Relacionamento = Certificado de Propriedade

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Por Milan

Parece tão absurdo mas virou isso. É exatamente o que está acontecendo na prática com as coisas. Uma vez era o casamento, agora os relacionamentos em geral viram isso. Comecei a pensar sobre a questão quando teve uma amiga minha que veio me procurar para falar que estava saindo com uma pessoa. Eles estavam ficando e estava legal, tinha um contato emocional. De repente ela sentiu que estava afim do cara e disse para ele. Ele disse que estava afim de gastar aquilo, que queria transar mais e não queria ficar preso. Ela veio falar comigo sobre o que eu achava. Eu falei bem claro: “Qual o problema?”.

O que eu vejo dos relacionamentos é que quando as pessoas estabelecem um status já começa um monte de broncas. Acaba o sorriso. Ou tu conta uma piada ou não tem um sorriso espontâneo. Gente, eu sou super a favor do amor, do namorar. A gente precisa muito namorar. O relacionamento começou a virar um certificado de propriedade, como alguém é dono de mim e eu sou dono de alguém? Eu pertenço a alguém. E pra mim isso é um sentimento muito infantil. Uma criança precisa de um pai e de uma mãe, sem eles ela não sobrevive. Agora, um adulto não precisa pertencer a ninguém e não deve, isso só faz mal. Isso não faz bem para as relações. É só tu ver, quando tu estabelece que está em um relacionamento 50% da tesão vai embora na hora, no ato. E qual é a necessidade nisso? As pessoas inventam: “Ah, aprofundar.” Tu acha que aprofundar é morar junto? As pessoas ficam rabugentas pra caramba, isso é aprofundar? Outros dizem: “Transar só com a mesma pessoa aprofunda.” Aprofunda nada, eu conheço um monte de gente que está só com uma pessoa e tem fantasia de comer um monte de outras. E não dá quase nada para a relação e normalmente a parceira ou o parceiro estão insatisfeitos sexualmente. Tu chama aprofundar isso? Tu chama aprofundar essa tragédia grega? É muito cheio de preconceitos.

Foi o que falei para a minha amiga. Tu precisa dizer para a pessoa que tu está afim? Não. A pessoa está saindo contigo porque está afim. Parece que a gente quer obrigar a pessoa a ficar. Isso se chama propriedade. Tu é obrigado, tu é meu. Nas brigas em relacionamento as coisas que saem são absurdas, são ofensas estúpidas. As coisas que um fala para o outro são horríveis. E tu chama isso de amor? Tu fica acumulando um monte de merda. Não confiam no amor e então fazem esses contratos. Agora não é mais na igreja, é um contrato muitas vezes até espiritual. Aquela onda de me dedicar, me aprofundar, de não misturar as energias. Mentira. Baita mentira. Lorota grossa. Espiritualidade não tem nada a ver com repressão. Quem disse que é o oposto? “Ah, então vai virar putaria.” Mentira, putaria é relacionamento. Eu conheço um monte de gente assim. Eu atendia uma menina que vinha com todo esse discurso de relacionamento e o namorado dela transava com várias e mentia para ela. Várias. Não é uma pessoa que bateu. Uma pessoa reprimida fica com uma energia doente, a pessoa quer transar com um monte de gente. Olha, se tu estás em um relacionamento é perfeitamente normal que às vezes quando tu está amando alguém abra outro espaço para outra pessoa também, e aí? Isso é vida. Ou se não qual o fim?

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Nem tudo está perdido

mafalda1

Por Milan

Sábado à noite, estávamos aqui na comunidade conversando com uma amiga nossa que é professora. Ela contou sobre um episódio no colégio onde trabalha. De repente viu um furdunço dos alunos, uma bagunça no banheiro. Depois foram para a sala sussurrando que uma das meninas tinha menstruado. Todos acanhados falando baixinho, com medo, vergonha. Essa professora questiona qual o problema da menstruação e eles respondem que é sujo e feio. Então ela explica que é algo natural, que não tem nada de errado, é o momento em que a menina está virando mulher – um momento sagrado. É uma transformação.

Os alunos ficaram impressionados. Começou a surgir uma curiosidade incrível, muitos questionamentos. Dentre estes, um aluno questiona: “Professora! A senhora já fez boquete?” Ela fica pasma, mas responde: “Sim, já fiz!”. O aluno insiste: “E a senhora gosta de fazer boquete?”. “Sim, gosto.” Ela responde. Eles ficaram tão empolgados que parecia gol do Grêmio no final da Copa Brasil. Era uma vibração, aí a gurizada choveu de perguntas. Eu fiquei muito impressionado, eu ri muito quando ela contou, imaginando a cena. Eu daria tudo na minha vida para poder estar nessa sala de aula e ver e ouvir tudo isso. Se pudesse ter um filme daquilo ia ser fantástico. Aí eu fiquei pensando profundamente sobre isso. Ninguém nunca vai falar sobre, imagina uma professora.

Todos adoraram e no dia seguinte chegaram a escrever coisas a respeito. Uma menina escreveu que antes achava que menstruação era doença, era dor, era problema, que agora vê como algo sagrado. Fiquei pensando quantas professoras dessas deveria ter pelo mundo. Que bonito. Imagina, toda a vida, eles disseram, nunca nenhum adulto havia falado sobre isso. E eu posso afirmar: Nunca nenhum adulto vai falar porque as pessoas morrem de vergonha. Aí uma pessoa que é mais satisfeita, mais preenchida com sua sexualidade não vai ficar constrangida por causa da situação. Mas ela fala, ela expressa porque ela sabe da qualidade do amor que tem nisso também. E gente, isso faz uma diferença incrível. Esses meninos e meninas jamais vão esquecer essa professora porque ela evitou um monte de bobagens, um monte de medos, um monte de besteira.

Depois continuaram falando sobre a ejaculação masculina, sobre o toque, de transar ou não. Fiquei observando e que coisa fantástica, que coragem. Mas essa coragem só tem quem viveu, quem vive o sexo como prazer, como alegria e como amor. Se tu não vive como amor, tu não vai ter essa coragem. Por isso é importante a gente viver isso e poupar nas crianças essa dor de cabeça, esse medo, essa tortura, essas dúvidas, essa distorção. Parabéns para uma pessoa que faz isso. Eu gostaria que muitas pessoas conseguissem ter essa satisfação sexual, esse amor e poder falar para as crianças de peito aberto algo de compreensão, não de exibicionismo, mas de compreensão.

Você já imaginou nessa idade receber essas informações? Ou até na idade que tu estás, uma mulher chegar e falar que gosta disso ou daquilo. Hoje em dia dois adultos que já estão a cinco anos juntos não tem a coragem de dizer o que gosta ou não. É uma diferença incrível. Isso é realmente educação, é educação de verdade. Porque isso não tem preço, isso não tem em livro. Essa informação direta, pessoal, rica. Assim é que a gente começa a transformar esse desespero sexual, essa pornografia sexual em algo bonito, corajoso e amoroso.

Eu gostaria que todos os adultos refletissem a respeito e pudessem ter um exemplo como o dessa professora que é algo muito fantástico. Eu, honestamente, como adulto daria tudo para estar olhando para a cara dessa gurizada, para estar olhando esse momento magnífico. É óbvio, vai ter os caretas que vão dizer: “Que horror!”. Mas os caretas já são caretas mesmo. São pessoas muito frustradas que nunca vão saber o que é o amor, o que é a sexualidade.