Criando Filhos em Comunidade

crianças teatro

Por Prem Jwala

 

Uma das experiências mais maravilhosas e mais difíceis que se pode ter na vida é ter um filho, não só ter, mas “criar” um filho. Meu segundo filho está com 3 meses agora e nada ocupa mais espaço no meu dia a dia e no meu coração do que eles. Gostaria de contar minha experiência, pois estamos criando algo muito revolucionário aqui na Comunidade Osho Rachana, que é você criar filhos em Comunidade. Isso significa que tem 80 pessoas que também moram, convivem e se relacionam com eles. Você não imagina a riqueza que isso traz para eles!

Eu vejo as crianças por aí ficando cada vez mais infantilizadas, regredidas, viciadas em atrolhos e tecnologias, com medo de se relacionar e de se expressar. Aqui está acontecendo o oposto. Recentemente, o Pramit chegou de viagem, quando meu filho mais velho o viu,  saiu correndo pra abraçar. O Pramit é pai do Caetano, primo do Lorenzo, mas ele sente tanta saudades e tanto amor por ele e também por vários outros homens e mulheres da comunidade que ele ama profundamente, não apenas o pai e a mãe. É obvio que o canal mais profundo é com o pai e a mãe, mas ele tem muitos amores a mais do que isso, muitas outras referências, muitas outras relações, brincadeiras, brigas, ensinamentos, tudo.

Isso jamais seria possível sem ter esse monte de gente da comunidade ajudado e pegando junto, desde muito pequeno. Nos momentos em que estava com ele e queria fazer outra coisa, meditar, jogar bola, transar, enfim, coisas normais do dia a dia, sempre tinha alguém para cuidar dele, várias pessoas e elas sempre cuidavam muito bem dele, quase nunca dava problema. Então, desde bebezinho as pessoas se acostumaram com ele e o amam, dificilmente ele cruza por alguém na comunidade sem que alguém cumprimente ou pare para brincar com ele. Então, quando eu fico com eles, eu realmente estou ali, curtindo estar com eles, me divertindo, me preenchendo e não querendo fazer outras coisas ou emocionalmente ausente.

Isso dá uma qualidade muito maior e muito mais preenchimento pra eles. É muito difícil você curtir ficar com crianças se está cansado, sem saco, frustrado sexualmente ou sem vontade. Minha vida mudou muito pouco depois que eles nasceram, eu continuo fazendo as mesmas coisas que gosto e amo, continuo me divertindo com os amigos, continuo vivendo minha sexualidade com a mãe deles e continuo criando e expandindo no meu trabalho.

Eu fui criado para ser  o “filho da minha mãe”, mas eu nunca fiz isso com eles, eu quero que eles sejam da comunidade, não meus! Não faço deles minha razão de viver e nem minha única fonte de preenchimento, isso da uma liberdade imensa pra eles. Pois eles não precisam cumprir minhas expectativas, nem preencher meus buracos emocionais, e a mãe deles a mesma coisa.

Isso só é possível por viver nessa comunidade, às vezes fico imaginando se a gente morasse num  apartamento na cidade e só vejo tragédia, nossa relação não duraria nem 3 meses. Imagina: sozinhos, com a ajuda só dos nossos pais e famílias (o que muitas vezes só piora). E o resultado da nossa escolha é que essas crianças estão crescendo com um relaxamento em relação aos sentimentos, ao sexo, a amizade que é difícil imaginar. Outro dia o Lorenzo chamou a mim e a mãe dele pra conversar e disse “É que cada vez que eu cresço, eu sinto uma angústia. Eu to com medo de crescer, porque vou ficar sozinho, porque vocês tão ficando mais tempo com o Valentim (o bebê) do que comigo”. Eu não acreditava estar ouvindo aquilo, a clareza e honestidade dele, aquilo mexeu muito comigo, pois me senti daquela forma muitas vezes quando criança por ser o mais velho também, mas nem passava pela minha cabeça a possibilidade de falar aquilo pros meus pais.

Quanto à sexualidade, todos eles sabem o que é sexo e sabem que os adultos fazem sexo e que é uma coisa natural e prazerosa, e  nenhuma tragédia aconteceu com eles por isso. Imagina o relaxamento que eles vão ter na adolescência e idade adulta, nem se compara com o que vivemos. Essas crianças estão experimentando a liberdade de poder ser elas mesmas sem toda aquela repressão e moralismo que nós recebemos, e mesmo que hoje a faixada pareça ser mais legal, a desconexão emocional é bem maior.

Na Comunidade nós dividimos entre os pais o tempo de cuidar das crianças. Esse fim de semana era meu dia de ficar com eles, mas eu estava com meu joelho estourado. Como estava impossibilitado, em 10 min fiz uma escala com 7 pessoas para que cada um cuidasse das crianças por uma hora, e assim foi o dia. A mãe deles só vinha pra dar de mamar e o resto a galera cuidava, então ela pôde fazer as coisas dela e descansar ao invés de cobrir o meu tempo. Isso tem um valor inestimável.

É obvio que também tem dificuldades e problemas, mas sempre tem pessoas pra ajudar e dar feedback, dizendo ”oh, vocês estão mimando demais ele, não estão dando limite”, ou “tu não brinca com teu filho, fica só na função da tua namorada”, “teu filho tá muito carente”, etc. É algo muito novo e revolucionário, quebrar estes conceitos de família, de que os filhos são propriedades dos pais e só eles que são responsáveis pelas crianças. Quando vejo a beleza e a espontaneidade dessas crianças, cada vez tenho mais certeza de que estamos no caminho certo.

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