“Por causa do medo e de uma sensação de rejeição deixei de viver muitas coisas…”

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Por Prem Jwala

Como acontece com a maioria das pessoas, o começo da minha vida sexual não foi muito natural e relaxado.  Sempre carreguei um profundo sentimento de medo e rejeição em relação às mulheres. Lembro que, com uns 13, 14 anos, achava que nunca uma mulher iria se apaixonar por mim. Me cagava de medo de chegar em alguma mulher,  ou de simplesmente conversar sobre qualquer assunto. Para chegar nas festas era um horror, não fazia a menor idéia do que falar para as mulheres e era um sentimento de que eu tinha que fazer um personagem para agradar, se não, já era… me sentia feio e desinteressante. Porém, quando ia para as festas, algumas mulheres (não tão poucas assim) ficavam me encarando e, por mais que elas olhassem, eu não conseguia me convencer que estivessem afim. Continuava me cagando de medo de chegar nelas. Elas poderiam olhar duas, três, quatro vezes e eu dizia “se olhar mais uma vez, eu vou”… e não ia. Aí, pra não admitir que eu era um completo cagão, eu começava a botar defeito nelas- “não é tão bonita assim, na próxima eu chego”, e assim passava a noite e voltava pra casa solitário.

O único jeito de perder a vergonha era depois da terceira latinha de cerveja, mas aí geralmente não curtia tanto e nunca rolava com as gurias que eu realmente queria. Lembro de uma outra situação em que marquei um encontro com uma guria na praça da cidade, conversamos por três horas e eu não conseguia dizer que queria ficar com ela! Era uma situação muito bizarra, eu dizia na minha cabeça “cara, é obvio que ela tá a fim, o que ela tá fazendo aqui, três horas? Não é pelo teu papo.” E era óbvio que ela tava a fim só que, dentro de mim, era um medo terrível e uma sensação de que ela não seria a fim.

Para transar era a mesma coisa, sempre uma sensação de que eu não seria capaz e de que as mulheres não eram a fim, porém, quando eu me arriscava e chegava, as coisas rolavam e sempre tinha mulheres a fim. Mas o sexo nunca era uma coisa completamente preenchedora, sempre ficava um vazio depois, uma sensação de que tinha algo a mais, de que aquilo ali não era tudo, de que faltava algo. E eu também nunca me apaixonava por ninguém, imagina, era um risco enorme! Mantinha somente relações superficiais que, na maioria das vezes, não passavam de um único encontro e, outras tantas, eu tava tão bêbado que nem lembrava que tinha ficado com a pessoa .

Por causa desse medo e dessa sensação de rejeição deixei de viver muitas coisas, trocar com muitas mulheres na minha adolescência, e muitas vezes me senti péssimo por isso.

Hoje, olhando pra trás, vejo que essa sensação, esse medo, não eram reais. Olhando fotos dessa época, eu penso “bah, mas eu nem era feio! E as gurias até davam bola pra mim.” Então por que esse sentimento? Isso eu fui descobrindo com vários trabalhos terapêuticos que fiz, principalmente para desbloquear minha sexualidade: minha mãe me criou para ser o menino dela, o filhinho bonitinho, arrumadinho, maridinho dela. Ela se separou do meu pai quando eu tinha quatro anos e me colocou no lugar dele, me fez o homenzinho da casa, jogando o peso da sua carência sobre mim, me podando, me castrando, nunca me tratando como um homem e sempre como um menino, controlando e criticando o jeito como eu me comportava, me vestia, falava e tudo mais. Sempre me elogiando por ser um bom menino que tinha que ajudá-la a cuidar e dar o exemplo para minha irmã. Se eu ficava com raiva dela, se fazia de vítima, chorava ou me batia, abafando minha revolta. Se eu queria alguma coisa que não era o que ela queria, ela me manipulava pra eu mudar de idéia. Daí fui desenvolvendo essa profunda invalidação da minha energia masculina, de que eu poderia ser um homem atraente, poderoso e potente- mamãe não iria gostar. Assim fui ficando psicologicamente castrado.

Somente quando consegui expressar e desbloquear minha raiva fui resgatando minha energia masculina e sexual, aí consegui viver minha sexualidade, trocar com várias pessoas, ter experiências diferentes e também me envolver em intimidade. Consegui ter várias relações profundas com mulheres lindas e muito legais porém, em toda relação, aquele padrão da minha mãe vem e monta e aí, se eu deixo de expressar minha raiva na relação, as coisas que me incomodam com minha parceira, logo vou perdendo o tesão, ficando castrado, aquele velho menininho tentando agradar a mamãe… vou transando muito menos, comendo muito mais, engordando mais até que a relação explode por falta de energia.

E até hoje um termômetro de como anda minha energia, meu poder, minha abertura é minha sexualidade, se estou conseguindo me conectar com minha parceira, se estou fazendo só o básico, se estou acomodado, tudo isso aparece na cama, e quando estou com minha energia em cima rola uma abertura que se expande para outras coisas e pessoas também, fico mais amoroso com todo mundo, mais presente, mais ligado, mas também as coisas me incomodam mais. Se tem alguma situação não resolvida, não consigo simplesmente “fechar os olhos” e fazer de conta que não está acontecendo nada, aquilo fica me incomodando até eu resolver. E se não resolvo as situações vou abafando minha raiva e o ciclo começa todo de novo.

E tudo começou lá na minha infância, assim como com todo mundo, a educação sexual repressora me roubou a oportunidade de viver uma adolescência mais legal e assim chegar a idade adulta maduro e preenchido, e não carente e inseguro. Para os homens isso é muito importante pois geralmente se cagam de medo das mulheres, principalmente se elas forem fortes, e adoram aquelas bonequinhas sem poder que não ameaçam ninguém, e isso tem muito a ver com tua mãe. Assim como as mulheres que ficam carentes e desesperadas por um homem, se rebaixando, aceitando migalhas por causa da carência que tiveram de pai na infância. Cada um tem a sua história, mas o produto disso é essa sociedade aonde se vive muito pouco a sexualidade natural ( e se vive cada vez mais a pornografia e a distorção) e os shoppings e farmácias estão cada vez mais lotados.

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