Nem tudo está perdido

mafalda1

Por Milan

Sábado à noite, estávamos aqui na comunidade conversando com uma amiga nossa que é professora. Ela contou sobre um episódio no colégio onde trabalha. De repente viu um furdunço dos alunos, uma bagunça no banheiro. Depois foram para a sala sussurrando que uma das meninas tinha menstruado. Todos acanhados falando baixinho, com medo, vergonha. Essa professora questiona qual o problema da menstruação e eles respondem que é sujo e feio. Então ela explica que é algo natural, que não tem nada de errado, é o momento em que a menina está virando mulher – um momento sagrado. É uma transformação.

Os alunos ficaram impressionados. Começou a surgir uma curiosidade incrível, muitos questionamentos. Dentre estes, um aluno questiona: “Professora! A senhora já fez boquete?” Ela fica pasma, mas responde: “Sim, já fiz!”. O aluno insiste: “E a senhora gosta de fazer boquete?”. “Sim, gosto.” Ela responde. Eles ficaram tão empolgados que parecia gol do Grêmio no final da Copa Brasil. Era uma vibração, aí a gurizada choveu de perguntas. Eu fiquei muito impressionado, eu ri muito quando ela contou, imaginando a cena. Eu daria tudo na minha vida para poder estar nessa sala de aula e ver e ouvir tudo isso. Se pudesse ter um filme daquilo ia ser fantástico. Aí eu fiquei pensando profundamente sobre isso. Ninguém nunca vai falar sobre, imagina uma professora.

Todos adoraram e no dia seguinte chegaram a escrever coisas a respeito. Uma menina escreveu que antes achava que menstruação era doença, era dor, era problema, que agora vê como algo sagrado. Fiquei pensando quantas professoras dessas deveria ter pelo mundo. Que bonito. Imagina, toda a vida, eles disseram, nunca nenhum adulto havia falado sobre isso. E eu posso afirmar: Nunca nenhum adulto vai falar porque as pessoas morrem de vergonha. Aí uma pessoa que é mais satisfeita, mais preenchida com sua sexualidade não vai ficar constrangida por causa da situação. Mas ela fala, ela expressa porque ela sabe da qualidade do amor que tem nisso também. E gente, isso faz uma diferença incrível. Esses meninos e meninas jamais vão esquecer essa professora porque ela evitou um monte de bobagens, um monte de medos, um monte de besteira.

Depois continuaram falando sobre a ejaculação masculina, sobre o toque, de transar ou não. Fiquei observando e que coisa fantástica, que coragem. Mas essa coragem só tem quem viveu, quem vive o sexo como prazer, como alegria e como amor. Se tu não vive como amor, tu não vai ter essa coragem. Por isso é importante a gente viver isso e poupar nas crianças essa dor de cabeça, esse medo, essa tortura, essas dúvidas, essa distorção. Parabéns para uma pessoa que faz isso. Eu gostaria que muitas pessoas conseguissem ter essa satisfação sexual, esse amor e poder falar para as crianças de peito aberto algo de compreensão, não de exibicionismo, mas de compreensão.

Você já imaginou nessa idade receber essas informações? Ou até na idade que tu estás, uma mulher chegar e falar que gosta disso ou daquilo. Hoje em dia dois adultos que já estão a cinco anos juntos não tem a coragem de dizer o que gosta ou não. É uma diferença incrível. Isso é realmente educação, é educação de verdade. Porque isso não tem preço, isso não tem em livro. Essa informação direta, pessoal, rica. Assim é que a gente começa a transformar esse desespero sexual, essa pornografia sexual em algo bonito, corajoso e amoroso.

Eu gostaria que todos os adultos refletissem a respeito e pudessem ter um exemplo como o dessa professora que é algo muito fantástico. Eu, honestamente, como adulto daria tudo para estar olhando para a cara dessa gurizada, para estar olhando esse momento magnífico. É óbvio, vai ter os caretas que vão dizer: “Que horror!”. Mas os caretas já são caretas mesmo. São pessoas muito frustradas que nunca vão saber o que é o amor, o que é a sexualidade.

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