“Não sois máquina, homens é que sois”

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Este é o título do “Último discurso” do Chaplin no filme “O Grande Ditador”. Essa frase cabe no momento por ser uma súplica pela humanidade, uma súplica para o ser humano acordar. Existem coisas absurdas que se tornaram banais. Eu vou alguns dias da semana ao Namastê, na Rua República, na Cidade Baixa. Têm dias que o cheiro de mijo na rua é tão forte que parece que estou dentro de um mictório público. Cheiro de lixo, daquelas lixeiras que o Fortunati colocou e que acaba tendo mais lixo em volta do que dentro. Motos passando e rasgando com aquele barulho, vrummm… Carros barulhentos, buzina. Passam aquelas pessoas saindo dos restaurantes com suas roupas cuidadosamente escolhidas para esconder corpos atrolhados. Você olha para a cara das pessoas e nem reconhece mais a sua humanidade.

O problema é que tudo isso é perfeitamente normal. Virou normal ver adolescentes perdidos na noite, bêbados, chapados. Isso tudo bem, cada um faz o que quer. Gritando pelas ruas suas angústias, seus desesperos. Aquele odor de trago dos bares, tudo ficou natural, tudo isso foi perfeitamente absorvido. Você olhando as pessoas passeando nas calçadas com seus cachorrinhos que são tratados como se fossem pessoas. Eu olho e acho aquilo uma aberração. É difícil eu não linkar aqueles cachorrinhos cheios de roupas e acessórios, totalmente neuróticos e infelizes, mas lambendo seu dono, sua dona. Um cachorro desses consome o que daria para matar a fome de uma criança da Restinga ou de qualquer vila que você queira, mas isso é normal. Isto é aceito. Para todas essas coisas não existe mais nenhuma indignação.

Casais descendo dos seus carros, se olhando com caras tensas, sem graça. É raro você ver alguém sorrindo, caminhando descontraidamente pela rua, alguém assobiando, cantarolando. Se isso acontecer acho que vão mandar prender. Acho que a Associação do Bairro da Cidade Baixa (que parece que é comandada por um padre) é capaz de mandar prender. Os bares ocupando as calçadas, ninguém se importa. Afinal de contas é preciso fazer a economia do país andar. É preciso consumir. Farmácias, restaurantes, pizza, cachorro quente, sorvete, temaki, qualquer tipo de porcaria, independente do barulho, independente dos danos à saúde, independente dos danos estéticos, tudo isso pode. A única coisa que não pode são seres livres, seres criativos, que ainda acreditam que expressar a sua sabedoria, sua arte e o seu amor para os outros pode ser um ponto de luz no meio de desse mar cinzento.

Falo isso porque aqui estamos na 15º Gincana do Namastê. Há 14 anos fechamos a Rua República para a abertura da gincana. Um dia ao ano, por duas horas, para apresentação de 4 equipes, das 21h às 23h, em pleno horário de verão. Pessoas criativas e bonitas. Se você já viu sabe que é uma arte completamente amadora, construída com muito amor, suor e lágrimas. Uma emoção incrível expressa ali, uma vez ao ano, mas a Associação dos Moradores da Cidade Baixa pediu que fosse proibido. Nós ficamos chocados. Uma vez por ano. Uma beleza incrível que realizamos há 14 anos. Sempre com muita alegria e encantamento. E isso não aconteceu apenas conosco. A censura ao belo também proibiu a passeata de blocos de rua e a caminhada pelo Dia da Consciência Negra. Já a passeata Coração de Jesus foi permitida.

Muitas pessoas que foram nos assistir, a grande maioria dos vizinhos gostam. São apenas 2 ou 3 neuróticos que não podem ouvir barulho de alegria, de gente bonita na rua. Gente sensual, gente viva. Talvez isso incomode, mas são 3, 4 carolões. Por que essas pessoas não fazem uma ação contra os vandalismos na Cidade Baixa? As inúmeras vezes que plantamos nossos jardins e foram destruídos, contra o barulho dos carros, das bebedeiras nas ruas. Por que nós estamos sendo punidos? Nós não estamos sendo punidos. Aquelas pessoas que ainda tem algum encantamento estão sendo punidas. Nossa apresentação, que seria no dia 5 de dezembro, será transferida para o dia 4 na Comunidade Osho Rachana. Uma apresentação feita com alegria, amor e beleza. Vamos fazer para nós mesmos e para aquelas pessoas que estão dispostas a andar 35 km para passar uma tarde num sitio maravilhoso. Convivendo com pessoas maravilhosas.

Temos certa tristeza nisso pois gostaríamos que os cidadãos da cidade tivessem acesso a essa arte. A rua não é só para os carros, é para trazer conforto para a gente também, mais facilidades, mas parece que a Prefeitura e o conceito ideológico em voga vai transformar a Cidade Baixa em um presídio. É permitido tudo o que é bandalheira menos a beleza. Como em qualquer presídio. É permitido assassinato, roubo, tráfico de drogas, corrupção, pornografia. Eu nunca soube de um presídio que tivesse arte, dança, teatro, que lamentável. É muito lamentável que a beleza e a alegria sejam punidos.

Isso me lembra muito o nazismo, a proibição de tudo que é belo, humano e sensível. Eu, no começo, tinha aceitado. Mas eu também não vou me acomodar na doença de todo mundo. Então vou dar esse meu berro. Esse meu grito, essa minha indignação contra o mau gosto, contra a falta de sensibilidade, contra a falta de alegria e acho que todo mundo que tem essa chama devia fazer um esforço de ir na apresentação da Gincana. Aliás não é um esforço, é uma benção sair da cidade e ir para uma natureza estonteante, sem nenhuma poluição, sem nenhum veneno. Comer um moranguinho do pé, desfrutar do nosso almoço, de uma comida sem veneno, comer uma carne limpa, ovos sem hormônios, jogar um futebol, conversar com pessoas, trocar, fazer uma pequena meditação, subir no morro e ver o pôr do sol do Guaíba, coisas singelas e bonitas. Isso ia fazer muito bem para sua alma e depois assistir um espetáculo maravilhoso de 4 equipes da Gincana que vai te surpreender de uma maneira estonteantemente. Aí você vai perceber que você também é capaz de fazer aquilo porque são pessoas iguais a você que estarão sendo as estrelas. Vou terminar com um pedaço do Último Discurso:

O caminho da vida pode ser o da liberdade e da beleza, porém nos extraviamos. A cobiça envenenou a alma dos homens… levantou no mundo as muralhas do ódio… e tem-nos feito marchar a passo de ganso para a miséria e os morticínios. Criamos a época da velocidade, mas nos sentimos enclausurados dentro dela. A máquina, que produz abundância, tem-nos deixado em penúria. Nossos conhecimentos fizeram-nos céticos; nossa inteligência, empedernidos e cruéis. Pensamos em demasia e sentimos bem pouco. Mais do que de máquinas, precisamos de humanidade. Mais do que de inteligência, precisamos de afeição e doçura. Sem essas virtudes, a vida será de violência e tudo será perdido.”

Para participar desse grande encontro entre em contato conosco:

Namastê – Rua Republica, 528, Cidade Baixa – Tel: (51) 32867485

Líderes das equipes:

Anandini (51) 983079227

Punya (51) 981917933

Nirava (51) 981919989

Sharania (51) 981517564

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6 comentários sobre ““Não sois máquina, homens é que sois”

  1. Lamentável…. Este povinho mediocre, bitolado e escasso de tudo…. falta de amor de todas as formas, incluindo seu próprio…Mas eu vejo luz quando uma meia dúzia que sabe amar a vida se propoe a compartilhar como vcs fazem muito bem…Obrigada por insistir com esse “resto” de gente que ainda está no limbo como eu… Quem sabe se não são estas iterrupções que farão mais pessoas serem salvas…35 kilometros não é nada pra quem anda em circulos atrás do próprio rabo a vida inteira.
    Um beijo.

    • Desculpe, posso acreditar no amor que carregas no coração, mas definitivamente não sabes escrever. O teu discurso é do mais absoluto ódio, “povinho medíocre” etc…Quem proibiu o evento afinal? Será que este não deveria ser o “alvo”? Eu estou absolutamente estarrecido com este tipo de discurso em um local reservado à paz e a meditação. Todo meu amor está dando lugar ao medo, o texto, assim como o comentário são absolutamente assustadores.

  2. Maninha, somos de gerações bem diferentes, sou da geração da tua mãe. Fiquei impressionada com teu relato, ele poderia ter sido escrito por mim. Kkk Levei uma vida inteira, para me libertar de todos os preconceitos que minha educação em relação a sexualidade. Bom saber que vocês jovens, estão se libertando desses preconceitos e não passarão para outras gerações. Um grande beijo.

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