MEU SEXO É LAICO!

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Por Punya

“Com a “psique dolorida” despenteio-me
transgredindo ancestrais programações
desgarrando-me das mulheres internas
que, desde a infância, torcem o rosto para mim
pois não me encaixo no molde perfeito de seus sonhos,
pois me atrevo a ser esta louca falível, terna e vulnerável”

Gioconda Belli

A maioria das mulheres não vive o orgasmo. Elas encenam um. Já parou para pensar por quê?

Vamos começar pelo Congresso Nacional. O PL5069*, projeto de lei escrito por Eduardo Cunha, que defende a cultura do estupro, proíbe a venda de pílulas do dia seguinte e criminaliza o aborto é um dos exemplos mais recentes de como a sexualidade da mulher é reprimida em todas as esferas públicas e privadas.

Conversando com uma amiga portuguesa, ela não acreditava quando falava sobre esse projeto de lei. Ela me dizia: “Como assim? Que absurdo! A imagem que temos das mulheres brasileiras é como se fossem altamente liberais. Pelos biquínis, pelas danças, acreditava que as mulheres aqui eram mais soltas…”. Detalhe: em Portugal, o aborto é legal.

As mulheres desde pequenas são estimuladas a serem objeto para os homens. E isso começa em casa. Minha mãe sempre me estimulou a agir como uma princesa à espera do seu príncipe encantado. Só que uma princesa não tem sexualidade, ela não se masturba, não fala palavrão, ela não reclama de nada, ela tem compaixão por tudo, é doce, suave, amável. Ela não tem instinto, ela não tem sexo. Afinal, o conto de fadas acaba após o casamento no “felizes para sempre”…

Meus amores todos acabaram se perdendo neste ponto, na espera do tal príncipe. Durante várias relações eu não sentia que tinha permissão de ter prazer no sexo. De falar o que eu gosto, de ser solta, de rebolar, mexer meu corpo, respirar e deixar meu corpo fluir. Enfim, esta não permissão é uma prisão e as mulheres brasileiras vivem essa prisão.

No Brasil, a sexualização da mulher começa cedo para agradar aos homens, assim como a repressão por trás disso tudo. As mulheres aprendem a viver desesperadas por serem desejadas sexualmente pelos homens, por isso os biquínis minúsculos, os silicones, as bundas empinadas, mas na cama não sentem absolutamente nada. Às vezes chegam a rezar para que o sexo acabe logo: porque nós também aprendemos que nossos corpos não são nossos. Já ouvi várias mulheres falarem: “mais que dez minutos de sexo não dá”. Imagina o inferno que vive esta pessoa! Sou feliz de dizer, depois de tanta terapia bioenergética, que com certeza menos de uma hora de sexo não dá!

Na vida real, o amor de verdade inicia do encontro de dois corpos físicos. Algo bem concreto. O reflexo do orgasmo nada mais é do que uma entrega total à energia do corpo, estar completamente entregue a seu corpo e ao parceiro. Aí sim o orgasmo é possível. Não estou falando daquele orgasmo que você tem sozinha se masturbando ou transando mecanicamente. Estou falando aquele em que seu corpo acaba por fazer parte do universo, em que ele vibra, e você perde a noção do tempo. Aquele que você não vira para o lado e dorme exausta.

Onde eu quero chegar é que o discurso do Eduardo Cunha só tem ibope no Brasil porque ainda vivemos num país patriarcal onde a mulher não é tratada como igual desde a infância, e ela é ensinada a aceitar esta posição. E se nós não mexermos com a infância, a nossa infância, nunca vamos poder nos libertar de toda esta loucura. Uma liberdade real sobre nossos corpos, nossas vontades, nossos amores. Nunca as mulheres poderão ser amigas e amantes reais dos homens, nunca o amor poderá inundar o mundo porque pro amor resistir às nossas neuroses, precisamos de orgasmos múltiplos! E, para ter orgasmo múltiplos precisamos ter poder pessoal sobre nós mesmas. E, para ter poder pessoal, precisamos nos libertar do nosso passado.

*PL5069:  Registro de BO para comprovar violência sexual (somente quando houver “dano físico e psicológico”), proibição da profilaxia de gravidez (pílula do dia seguinte), punir profissionais de saúde que aconselhem a interrupção da gestação ou passem  informações sobre o direito das mulheres .

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