Neste Dia dos Namorados, quanto custa o teu amor?

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Por Pavita Machado

Sério que a gente tá usando tempo e energia pra julgar errado o amor entre duas pessoas? Por que esse julgamento só acontece em relação aos homossexuais?

Enquanto vamos debatendo incessantemente sobre esta não-questão absurda, que tem servido mais como marketing de igreja e comércio do que a qualquer justiça social, a maior questão em relação ao amor vai passando batida…

Deveríamos aprender com as crianças, pois elas são as verdadeiras autoridades em questão de amor. Isto, é claro, antes de nós adultos as enchermos com nossos preconceitos e medos idiotas.

Criança ama. Quem aparecer pela frente. Geralmente a primeira figura que aparece é a mãe, depois o pai, e por isso mesmo este amor com os pais fica tão marcante. Porque é um amor muito puro, não corrompido, intenso e verdadeiro como ele só. E criança expressa seu amor – e tudo mais que sentir. Daí que essas primeiras pessoas que amamos tanto, que já são adultos com sua capacidade de amar bem bagunçada, têm respostas bem diferentes a esse amor puro de seus filhos. Talvez o pai ou a mãe não aguente o amor de seus filhos, com toda a sua intensidade e beleza. Talvez doa sentir tanta pureza e se dar conta do quanto a gente está desconectado deste espaço. E, inconscientemente, vamos enfiando os filhos na máquina do fazer/fazer/fazer, consumir/consumir/consumir, atingir/atingir/atingir, e sentir cada vez menos.

O buraco que vai ficando naquele lugarzinho que deveria ter sido alimentado com amor é largo e só vai aumentando com o tempo. Daí, chega uma hora em que a máquina onde todos estamos inseridos diz que existe a possibilidade de tapar essa cratera afetiva com o fantástico, maravilhoso, todo-poderoso: RELACIONAMENTO PERFEITO!

E, a partir deste momento, o foco na vida vai para a busca desta pedra preciosa, desta varinha mágica que vai me fazer feliz para sempre! Os conceitos do que é um relacionamento perfeito variam, mas existe o acordo universal de que ele é uma equação entre duas pessoas. E só. Faz-se um contrato, às vezes assinado em cartório, às vezes celebrado com festas e rituais da igreja consumista universal, onde muita grana rola solta, onde o que cada um está dizendo é que vai prover o outro de “amor” para sempre, contanto que a outra parte faça o mesmo. E só de um para o outro! Assim vai passando a carência e o patrimônio de pais para filhos…

A partir daí, segue-se uma vida tentando convencer a natureza de que este contrato faz sentido. De que eu só posso e devo amar esta pessoa, e que tenho todo o direito de exigir que ela ame só a mim! É aí que a porca torce o rabo valendo!

Nenhuma criança tem este tipo de bobagem na cabeça, de que só deve amar seus pais. Ela ama os pais porque ama, e quando vem a tia, o irmão, os amiguinhos, a primeira professora, ela ama também. Intensamente. E justamente porque ela está praticando o amar, o seu amor se mantém tão intenso e vivo.
Quando seguramos o amor pra honrar o contrato, ele começa a definhar… é o momento em que trancafiamos o passarinho livre que é o amor nas nossas gaiolas, por mais decoradas e caras que elas sejam.
O sistema adora! Como se vende perfume, flores, chocolate, roupas, joias, jantares, pernoites em moteis, milhares de artigos pra comprovar a validade desse contrato de amor…

As tais “provas de amor” só são tão necessárias porque não o sentimos, não confiamos nele. Bem lá no fundo sabemos que esse contrato não vem da nossa natureza, nossa natureza é liberdade e amor, sem condições. Faz parte da natureza humana amar, se importar, cuidar, curtir e tudo isso não pode se limitar a uma pessoa.

Veja bem, não estou dizendo que não se possa ter uma relação mais íntima de amor com uma pessoa, em absoluto. Muito pelo contrário, um relacionamento amoroso pode ser uma grande meditação na vida da gente, um impulso pra crescer. Estou questionando o absurdo de exigir que esta relação preencha toda tua necessidade de amor, de prazer, de carinho, de alegria, de troca afetiva. Questiono o fechamento pra amar outras pessoas, pra estar disponível ao amor delas, pra se importar com elas.
Fechamento não tem nada a ver com amor, é uma questão de segurança emocional e financeira! Vou ter companhia quando eu for um caco, uma velha frustrada e deprimida e meu patrimônio vai ficar nas mãos dos meus descendentes… só que não! Eu não vou ser uma velha frustrada e deprimida, porque não estou colecionando desamores pela vida. Não estou acumulando frustrações sexuais e afetivas que depois vão cobrar seu preço na minha menopausa e adiante. Não quero descendentes ricos num mundo pobre e miserável! Dá pra criar uma vida fora da caixa empacotada nos contratos seguros e mortos dos relacionamentos.

Segurança é o contrário do solo fértil pro amor, é um chão bem cimentado, bem lisinho, onde não tem como tropeçar, e nem como nada vivo brotar. Nem ciúme, nem dor, nem tesão, nem amor, até que sobrem dois zumbis que, na melhor das hipóteses, mantém viva a imagem da felicidade para sempre.

Só sei de uma coisa: esta “felicidade” de plástico nunca vai conhecer as alturas de uma sexualidade madura, de níveis de energia imensos ao fazer amor por horas, com o coração bem engajado. Nunca vai conhecer a beleza do silêncio compartilhado, onde as duas energias se fundem sem que nada precise ser feito e a comunicação acontece sem linguagem, nem esforço. Esta felicidade artificial não conhece a beleza de expandir na troca com outras pessoas, na criação de sonhos do coração, projetos que vão enriquecer mais do que apenas o casal, mas trarão frutos deste amor pros outros, pro planeta. E essa felicidade de mentirinha nunca vai ensinar amor de verdade às crianças.

O Amor não precisa de casamento. O Amor precisa de Liberdade. O Amor precisa ser Amado.

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Um comentário sobre “Neste Dia dos Namorados, quanto custa o teu amor?

  1. O homem que me amar…

    O homem que me amar
    deverá saber abrir as cortinas da pele,
    encontrar a profundidade de meus olhos
    e conhecer o que se aninha em mim,
    a andorinha transparente da ternura.

    O homem que me amar
    não desejará possuir-me como uma mercadoria,
    nem me exibir como troféu de caça,
    saberá estar a meu lado
    com o mesmo amor
    com o qual estarei ao lado seu.

    O amor do homem que me amar
    será forte como as árvores de ceibo,
    protetor e seguro como elas,
    puro como uma manhã de dezembro.

    O homem que me amar
    não duvidará de meu sorriso
    nem temerá o volume de meu cabelo,
    respeitará a tristeza, o silêncio
    e com carícias tocará meu ventre como violão
    para que brotem música e alegria
    do fundo de meu corpo.

    O homem que me amar
    poderá encontrar em mim
    a rede onde descansar
    do pesado fardo de suas preocupações,
    a amiga com quem compartilhar seus íntimos segredos,
    o lago onde flutuar
    sem medo de que a âncora do compromisso
    o impeça de voar quando queira ser pássaro.
    de vir a ser pássaro.

    O homem que me amar
    fará poesia com sua vida,
    construindo cada dia
    com o olhar posto no futuro.

    Acima de todas as coisas,
    o homem que me amar
    deverá amar o povo
    não como uma palavra abstrata
    tirada da manga,
    mas como algo real, concreto,
    a quem render homenagem com ações
    e dar a vida, se necessário.

    O homem que me amar
    reconhecerá meu rosto na trincheira
    joelhos no chão me amará
    enquanto os dois disparam juntos
    contra o inimigo.

    O amor de meu homem
    não conhecerá o temor da entrega,
    nem terá medo de se descobrir ante a magia da paixão
    em uma praça cheia de multidões.
    Poderá gritar – te amo –
    ou colocar placas no alto dos edifícios
    proclamando seu direito de sentir
    o mais lindo e humano dos sentimentos.

    O amor de meu homem
    não fugirá das cozinhas,
    nem das fraldas do filho,
    será como um vento fresco
    levando consigo, entre nuvens de sonho e de passado,
    as fraquezas que, durante séculos, nos mantiveram separados
    como seres de distintas estaturas.

    O amor de meu homem
    não desejará rotular ou etiquetar,
    me dará ar, espaço,
    alimento para crescer e ser melhor,
    como uma Revolução
    que faz de cada dia
    o começo de uma nova vitória.

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