O que a selfie tem a ver com o Self

Three People selfie together with smartphone and stick isolated

Por Pavita

Andando pela praia ouvi uma menina, dentro da lagoa, gritando pra mãe: “look at me, mom! Look at me!” (olha pra mim, mãe, olha pra mim!), cena comum de criança querendo mostrar suas proezas pra mãe. De outro lado, uma outra cena cena muito comum na atualidade: uma moça de biquíni e um lindo chapéu, fazendo uma “selfie”, com a ajuda do famoso “pau de selfie”. Pensei comigo mesma, as duas estão pedindo a mesma coisa, “olha pra mim!”

“Selfies” viraram epidemia no nosso cotidiano – um mar de fotos na internet que podem se enquadrar em várias categorias. Tem os selfies puramente estéticos, tirados geralmente em academias, ou na praia, de biquíni/calção, ou em festas, mostrando a superprodução com direito a maquiagem e modelos “red carpet” – eu pessoalmente já presenciei vários sendo tirados no espelho do banheiro feminino no shopping… Aí tem a categoria turismo, onde os selfies aparecem em lugares variados para onde a pessoa viajou, mas às vezes os lugares não aparecem muito… Também tem os selfies “rebeldes”, tirados por adolescentes de todas as idades.

Mas todos eles partem da mesma premissa expressa tão honestamente pela guriazinha na praia: “olha pra mim!” É importante pra todo mundo ser visto, ser percebido, validado como pessoa e essa febre por “celebridades” manifesta um desejo de que este reconhecimento aconteça em escala global. E tá aí a internet pra tornar esse sonho de ser celebridade em realidade. Mas será que é disso que a gente precisa? Que aquele fulano que te adicionou no Facebook, e tu não tem certeza de onde conhece, “curta” a tua foto? Ou que 56 fulanos “curtam”? E se ninguém curtir tua publicação? teu mundo cai? Você se sente um cocô? O que acontece quando aquele numerozinho das “curtidas” aumenta? Substitui um olhar presente de um amigo, uma frase falada pela boca, um sorriso ao vivo?

Aí é que tá… de tanto que faltou esse contato ao vivo, desde antes da idade da guriazinha que pedia a atenção da mãe na praia, a gente passa a desacreditar nessa possibilidade de contato, de empatia. Mas a necessidade continua e a gente vai buscar na ilusão do mundo virtual! Onde vários desconhecidos vão “encher” esse buraco do nosso ego… só que é como uma bolha de sabão, dura bem pouquinho esse enchimento artificial e aí a gente tem que produzir a próxima isca de curtidas!

Chegada a hora em que as curtidas já não servem pra tapar o buraco, vamos à geração dos sistemas operacionais, tão bem ilustrado no filme “Her”. E tá aí a Serie, sistema operacional que já chegou no Brasil, pra satisfazer todos teus pedidos e te acompanhar até quando ninguém te aguenta por perto!

Minha amiga disse que ficou feliz de tirar uma foto pra um casal que pediu pra ela. Ela disse “hoje em dia, ninguém mais pede pra tirar foto!” Não precisar do outro faz parte da cultura da desistência do contato com outros seres humanos. Essa é a epidemia com a qual realmente dá pra se preocupar.

A nossa natureza não é assim. Experiências variadas mostram que as crianças tem um senso natural de compartilhar, de se importar umas com as outras. Mas não precisamos que cientista nenhum venha nos provar isso, já fomos crianças! Fomos assim! Nossos filhos são assim! A gente é que vai ficando cego pra nossa própria delicadeza e sensibilidade! Vivemos num mundo em que vulnerabilidade é quase palavrão! É sinônimo de se ferrar! No entanto, foi quando fomos os mais vulneráveis na nossa vida que aprendemos e crescemos o máximo. Não ser vulnerável implica em enrijecer, e isso nunca foi força real! Endurecer e se fechar em conceitos rígidos e “seguros” a respeito da vida só ajuda a aumentar o nível de loucura do planeta. Ou você acha que aquecimento global – corrupção – estupro – guerras – racismo – poluição – tortura – subjugação religiosa – miséria e fome – vícios em drogas lícitas e ilícitas – superpopulação – ditaduras políticas e religiosas – desigualdade social – e a lista continuaria por muitas linhas, não são sintomas de um mundo muito desconectado de suas necessidades e recursos? Ah, isso são problemas dos governantes? Nós criamos estes problemas todos juntos! Somos todos responsáveis!

Acho que a gente tem que aprender algo com esses gurizinhos e guriazinhas que andam nos chamando e pedindo pra olharmos pra eles. Vamos olhar pra eles mesmo, com nossa presença e com a humildade de quem reconhece que perdeu o fio da meada… Ao invés de entupir-lhes com nossos conceitos prontos e tão questionáveis, vamos aprender sobre confiança, sobre alegria, sobre cumplicidade e amizade com nossos filhos, sobrinhos, filhos de amigos, todas as crianças. Até a gente voltar a ouvir aquela voz bem inocente da criança que um dia a gente foi, que não tinha vergonha de pedir o que precisava, que não hesitava em ser quem era, que ainda não era cheia de julgamentos de que “deveria haver algo de errado com ela, então melhor aparentar outra coisa”…

Ao mesmo tempo em que a loucura instaurada é evidente, também tem muita gente se dando conta de que tá nas mãos da gente criar uma história melhor. Assim como as crianças, a gente pode recuperar a capacidade de se enxergar, de se perceber e trocar de verdade, recursos materiais, emocionais, energia de gente! A revolução já começou, se liga! Já tem gente por aí se enxergando, se tocando, se ajudando, se amando. Com gente real me enxergando e trocando comigo nesse nível, nem me lembro da plateia virtual pra me “curtir”.

Não estou falando pras pessoas pararem de tirar fotos suas e publicar, mas de dar uma olhada no que se está buscando, o que se está precisando realmente. Bora dar uma atenção maior ao Self do que à selfie?

Namastê!

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