Quem tem medo do amor livre?

Amor livre

Por Gyan Pavita

 

Pra começar, sempre desconfiei dessa expressão. “Amor livre”… parece pleonasmo. Se não for livre, vai ser o quê? Amor preso? Amor limitado, amor escravo…? Decerto vai… e decerto é por isso que as pessoas tem tanto medo do tal “amor livre”, acostumadas que estão a serem limitadas, presas, escravas…
Amor e liberdade são palavras grandes, que assustam… os dois vem sem manual de instrução, sem rede de segurança. Pra amar e pra ser livre é preciso confiança, justamente algo que foi muito machucado na vida de todo mundo que foi criança um dia. A gente cresce com a noção (duramente aprendida) de que amar é perigoso, e que liberdade é um estado a ser alcançado quando eu tiver dinheiro suficiente, segurança suficiente, status suficiente…
Amor livre é um caminho de crescimento. A gente se apaixona, se envolve e começa um relacionamento. O início é vivo, cheio de tesão, de sentimento, frio na barriga… a gente fica mais bonito, mais amoroso, cheio de energia. E aí surge a grande idéia de garantir que isso não acabe nunca! Até contrato assinado a gente faz pra registrar essa garantia! Mas não é assim que funciona, amigos! A gente sentiu esse amor num momento em que se sentia livre, disponível, aberto pra isso. Essa é a dica! Vale muito mais investir nessa liberdade, disponibilidade e abertura, pois assim é que as coisas acontecem! Assim é que o amor acontece. A partir do momento em que você decide trancar num cofre teu tesão, teu amor, teu carinho, pra só tirar na hora certa, com a pessoa certa… estamos decretando a falência do amor.

O Fantasma da Traição
Responde rápido: do que você tem mais medo – de sentir atração por outra pessoa ou de que seu parceiro, sua parceira sinta atração por outra pessoa? Já parou pra pensar? O mais normal é que a pessoa tenha medo de que o outro fique a fim de alguém. E aí? O que pode acontecer de tão terrível?
Cenário 1 = ele ou ela se apaixonam pela outra pessoa e você baila. Você acha mesmo que se ele ou ela reprimirem o que sentem por essa outra pessoa vocês vão ficar melhor? Preferiria que ele/ela ficasse com você, mesmo sendo a fim de outro/a? (se a resposta for sim, não precisa continuar lendo esse texto)
Cenário 2 = ele ou ela sentem atração por outra pessoa, “conferem a situação” (se permitem ficar com essa pessoa e ver o que rola) e vêem que não era nada importante, e voltam pra você ainda mais confiante no amor de vocês. Legal, né?
Cenário 3 = ele/ela sentem atração, conferem a situação e vêem que não era nada demais, mas que na verdade sentiram atração por outra pessoa porque não está mais rolando entre vocês. Assim uma situação que pode ter estado estagnada entre vocês se resolve e fica tudo mais claro. Melhor do que ficar na estagnação, né?
Cenário 4 = ele/ela sentem atração por várias pessoas, o tempo todo e “tem que conferir” o tempo todo, ou seja, transar com todo mundo… bem, talvez esta pessoa não esteja a fim de estar num relacionamento… E aí, você vai querer estar num relacionamento com esta pessoa? Agora inverte estes cenários e considera que você é a pessoa que sentiu atração por outro/a. Como se dão estas equações?

Ciúme nunca foi medida de amor, só em música de dor de cotovelo… Ciúme é um sintoma da falta de amor que nós vivemos ao crescermos, da falta de confiança no amor, da falta de confiança em nós mesmos. E querer limitar o parceiro para sentirmos menos ciúmes só garante uma coisa: que o ciúme vai continuar intacto e a falta de confiança também. A gente pode brincar de pertencer um ao outro, como falam tantas músicas de “amor”, mas à medida que a gente amadurece, chega hora que a brincadeira vence a validade e a gente tem que partir pra vôos mais altos. Mas, veja bem, envelhecer é certo pra todo mundo, já amadurecer é escolha pessoal…
E a piada escondida nisso tudo, todo esse pandemônio de pavor do amor livre e de ser deixado, rejeitado, abandonado, é que, à medida que você permanece honesto e autêntico com o que sente, sem se esquivar dos desafios que o amor vai inevitavelmente trazer, toda essa necessidade de experiência vai relaxando e caindo literalmente “de madura”. O amor sobrevive a desafios, e cresce com eles, assim como tudo que é vivo. As próprias plantas para crescerem fortes, precisam de ventos, chuvas, sol, não só de tempo bom…

“Felizes para Sempre”
Era uma frase bonitinha quando a gente tinha 5 anos e ouvia as histórias na hora de dormir. Mas eu desconfio da felicidade contínua da Cinderela e seu príncipe, da Branca de Neve e seu príncipe, Rapunzel, Bela adormecida, etc, etc…
A gente precisa entender o sentido de “endless love” (amor sem fim). O amor da gente não acaba, mesmo, mas vai mudando de direção. Não dá pra forçar. Não tem que durar pra sempre com aquela pessoa. Importa é o amor que você viveu, não o tempo que ele durou. Cada encontro é uma possibilidade de amor. Amores de uma noite, semanas, anos, qual não vale a pena? E “se não há amor, não te demores”.
Tá mais que na hora da gente sair desse clichê que “amor livre” significa transar com outras pessoas. Tá na hora de respeitar o amor mais do que os nossos medos, de reconhecer que o amor vem pra esculhambar nossos limites e nos fazer expandir, a ponto de nos querermos livres, e a quem amamos também. E aí esse amor pode expandir pra fora do relacionamento, pra amizades, causas, nossa comunidade, nosso planeta. Estamos perdendo muito do que o amor tem pra nos mostrar enquanto insistimos na birra do “é só meu!”

 

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Zorba – O Grego

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Por Prem Milan

Zorba tem uma história muito rica. Você deveria ver esse filme. Vi a primeira vez lá por 1978 e fui ver agora novamente, 40 anos depois. Que filme maravilhoso. Quando uma pessoa tem conteúdo, ela está além do tempo! Sua alegria, sua celebração, sua atitude perante a vida…

Um filme incrível com o Anthony Quinn. Você devia ver para acordar. É muito incrível porque vendo o filme você nota o quanto a gente vive na cabeça, o quanto a gente vive no medo. Nós não vivemos. Não há vida do lado de cá do equador! Medo do futuro, medo de perder o emprego, medo de ficar sozinho! E ao mesmo tempo ficando sozinho. Como diria o Lenine o “medo que dá medo do medo que dá”. O medo é uma armadilha que aprisionou o amor. Uma armadilha que te aprisionou. Você está preso ali. Você tem medo de tudo.

Provavelmente você também tem medo de alguma coisa de mais conteúdo. A internet funciona, sabe por quê? Sabe por que o Whatsapp tem esse grande sucesso? Porque é raso, muito raso… Não fura essa película de medo que tu tens? E você vive nisso e vai achando que tá vivendo, achando que é o cara. Daí você segue emocionalmente desesperado, procurando por grupos, atividades, cursos.. para fazer parte de alguma coisa e acaba tudo sendo uma grande bobagem! Todas coisas superficiais, nada de profundidade.

Por isso eu gosto do Zorba. Ele não é simplesmente um “porra-louca”, ele tem uma profundidade. Ele tem uma atitude perante a vida e lida com as situações de frente! As mais difíceis que sejam!

E a vida é muito mais do que essa superficialidade. Nós não nascemos assim. É todo um sistema educacional, familiar, social que rouba de nós nosso conteúdo. Nós fomos usurpados em nosso conteúdo!

Insisto: gostaria que você visse “Zorba – O Grego”. É uma lição de espontaneidade, de aventura, de vida! Uma lição de alegria e beleza. Porque eu acho que está muito infeliz e difícil a vida  para a imensa maioria das pessoas.

Talvez você tenha uma certa dificuldade de vê-lo porque é um filme todo em preto e branco. Ele não é cheio de altas definições, efeitos especiais como tantos outros. Aliás, efeitos ENGANADORES, porque é isso, efeitos especiais é como enganar otários , como iludir pessoas… Efeitos especiais, nada mais são do que ilusão. Criar ilusão, ilusão e mais ilusão. Você quer cores e mais cores. Cores que não existem porque tua vida está cinza. Experimenta ver Zorba! O filme é preto e branco, mas a vida dele é colorida!

Você pode achar que pra não é você… Que está tudo bem. Mas está mesmo? Porque sem conteúdo pessoa nenhuma vai ser feliz. Manter-se bobo-alegre não é tão fácil assim. O tempo inteiro tendo que “se pilhar” com idiotices daqui, idiotices dali… Se iludir com isso, se iludir com aquilo… Chega uma hora que se enche o saco de tanta ilusão. Mas quando tu encher o saco da ilusão parece que não vai ter mais tempo pra ti. Ou você se dá conta, ou “el tiempo es veloz”, como diria Mercedes Sosa. E é muito veloz!

O problema é que você nem sabe o que está perdendo, e isso é triste. Se você pudesse ter o mínimo vislumbre do que você está perdendo, você faria a força de um leão para te resgatar como pessoa. Você usaria a fúria de um vulcão. Para transformar isso tudo, mas é muito difícil ter esse vislumbre. Talvez num momento de um profundo amor você consiga ter esse vislumbre, mas depois você acaba jogando tudo pro alto, porque é um vício. É um vício muito grande. Eu sei que você não quer ser incomodado. Assim como morto em cemitério não quer se incomodado.

Como Zorba mostra no filme: chega um momento que um dos personagens quer um comodismo e ele diz que comodidade só tem para os mortos, que a vida é encrenca. Eu quero encrenca! Veja o filme e você vai entender o que é encrenca. É estar nas situações, correr os riscos, é se jogar nas coisas. Eu quero muita encrenca mesmo. E isso faz uma diferença.

Eu gostaria muito que as pessoas se dessem conta. Não sou candidato a nada, não preciso absolutamente nada de ti. A única coisa que eu preciso é da tua humanidade pra tudo nesse planeta ficar mais bonito, não preciso de um consumidor. Permite tocar o teu coração com a inocência e a alegria desse filme. É uma dica muito profunda, no meio desse monte lixo, de filme lixo, tentando fazer a cabeça, um filme pra te tirar da cabeça. Quando você experimentar o que é sair da cabeça, vai ver que é muito bom.

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