Pare de demonizar a raiva

Aggression

Por Prem Milan

Lembro perfeitamente que lá na década de 1960, que os professores comentavam: “isso é atitude selvagem, vamos voltar para as selvas”. Diziam o quanto era importante a educação, a polidez, o não expressar sentimentos malévolos, principalmente a raiva. Sempre houve uma condenação da raiva. E mesmo assim o ser humano mostra-se cada vez mais violento, mais agressivo, mais insensível.

Todas as grandes transformações sociais que fizeram com que progredíssemos: derrubada de ditadores, de impérios opressores, entre outras, ocorreram graças ao combustível da raiva. Quando chegamos a um ponto de indignação em que não aguentamos mais, explodimos para mudar a situação. Sendo assim, a raiva é um agente de transformação. Sem ela nada acontece.

Existem dois tipos de raiva: a reprimida e a natural. Quando você reprime a sua raiva, ela vira violência, autoritarismo, imposição sobre as pessoas. Quando você a expressa, ela vira conflito, crescimento. Você quer ter poder sem raiva? Quem contou essa mentira? Os pais fazem quando repassam a ideia de que eles podem sentir raiva, os filhos não. Quem manda são eles, os pais, e ponto. Muitas vezes cometem as maiores atrocidades contra os filhos, que não podem fazer nada. Por quê? Porque são mais fortes, têm mais raiva, podem pisar em cima da criança.

O bebê às vezes chora porque está descarregando uma dor que ele sente, muitas vezes emocional, e chorar é bom. A criança faz pirraça, berra, chuta… Ela está pondo para fora a raiva, é excesso de energia, ela precisa botar externar, descarregar. Antes de dormir, a criança começa a importunar porque ela tem que criar um atrito para expressar a raiva e depois relaxar. Os pais não entendem, condenam. Dizem para ela não ser selvagem.

Há um grande equívoco com a raiva. Ou não. Ou é intencional mesmo do sistema. Castravam os eunucos, tiravam suas bolas para se tornarem dóceis. Porque a raiva é muito próxima da sexualidade. Existe uma raivinha ali junto, uma coisa de bicho, selvagem. É bonito, ninguém sai dando porrada nas mulheres. A raiva reprimida é que deixa as pessoas violentas no sexo. As fantasias de machucar, de subjugar, de dominar o outro estão presentes na sexualidade por causa de tanta repressão à raiva e isto acaba virando uma distorção.

Gente sem raiva é bom para muitos porque cria-se um bando de bundas-moles. Esses bundas-moles dizem: “eu não tenho raiva, sou uma pessoa civilizada”. Isto é uma idiotice total, baita burrice. Depois, eles descarregam a raiva sobre o próprio corpo. Se você tranca a raiva, começa a ter azia, problemas de estômago, problema nas pernas, nas juntas, o corpo fica rígido, duro. É o corpo que paga o preço.

Quantas mulheres se ferraram a vida inteira por serem submissas aos homens, por não terem força, não conseguirem se bancar? Foram trucidadas em relações, ficaram dependentes, carentes, se ferraram, se foderam porque negaram a raiva. Na nossa sociedade, menina não pode ter raiva, é feio. Basta olhar os brinquedos desenvolvidos para meninas. 99% deles são estúpidos para elas ficarem estúpidas, sem força, não desenvolverem seu poder, nada… E a maioria das brincadeiras dos meninos com espada, tiro, pular riacho, jogar futebol… Ou seja, tudo o que exercita a energia da raiva. Por isso a sociedade é totalmente dominada pelos homens. Mas se o homem desenvolve um pouco a raiva, tratam logo de reprimi-la. Ela tem que ser comprimida, comedida, para ele não ser questionador demais e não incomodar.

Um animal tem raiva. O touro bufando com o pé no chão quando se sente ameaçado. O leão urrando feroz, pulando, rugindo. O Tarzan soltava aquele berro porque tinha poder, era um grito de poder. Hoje em dia os heróis são só magnéticos, eles não têm corpo, não têm força… É só apertar um botão e jogam uma bomba nos videogames e jogos. São todos heróis bundas-moles, para todo mundo ser bunda-mole. Todos são dominados por um sistema estúpido que nos impõe o consumo de coisas desnecessárias, comidas poluídas e etc. E ninguém tem força para lutar contra tudo isso.

A culpa é a rainha da repressão da raiva. Toda raiva reprimida vira culpa. Você reprime e fica culpado, aí sente raiva por estar culpado e se sente culpado por sentir raiva, vira num ciclo sem fim. A repressão da raiva vira depressão, não existe mais força para viver. Quer um remédio para depressão? Vá transar, ative sua raiva! Mas uma pessoa deprimida que toma remédio, não incomoda, não enche o saco, paga suas contas em dia, ganha salário, tem plano de saúde é muito mais conveniente para essa sociedade doente.

A repressão gera doenças. Imagina você comprimir um vulcão, imagina a chama lá dentro, sem poder sair. Agora se imagine segurando a própria raiva: o seu corpo treme todo, você engole, faz uma força terrível, enrijece os músculos… Imagine quanta energia você gasta para segurar. O ideal é botar pra fora! Mas no mundo moderno as pessoas não conseguem. Antes, a gente usava muito o corpo, era uma forma de gastar a raiva. Correr, pular, subir em árvores, jogar futebol. Hoje em dia não se faz mais nada com o corpo, só movimentos prontos, na academia. A repressão só triplica.

Por isso, o bom é fazer meditação. Existe uma meditação específica para expressar a raiva porque não existe outros meios pra isso na sociedade. Não tem mais lugar nem pra correr, pra andar. É tudo um grande absurdo. Aí no trânsito buzinam, berram um pro outro. Descarregam, mas nunca solucionam a questão. Você tem que limpar a raiva para poder ter a raiva da situação real. Quando você a reprime, desconta em cima de um fato pequeno dez vezes mais energia. Normalmente em cima de alguém que você julga inferior. Mas quando está diante de alguém considerado superior a você, fica de quatro, todo cagado. Isso gera uma loucura na cabeça da gente.

Raiva e violência são coisas totalmente diferentes. A violência é gerada pela repressão. Quando uma pessoa reprime, brota uma raiva sem controle e estúpida. Minha mãe me batia de uma maneira que eu nem vou te contar… E conheço muitas histórias de pais violentos com seus filhos porque sou terapeuta. A violência come solta em cima de crianças com 5, 6, 7 anos, até ficarem marcadas. E ainda dizem “cala a boca, não reage”. Uma vez eu reagi com a minha mãe e levei um bofetão na boca que me deixou rodando até hoje. Mas se eu não burlasse as leis dela, eu seria um bundão apático, como tantos. As mulheres se queixam tanto de que os homens são bundões. Mas quanto mais bundões, mais elas gostam. Ficam mal comidas, porque bundão é ruim de sexo, não tem poder, não tem força, é o que eu chamo de pau de vento. Aí ficam insatisfeitas e se queixam, se lamentam, se lamuriam. São as “Helenas” da música do Chico Buarque.

A raiva tem que ser resgatada como uma fonte de energia. As escolas deviam ensinar isso, mas elas reprimem. A escola brasileira de maneira geral é muito burra porque criam seres estúpidos. A educação no Brasil foi deixada nas mãos da religião, só que os padres são as pessoas mais reprimidas, mais doentes do planeta. Áquelas pessoas que reprimem a sexualidade, pedófilos distorcidos sexualmente, foi encarregada a educação. Sabe quando eu vou respeitar essa educação? Nunca. Eu fui educado em colégio Marista, eu sei a atrocidade que é aquilo, eu sei o absurdo que é. Os conceitos absurdos. Eu sei quanto mal fez pra minha vida esses conceitos equivocados.

Raiva é fundamental na vida de todo ser humano, da criança principalmente. As crianças têm que brigar entre elas. Elas têm que aprender a usar sua raiva e a saber exercer o seu poder. Criança que nunca brigou vira bunda-mole. Nos colégios, a violência está representada através do bullying. Dez, doze garotos se aproveitando de um coitado. Nunca é parelho. Por quê? Por causa da repressão da raiva. Vinte descarregam em cima de dois, três. Eles pagam o pato. O bullying existe por causa da repressão da raiva nas famílias. As crianças descontam a merda de suas casas em cima de outros na escola.

A raiva é um agente transformador. É essencial para nossa vida, assim como a tristeza, assim como o amor. Não existe isso de a raiva ser pior que o amor. Raiva é força. Como você pode amar sem força? Quando você ama muito uma pessoa, também é capaz de sentir uma raiva muito forte. É diretamente proporcional. Mas a raiva não é má, ela nunca foi má. Geralmente depois de uma grande briga, as pessoas conseguem se encontrar porque a relação fica limpa.

Minha raiva sempre me ajudou a conquistar meus objetivos. Ela é limpa, clara. Não é reprimida, não faço as coisas por ódio. Eu expresso muito em meditação, quando estou limpo, vem uma energia forte de raiva para eu levar a frente meus projetos. E eu faço projetos incríveis na Comunidade Osho Rachana, onde moro. Se eu estivesse cheio de raiva reprimida, ressentido, magoado com as pessoas, não teria força para fazer nada.

Muita gente me acha grosso. E eu sou, falo na lata. Eu aprendi isso com a meditação. Dias desses, tive um momento super bonito com a minha parceira, mas no dia seguinte ela ficou doente. Ela queria me ver à noite e eu disse: “não quero nem olhar pra tua cara com essa energia de doente”. Ela me mandou uma mensagem: “porra, Milan!”. Eu não respondi. Dez minutos depois ela retornou: “é, eu acho que tu tem razão”. Pra ter essa postura, tem que ter poder. Ou então eu iria lá e ficaria de “ai benzinho, o que aconteceu?”. Ela ficou doente porque quis. É poder de se bancar em várias situações. Poder discutir com uma pessoa até o fim. Poder também é se dar conta de que errou, ceder.

Poder gera humildade. Raiva é energia. Mulheres, se um homem não tem raiva, vira as costas porque é um idiota. Eu quero uma mulher que tenha raiva, porque quando ela vai transar comigo, ela vira bicho. Que coisa boa. Mas vocês não gostam disso, vocês preferem aquela trepadinha mais ou menos. Talvez nem precise tomar banho depois. A raiva é muito fundamental, é muito importante na vida de cada um de nós. Resgate sua raiva. Para reprimir você gasta muita energia, depois que solta, ganha uma quantidade enorme de vida.

3 comentários sobre “Pare de demonizar a raiva

    • Aline, gostaria de saber porque meu texto é machista, estou apenas reproduzindo a realidade como é, a realidade é machista, não meu texto. Tu acha que eu sou machista porque defendo que as mulheres devem ter raiva? Ou tu acha que é machista porque eu digo que elas estão sem raiva, sem poder, isto é a realidade, um mundo continua sendo mandado pelos homens e eu não defendo que seja assim, pelo contrario que as mulheres resgatem seu poder ou tu acha que o poder da mulher é só sedução? a mulher tem um poder real, concreto que não exerce, pois acaba se submetendo ao homem.

      Prem Milan

  1. Milan, tu tá cheio de razão. quando eu fico com raiva, as pessoas chegam a ficar com medo de mim. Mas esta mesma raiva eu uso para conseguir coisas e conquistar meu lugar no mundo. O engraçado é que ela sempre aparece quando sinto que algo ou alguém está tomando o meu espaço. Já tinha lido sobre a raiva antes, mas em nenhum outro texto eu havia me identificado como este. Graças a ti, não vou vai sentir vergonha ou culpa da minha raiva, Gracias amigo!

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