Para os que gostam e os que não gostam de futebol…

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Por Milan

Estamos num mundo onde muito poucas pessoas podem ser uma referência para nós. Num momento em que tanta coisa tá acontecendo, a indústria do futebol, que é um negócio bilionário, faz um esforço enorme para as pessoas desviarem a atenção dos seus próprios problemas. A paixão pelos times está cada vez mais neurótica, doida. O futebol se tornou um grande repressor da sexualidade, porque os homens e agora também as mulheres botam toda sua energia vendo o jogo de futebol e deixam de lado o fazer amor.

Eu sou um apaixonado pelo futebol. Me lembro que eu, com 16 anos tive a chance de ver o Pelé jogar pela última vez. Viajei pra Porto Alegre com uma pessoa de mais idade, 7 horas de viagem naquela época e entrei no estádio Olímpico para ver o Rei às 6 horas da tarde… o jogo era as 9 da noite. Era a última chance de ver o Pelé ao vivo, seu uniforme branco impecável… 0x0, mas vi Pelé. Pelé, excepcional jogador, fantástico e a elegância dele jogando… Era um rei! Infelizmente como pessoa não posso falar nada disso…

Mas eu quero prestar homenagem a uma pessoa fantástica que era um excepcional jogador, uma técnica excepcional, de uma inteligência rara e de uma humanidade fantástica, este sim é um rei completo: Johan Cruijff. Você só sabe a respeito da laranja mecânica, do carrossel holandês, do treinador do Barcelona mas você não sabe o mais essencial deste homem. Em 1974, ele foi eleito o melhor jogador da Copa. A Holanda perdeu a final para Alemanha de tanto pau que os alemães deram e pela conivência do juiz, porque o jogo era dentro da Alemanha. O Schultz (jogador da seleção alemã) chutou até a mãe do Cruijff. Cruijff eleito o melhor jogador e a Alemanha campeã, resultado conivente com o sistema. Quatro anos depois, Argentina. Holanda totalmente favorita com Cruijff e Neskins, Johan Cruijff em sua última copa, auge da carreira disse o seguinte que abalou todo o mundo esportivo:

“Não vou jogar! Não vou estar num estádio para abafar os gritos das pessoas que estão sendo torturadas nos porões da ditadura! Eu sou um ser humano, não importa se é minha última copa, a minha humanidade não pode estar abaixo da minha carreira. Não vou e farei campanha para todos os jogadores não irem para a copa. Essa é uma copa para ajudar a ditadura a massacrar pessoas.”

Chocou o mundo! Como que o maior jogador, a maior estrela, toma uma postura dessa?! Todos os presidentes de países, personalidades, fizeram de tudo para o demoverem da idéia, tentaram tudo que é negociação, mas Johan Cruijff foi irredutível: – “Não piso na Argentina enquanto pessoas estão sendo torturadas! Soltem todos os presos e eu vou!”. Que saudade desse homem!

Que saudade… que essa dignidade volte ao futebol, pelo menos 2%, um pouquinho só, um pouquinho de consciência para esses caras que ganham milhões e milhões e a única coisa que interessa para eles é o status e transar com um monte de menininhas.

Lamentavelmente tenho que torcer para esses caras, mas não vou esquecer, nunca vou esquecer que teve um Cruijff que conseguiu convencer o segundo melhor jogador do mundo, Michel Platini, Neskins e outros a não ir para a Argentina por causa das torturas da ditadura. Por isso a copa da Argentina foi a mais pobre, a mais podre e a mais vergonhosa das copas, onde roubaram de tudo que é jeito para a Argentina – não para a Argentina ganhar, mas para aditadura ganhar. Quem viu os jogos sabe a roubalheira que rolou. Mas Cruijff era uma pessoa de atitude também nas suas posturas, na sua vivência. Ele foi o treinador que criou todo sistema do barça onde todos jogam, onde as estrelas participam coletivamente do jogo, onde todo mundo tem espaço para brilhar.

Cruijff recuperou a alegria do futebol, tanto como jogador, quanto como treinador. Ele praticou a verdadeira democracia participativa do futebol, por isso foi um gênio, por isso ver a Holanda jogar enchia os olhos, impossível não torcer por ela, pareciam crianças brincando e não máquinas programadas para o sucesso a qualquer custo. A Holanda não queria ganhar a qualquer custo, aceitou o pontapé dos alemães e não devolveu com a mesma moeda, aliás, os alemães são ótimos nisso. Em 1954, a grande máquina da Hungria foi derrotada pelo pontapé dos alemães, mas a Alemanha nunca vai ter um Puskas, um Cruijff, Pelé e Maradona.

E nós, infelizmente, no futebol, vamos esquecer essas pessoas mais brilhantes porque a imprensa futebolística só está interessada em caras coniventes com o sistema. Quando aparece um cara diferente, ele cria as coisas mais encantadoras. Se vocês lembram da seleção de 1970, ela foi criada pelo João Saldanha, “As Feras do Saldanha”. Um homem de postura e consciência social, um jornalista que não se cedia para seu chefe, seu editor. Um cara que pensava!

Cruijff merece um filme! E ele largou a carreira de treinador cedo. Eu não tenho certeza, mas ele ficou muito indignado com o ambiente do futebol, com a falta de humanidade no futebol. Johan Cruijff é um homem que tem que ser lembrado até por aqueles que não gostam de futebol porque, se o futebol fosse feito de muitos Cruijff, você gostaria e eu não teria que tapar o nariz cada vez que vejo um partida de futebol.