O amor é lindo…Mas por que a gente acha que é feio?

Outro dia estava fazendo um grupo de sexualidade no Namastê e tive uma experiência bem profunda a respeito da minha sexualidade que tenho certeza que provavelmente seja a realidade de muitas mulheres. Nesse grupo fiz exercícios simples que trouxeram muitas verdades a meu respeito. Primeiro no aquecimento tínhamos que dançar uns com os outros de uma forma sensual, revelando nossa sensualidade através

da dança. A princípio isso parece uma coisa bem simples, afinal essa é uma energia natural. Só que não!Percebi em mim e em muitas pessoas que estavam no grupo um sentimento de vergonha. Depois de me dar conta disso fui conseguindo relaxar, até que estava dançando de uma forma fluida, me sentindo muito feminina e sensual. A partir daí percebi que alguns homens com quem dancei se sentiram constrangidos, não conseguiam me olhar nos olhos, olhavam para o chão, ficavam sem graça.
No próximo exercício cada um tinha que deitar e olhar um ponto no teto e só respirar levando o ar até a pélvis. Simples assim. Quando comecei a respirar senti muito medo da minha energia sexual. Senti o quanto essa energia causa desconforto nas pessoas à minha volta e em mim mesma: me mostrar sensual é errado, incomoda. A partir daí conectei com várias lembranças da minha infância e adolescência e sentimentos relacionados à elas. Quando eu tinha 4 anos de idade estava no banheiro com meu primo, da mesma idade que eu. Estávamos nos tocando, descobrindo nosso corpo e sensações boas. Mas para fazer isso tivemos que despistar os adultos, nos trancar no banheiro até que alguém chamou o nosso nome e saímos correndo apavorados pois sabíamos que estávamos fazendo alguma coisa errada.Com apenas 4 anos já sabíamos que sexo era errado!
Quando eu tinha por volta dos 10/11 anos morava em um condomínio e tinha muitos amigos da minha idade. Lembro que para mim e minhas amigas a vida girava em torno de duas coisas essencialmente: a primeira menstruação e o primeiro beijo. A sexualidade era o que movia todo o frisson da gurizada. Era o menino novo que chegou no bairro, as reuniões dançantes, se alguém já tinha passado a mão em ti. E o primeiro beijo. O primeiro beijo era o assunto mais em voga. Quem já tinha beijado de língua, quem não, quem beijou, como que foi. Quem não beijou queria muito beijar mas como que ia beijar sem o guri perceber que tu era virgem de boca? Então a gente treinava no espelho, treinava mordendo uma mação pois quem já tinha beijado dizia que beijar de língua era igual morder uma maçã. Meu Deus era muita excitação, e uma expectativa muito grande, um desejo muito grande de experimentar, se descobrir. Nossos corações davam arrepios, nossas mão suavam. Lembro que a gente ficava depois da escola sentadas numa escadaria do condomínio e não tinha outro assunto. Era quem gostava de quem, quem fazia “os lados de fulana com beltrano”, ou quando aquele guri que a gente achava muito gatinho passava e a gente ficava mudas esperando e depois que ele passava era um kkkkk. Como era lindo tudo aquilo, como era genuíno, espontâneo. Mas como fizeram a gente acreditar que era feio. No dia que fui dar meu primeiro beijo tivemos que montar um esquema de segurança blindado. Tudo acontecia atrás dos blocos de apartamentos. Justo naquele dia minha mãe estava com um mal humor do cão. Graças às minhas amigas que imploraram pra eu ficar mais um pouco na rua consegui beijar meu amado na boca. Mas era tudo tão complicado que acho que aquele beijo não durou nem 30 segundos e saímos os dois correndo disparados um para cada lado. Para mim foi um momento de glória, eu tinha perdido a virgindade da boca. Porém uma culpa gigante montou sobre os meus ombros e eu fiquei mais de um mês com a cabeça quente preocupada pois em algum momento eu achava que tinha visto a vizinha do terceiro andar na janela e ela era amiga da minha mãe. Nesse mais de um mês cada vez que eu entrava em casa ficava muito tensa que minha mãe viesse pra cima de mim me cobrando pelo meu delito.
Além disso, meu namoro com esse menino era uma coisa tão ingênua. Nós ficávamos a noite toda no banco conversando e conversando. Ficar perto do guri só olhando ele já era o máximo. Depois quando a gente subia pra casa eu ia na janela do quarto e ele na janela da cozinha da casa dele, era bem longe, e dávamos um tchauzinho. Era muito bom. Mas minha mãe marcava cerrado em cima. Pra gente conseguir ficar sozinhos tinha que ser meio escondido e quando a mãe encontrava… Minha mãe não costumava me bater. Ela nem precisava falar nada só com o olhar e a cara de braba eu já sabia que era para subir e nunca mais chegar perto daquele garoto. Um crime.
Lembro que uma vez eu estava subindo as escadas e um menino que eu achava muito lindo veio atrás de mim. A gente ficou se beijando no escuro. E ele estava com muita vontade de passar a mão nos meus seios. Eu também estava com muita vontade que ele passasse a mão. Mas eu jamais poderia aceitar uma coisa daquelas pois como minha mãe dizia “esses guris são muito gabolas, vão contar pra todo mundo e só querem se aproveitar de ti”. Se eu deixasse ele passar a mão e se ele contasse pra todo mundo eu poderia ficar falada no condomínio. E ficar falada era a pior coisa que poderia acontecer na vida de uma guria. De uma guria! Uma verdadeira desgraça. Era melhor tua mãe morrer do que tu ficar falada. Talvez tu tivesse até que se mudar do condomínio e eu não estou exagerando. Teve famílias que se mudavam pois as filhas tinham fama de galinhas. Gente que mal poderia ter nisso? Tinhamos 11 anos de idade. Nós não íamos transar nem nada era só um momento de descoberta de prazer no corpo, o que pode ter de errado nisso?
Quando eu tinha 16 anos fui falar com minha mãe que queria ir ao médico tomar pílula pois queria transar. Na verdade eu já tinha transado. Mas não tinha nenhuma abertura para falar sobre isso. Apenas sobre as precauções a serem tomadas. Lembro que no dia que ela me levou no médico parecia que estava levando a filha para o sepultamento, para tomar a extema unção, uma tensão filha da puta e eu, já arrependida, achando que nem deveria ter falado nada mesmo. Poxa num momento como esses não poder contar com o apoio da mãe é foda!!!
Conectando com meu passado e com todas essas sensações percebi que levo todo esse medo, toda essa tensão pra cama, pra vida. Quando escondo minha sensualidade vou me enfeiando para não chamar muita atenção, para não incomodar os homens, não gerar problema. Outro dia estava numa festa e estava bem arrumada, coloquei um vestido sensual. Veio um amigo de brincadeira e passou a mão na minha bunda. Na minha cabeça já veio… Tá vendo só, quem manda se vestir assim… Essa é a origem do machismo de que mulher que anda de mini saia pode ser estuprada, por exemplo. E toda a sociedade é conivente com isso. Fico pensando nos meus pais e naquelas famílias do condomínio onde eu me criei e, gente realmente, eram as mulheres adultas que falavam mal das meninas mais sensualizadas e arrastavam seus nomes na lama. Imaginem a vergonha de uma menina que ficava falada ao passar pelo condomínio? Passava de cabeça baixa. E todas as outras meninas deviam parar de se relacionar com elas, afinal de contas eu ouvia muito a frase: “Diga-me com quem andas, e te direi quem és!” A sexualidade jamais era encarada de uma forma natural e espontânea. Era sempre um crime, uma coisa suja, feia. Nas reuniões dançantes a gente era obrigada a manter uma distancia regulamentar dos meninos. Lembro que uma vez deixei um menino me dar uns amassos. Meu Deus!!!Todas minhas amigas se voltaram contra mim. Minha mãe não veio falar comigo diretamente mas mandou uma amiga mais velha do que eu me dar um sermão. E eu fiquei me sentindo muito, mas muito errada.
E ai…como hoje isso influencia no meu prazer? Uma das coisas que sinto dificuldade é em prolongar o tempo da relação sexual. Sinto que tenho uma tensão constante, que é difícil de relaxar e muitas vezes fico querendo que a transa acabe logo. Igual como eu aprendi. Tudo tinha que ser rápido, se demorar mais tempo pode dar problema, podem me pegar. Essa tensão ainda está ai. Sinto também a tensão de estar fazendo alguma coisa errada e às vezes simplesmente não consigo relaxar em estar ali com uma pessoa tendo uma troca. Além disso, sinto dificuldade de ter orgasmos mais prolongados. Algumas vezes consigo ter esse deslumbre e hoje quando tenho um orgasmo sinto aquele prazer e aquela vibração se espalharem por todo o meu corpo. Mas sei que poderia sentir muito mais e por mais tempo essa sensação. Acredito que não consigo pela mesma razão. Quando era adolescente e me masturbava muitas vezes minha mãe dava uma incerta, batia na porta e perguntava o que eu estava fazendo. Então eu tinha que me masturbar e gozar rápido ao invés de ter um relaxamento em descobrir o meu prazer. Mas me pergunto por quê? Afinal de contas se estamos nessa fase querendo descobrir o prazer é por que é uma coisa natural, genuína. Mas nos foi gerada uma tensão de que era um crime. Conheço pessoas que nem se masturbavam na adolescência e que tem muita dificuldade em sentir prazer com seu próprio corpo.
Infelizmente na escola tivemos aula de educação moral e cívica ao invés de educação sexual. Tudo o que aprendemos foi por nossa conta e RISCO! Por isso penso que devemos ir cada vez mais em busca do nosso prazer, quebrar os tabus, os moralismos, os medos. Lembro que antes de fazer bioenergética eu ouvia muito falar em orgasmo vaginal e orgasmo clitoriano. Eu sabia que meu orgasmo era clitoriano e tinha curiosidade. O que era o ponto G? Será que ele tinha alguma coisa a ver com orgasmo vaginal? Mas com que eu iria conversar sobre essas coisas? Que experiências sexuais as mulheres com quem eu convivia tinham para trocar comigo? E a vergonha de falar sobre a sexualidade? Depois de fazer alguns exercícios pélvicos de bioenergética consegui sentir orgasmos vaginais e partilhar minha experiência com outras mulheres que estavam nessa mesma busca que eu. E senti a diferença no meu corpo. Orgasmo clitoriano é bom, mas é superficial, localizado na vagina e normalmente eu sinto como uma descarga, depois tenho sono e vontade de parar de transar. Orgasmo vaginal é profundo, vem de dentro, aumenta a sensação de prazer no corpo, aumenta a energia sexual, aumenta a tesão. Por tudo isso sinto que vale muito a pena buscar me descobrir, atravessar meus medos e querer sempre mais.

Por Manindra

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Um comentário sobre “O amor é lindo…Mas por que a gente acha que é feio?

  1. Muito bom o texto! Mas muito triste que eu não te conheço, tu não me conheces e a tua descrição poderia ter sido escrita por mim… ou por qualquer outra mulher! Todas vivemos algo muito semelhante, tivemos os mesmos medos e sentimos os mesmos efeitos na vida adulta. Agora é decidir: baixamos a cabeça igual a todas nas gerações anteriores ou iniciar a mudança em nós para que nossas filhas sejam mais felizes!

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