Sofrimento 10 x 1 Prazer (capítulo 2)

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Por Milan

“Seu Finólio, tu só quer o melhor”. Ouvi muito essa frase da minha mãe. Como se fosse uma atitude péssima querer o melhor. Ela me dizia: “tu só quer comer as coisas boas.” Eu respondia para ela: “as ruins ficam para vocês.” Essa é uma questão essencial. Ter prazer é errado, sofrer é o certo. Minha mãe só sofreu e era considerada uma santa. Eu que tinha um pouquinho mais de prazer era considerado folgado, vagabundo. Assim é nossa sociedade, toda mulher que gosta de sexo tem um olhar de desconfiança dos homens. Os homens querem santas, pudicas e depois se frustram e não têm prazer. Daí têm que ir aos puteiros. Em busca de um prazer distorcido. Toda sociedade investe nisso. Por exemplo, quando você está transando e tendo muito prazer, de repente acontece alguma coisa para cortar, ou ejacula, ou vem um choro, ou a energia vai embora… Você acha que isso acontece por acaso? Não! É uma censura interna. Nós vivemos com culpa de estar bem. Quando sentimos culpa por ter uma condição melhor de vida que os nossos pais. Ou quando saímos de uma relação porque não aguentamos mais prazer, daí fazemos qualquer merda para detonar. Porque lá dentro, tem aquela vozinha: “é feio”. Não adianta você entender que ter prazer é fundamental. Isso é uma compreensão intelectual. Dentro de você, todas as suas atitudes são contra o prazer. São contra a alegria. Se não fossem, você executaria mais alegria, mais diversão, mais sorriso. Você suporta num prédio criança chorando, barulho alto de televisão, casais brigando, agora, se você ouvir barulho de sexo, muito, você vai reclamar para o síndico. Você prefere ouvir buzina de carro do que sons de orgasmo. Intelectualmente você concorda comigo, mas emocionalmente não. O emocional é quem comanda o espetáculo. Os homens pensam que não são machistas… Agora, deixar de ser machista é outro papo. As mulheres pensam que não são submissas… Eu brinco com umas amigas que vestem camiseta com a estampa da Frida Kahlo que elas por dentro tem uma Hebe Camargo, sentada no sofá, falando da maravilha que é o casamento. Isso dá uma discrepância muito profunda entre o intelectual e o emocional. Entre aquilo que você pensa que é e quem você realmente é. Essa é a grande esquizofrenia do ser humano. Enquanto você não olhar para isso, para que você vai mudar?

As pessoas acham que transam bem. Quando aprofundamos o papo elas se dão contam que não transam bem coisa nenhuma. Como é que se aprofunda? Perguntando o que acontece de verdade. Na vida real você transa uma vez por semana e você pensa que são três. A transa dura 10 minutos e na sua cabeça você acha que foram 40. Porque nosso cérebro foi treinado a distorcer desde criança. O pai e a mãe tinham uma atitude não amorosa e você distorcia para que parecesse amorosa, para ficar mais fácil de lidar. E isso acontece com o prazer também. Se nós não começarmos a fazer com que cresçamos emocionalmente, nós vamos estar sempre vinculados a prazeres muito infantis. Por isso comer é um prazer muito comum. Um chocolate, um sorvete, uma criança adora, mas para um adulto é um prazer pequeno. Um adulto pode ter fontes muito maiores, como uma transa sexual, um amor profundo, uma amizade profunda, a criação de uma arte. Essa doença está dentro da gente, essa distorção está dentro de cada um de nós. Temos que ser muito cuidadosos e olhar para nossa realidade. A gente fez uma agenda do Namastê onde tem um espaço para marcar diariamente como foi sua sexualidade, para ter uma avaliação mensal de como foram suas transas. Raro quem faz, todo mundo acha interessantíssimo, mas não faz. Então é tudo na cabeça. Interessantíssimo, mas não faço. Isso é uma distorção. Eu gosto de sexo, mas não transo: distorção. O sentido da vida é amar, mas eu não amo: distorção. Que nem a igreja diz: “amar o próximo”, mas só explora o próximo: distorção. E as pessoas acham que a igreja é isso, solidariedade, fazer o bem, ajudar aos pobres, mas olha na realidade. O que uma igreja faz não é nada disso. Os pobres são marketing. Se não tiver dinheiro para colocar na bandejinha do padre, circula dali.

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Aliás, a igreja fez de tudo pelo masoquismo, fez tudo contra o prazer, por isso que o prazer é pregado pela igreja como sofrimento e a sexualidade é deturpada. Os beatos, as pessoas santas da cidade, principalmente do interior, onde eu vivia, eu olhava para aquelas pessoas e mais pareciam um diabinho do que santidades. Os homens mais santos que tinham na cidade eram todos tarados. Eles apenas usavam a santidade para esconder a sua perversão. Disfarçar. Todo santo é um tarado. Ele só quer esconder sua loucura. Tudo maluco, gente. Se tivesse que escolher entre o Deus e o Diabo segundo a visão da religião católica, eu escolheria o Diabo, Deus é só harpa, branquinho, azulzinho, anjinho para cá, anjinho para lá, pombinha… que tédio! O Diabo é rock, calor, fogo, puteiro, jogatina, gargalhadas.

Oh, gente! Que distorção. E isso vai fazendo a cabeça da gente. O que é santo e o que é profano. O problema é que nós não acreditamos nisso, mas dentro de nós funciona desse jeito. Não acreditamos intelectualmente, mas na hora do pega pra capá nos sentimos culpados com o prazer. Sentimos culpa por desejar uma outra mulher ou um outro homem. Temos vergonha de expressar nosso desejo por uma pessoa como se fosse algo ruim, que tem que ser escondido. Muita deturpação, muita deteriorização. Existe todo um comércio em cima dessa deteriorização, um comércio que lucra com isso. Pessoas com culpa: dá-lhe presentes. Pode escrever, se o namorado transa com outra pessoa, ele enche de presentes a namorada, e vice-versa. Ele não vai lá e transa muito melhor com ela, não. Ele vai lá e enche ela de presentes. O shoppings estão aí à espera dos ditos cidadãos responsáveis que transam pouco e que tem altos limites no cartão de crédito, com os quais eles podem gastar bastante para tapar o seu buraco. Não sei, são raros os que pagam na prostituição com cartão, né? Parece que ali tudo é dinheiro à vista, cash. Aliás, eu só conheci uma pessoa que pagava com cartão os puteiros. Foi o pai de um cliente meu que pagava a conta do puteiro no cartão e depois dava a fatura para a esposa pagar. Ao ser terapeuta, a gente ouve histórias muito hilárias, mas são fatos que acontecem. O fundamental é que negligenciamos o prazer. Mesmo que 90% considere que ter prazer e fundamental, não movem uma palha para isso e não tentam nada novo. O que pode fazer a diferença não é uma ideia, mas uma atitude em favor da liberdade, de um amor verdadeiro. É isso que devemos buscar com unhas e dentes, porque assim estaremos resgatando o real sentido humano.

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