro de mim. Hoje, meu amor é livre, eu não preciso de nada deles, de nenhum elogio, de nenhum reconhecimento. Eu apenas sou grato a eles por eu ser quem eu sou. Há muito tempo atrás, eu não poderia dizer isto porque sentia muita raiva, e de várias maneiras, de ser exatamente o que tinha aprendido com eles. Mas já derrubei muitos desses sentimentos. Posso dizer que sou liberto dessa pressão de ser infantil perante os meus pais.

 

3 comentários sobre “Apesar de termos feito tudo o que fizemos…

  1. Olá, Prem
    Tenho 46 anos, 3 filhos criados sob as premissas do amor e da liberdade com consciência e responsabilidade. Minha família de origem mantém com seus filhos homens uma relação de dependência patológica. Comigo, que sou completamente autônoma e livre, é diferente. A única coisa que eu pedia, raramente, era a oportunidade de convívio amoroso, leve e alegre. Fui massacrada por isso. Hoje tento evitar o convívio com essa família que me faz mal, e que condiciona sua entrega de amor ao fracasso pessoal e à dependência afetiva e financeira. Tristemente concordo com teu texto e, pelo menos, vejo que não sou desnaturada por perceber minha realidade desta forma. Obrigada, e se tiver alguma sugestão de pensar/sentir mais evoluída, estou aceitando!

  2. Não concordo com estes comentários sobre pais, são muito radicais, não concordo em abandonar os pais, deixar de conviver para que nós os filhos possamos fazer nossas escolhas, acho pouco inteligente e muito desnaturado sim

    • Sim, Rosane, os comentários são radicais. E na verdade isso é o que mais gosto nos textos daqui. Mas acho que você poderia ler o texto de novo. Na real ele fala de romper com os laços de paternidade e maternidade. Que ainda nos relacionamos como filhos com os nossos pais.
      Tudo bem que existem casos que precisam uma distância, mas a questão é de mudar a relação de pai e filho para amigo. De amadurecermos emocionalmente. O próprio autor diz que é 60% amigos dos seus filhos.
      E se isso significa ser desnaturado: que seja! Um dia precisamos ser adultos e os pais da gente podem não gostar. Só que isso já problema deles!

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s