Pobre é Aquele que Precisa Muito – Parte I

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Por Prem Milan

“Pobre é aquele que precisa muito”, essa é uma frase que eu vi em um vídeo bem curtinho do Pepe Mujica (https://www.youtube.com/watch?v=4K_uhepjii0), aquele que foi presidente do Uruguai. Aliás, eu vi um filme dele “Uma Noite de Doze Anos” que me impressionou. Me impressionou sua capacidade humana, de suportar, de manter firmeza nos seus princípios. Quando eu vi esse filme eu cheguei à conclusão de que às vezes me queixo por pouca coisa, sabe? Eu recomendo que você veja esse filme. Mas essa frase dele eu queria explorar, talvez você diga “Ah, comunista!”… Não me vem com esse papo para boi dormir! O cara é uma figura mundialmente reconhecida, pela sua capacidade, pela sua determinação e pela sua HUMANIDADE. Veja bem, HU-MA-NI-DA-DE. Aquilo que tá faltando muito, mas muito mesmo em nosso planeta. E eu concordo plenamente com essa frase dele.

Na minha vida também, eu fui criado em uma família italiana – meio italiana, meio alemã – onde, para o meu pai, o importante era ter as coisas, ter dinheiro, ter capital, é ter bens, ter carro, ter casas, é ter, ter, ter, ter, ter, ter. O verbo que se conjugava na minha casa era ter. E nunca foi viver, saber, prazer. Não, era ter, possuir, ser dono.

E durante minha vida, apesar de ser um cara de esquerda eu achava que se eu fosse rico estariam resolvidos todos os meus problemas. É muito absurdo porque eu conheço a vida dos ricos e é um tédio, um porre, todos frustrados, a grande maioria usa cocaína para não sentir o desespero do vazio das suas vidas. Mas mesmo assim, como isso é ensinado desde criança, a associar felicidade com estar bem com dinheiro, é muito difícil tirar essa teoria da cabeça da gente. É um programa instalado na cabeça muito forte. É uma coisa skinneriana, uma associação direta de felicidade com dinheiro. Mas os meus problemas na real eram emocionais “Eu ia ser amado pelas mulheres? Eu ia viver feliz?”. Então eu por muitos anos corri muito atrás disso, de várias formas: negociando, tentando ganhar dinheiro e jogava muito, jogava loteria esportiva, joguei muito, na ilusão, sonhando com aqueles milhões que eu ia ganhar. Depois veio a Mega Sena e eu sonhava durante muito tempo… Eu me lembro de prêmios de 150 milhões, e eu ficava sonhando de como eu gastaria esse dinheiro, como eu ia gastar. Só que um detalhe: toda a viagem eu fazia, completa, e toda vez que eu gastava todo esse dinheiro, todo ele, no final eu sentia um buraco vazio, uma frustração.

Fiz muitas vezes esse processo. E muitos anos da minha vida perdi na busca por isso. Eu perdi vida. O dinheiro custa vida. Custa muito a vida da gente. Lutamos tanto por dinheiro, mas dinheiro significa vida. Você não está gastando dinheiro, você está gastando vida. Para ganhar esse dinheiro você gasta vida. Então a gente consome um monte de bobagem, um monte de porcaria, na real a gente está trocando porcaria por tempo de vida! Criei cavalos de corrida, sempre esperava ter um grande campeão, que ia ser vendido para os EUA por um milhão de dólares, no tempo que um milhão de dólares era muito, muito, muito, muito dinheiro, né. Hoje se fala em dez, vinte bilhões, uma imundície muito grande.

Aí em determinado momento da minha vida eu parei e olhei, quando eu tava realmente feliz e realizado. Gente, eu fiquei muito chocado que era sempre quando eu tive menos, sempre. Sabe? Quando eu tinha meus 18, 19, 20 anos comendo no R.U., sem dinheiro, militando na esquerda, mas eram momentos muito, muito felizes da minha vida. Ali eu era feliz, era cheio de atividade, de ação, entendeu? Muito entusiasmo. Eu me lembro em 1974, sabe, a gente foi acampar em Garopaba. Garopaba não tinha nada, gente, nada. Não existia nada, nada além de pescador e um que outro grupinho de maconheiro que ia acampar. Nós íamos acampar ali na beira da praia naquela parte com gramados e eu me lembro que na época eu olhava… Eu sou filho de comerciante então sempre tem esse maldito olho de comércio, eu olhava uns terrenos grandes, na beira da praia com 100 x 50 metros que podiam ser comprados por meio salário mínimo, uma mixaria. Imagina o quanto valeria hoje! Ainda bem que eu não comprei, pois estaria hoje numa viagem super capitalista, deixando de lado meu coração. Se nós fossemos gananciosos naquela época, nós juntaríamos um dinheirinho e comprava aquilo pra ter.

Ainda bem que os meus projetos de grana não deram resultado. Esses projetos pessoais, onde eu ganhava muito dinheiro e acabava queimando. Porque se eu tivesse tido muita grana, talvez não tivesse vivido uma vida tão bonita quanto eu estou vivendo. Mas eu fui feliz pra caramba acampando ali, comendo salsicha, indo pra praia ajudar a puxar o barco pra fora e ganhava o peixe, uns peixes viola. Olha, aquele peixe viola que nós ganhávamos depois de ajudar os pescadores era o peixe mais gostoso da minha vida, feito num fogão de pedra, gente. Uma maravilha. E quando dava aquele calor, aquele calor sabe o que nós fazíamos? Não era ar condicionado, nós íamos naqueles matinhos, nós íamos naquelas rochas e descobríamos uma caverna na rocha e nós ficávamos horas ali esperando passar aquele calorão, olhando para aquele mar imenso, aquela brisa nos tocando… Gente, milhões de vezes melhor que ar condicionado! Milhões de vezes melhor que ar condicionado! E a gente caminhava e nossos corpos eram saudáveis, belos, vitais, sabe? E comendo aquelas comidinhas simples, nós passamos comendo mais ou menos dez, doze dias, só peixe. Direto do pescador com arrozinho, feijãozinho e era isso aí minha gente. Era assim um acampamento que eu não me esqueço jamais, jamais. Não tem preço aquilo, foi uma coisa inesquecível. Nove amigos, sabe, pelados, sem dinheiro, sabe? Fantástico. Fantástico. Criando e se recriando. Sabe?

Depois, mais adiante, foi o lugar onde eu gerei meu primeiro filho. Foi em Quatro Ilhas, início de 1982. Quatro Ilhas não tinha uma casa. A gente acampava na época da Páscoa, três casais em barracas. A gente ficava ali na beira do mar o tempo inteiro. Um matinho incrível, um cenário incrível, fazendo aquela nossa comidinha, uma coisa indescritível, uma coisa linda maravilhosa, sabe? Me lembro a gente andando pelado à noite, na lua, fazendo amor sob o luar. Nós não precisávamos de nada, camas assim, camas assado. Era na areia, areia, AREIA. Selvagem, vida, vida, vida, VIDA. Coisa que nos estão roubando, vida, VI-DA! Veja bem, vida.

A gente paga todo esse pseudo-luxo, esse pseudo conforto com vida, conforto custa vida, você tem que trabalhar pra caramba pra ter uma porra de um não sei o que, uma porra de um fogão assim, uma porra de um carro. Gente, pelo amor, eu sempre sonhava em ter aqueles carrões. Sabe, hoje em dia eu tenho um Mondeo 1996 que me saiu em torno de uns 14 mil. Sabe? Ele tem 60 mil km, nenhuma Mercedes. É maravilhoso, fantástico. Mas não tá no top, nenhum ladrão quer. Eu me lembro que tava passando ali em Viamão por uma ponte que eles sempre assaltam, tavam vindo todos os guris, quando viam os outros carros eles paravam e assaltavam, quando viam o Mondeo só faltava jogar cinco reais pra mim. Maravilha, é um carro confortável pra caramba. Entendeu? E eu vi que todo esse luxo é uma bobagem, é vida, a gente paga com vida. Veja, esse vídeo pequenininho do Mujica: https://www.youtube.com/watch?v=4K_uhepjii0

E eu to aqui na praia e eu to vivendo assim. Eu faço todos os dias comida para os meus netos e meus amigos, faço questão de fazer comida, sabe por quê? Porque tem sabor, tem gosto. Todos esses imensos restaurantes que tem aqui no Rosa são sem gosto, sem graça. Eu faço um camarão maravilhoso, não da nem pra comparar com essas cozinhas. É que lá é o status de tu pagar, o status. Tu se sente bem, importante, pagando a conta com teu cartão de crédito. Depois trabalha que nem um cachorro. Não, eu me sinto bem fazendo uma comida gostosa e gosto de perguntar pra eles “gostaram?” Eu faço um feijão maravilhoso, então todos os dias meus netos e meus amigos comem uma comida maravilhosa que eu gasto uma hora pra fazer e me divirto porque eu to dando sabor, qualidade, vida, essência, ESSÊNCIA, essência de vida. Sabe? E não esse gosto plástico, o visual das comidas é muito bonito, as fotos são incrivelmente bonitas, mas tudo ruim, cheio de veneno, sem sabor, né? O sabor que tem é o do tetraclorato de não sei o que que eles põe ali pra te enganar. E tu continua na vida saudando isso, que eu tenho um emprego, que botem tudo que é fábrica que polua pra caralho pra eu ter um emprego, pra comprar mais carro, mais coisas plásticas, mais coisas no supermercado, mais isso, mais aquilo. E tudo infeliz.

Meus netos estão felizes pra caralho, com pãozinho cacetinho de manhã, queijo que a gente faz lá na comunidade que é limpo e maravilhoso. E claro, a gente faz umas transgressões ali, compra uma mortadela, umas coisinhas assim e é isso, mas a gente tenta tirar o melhor. A gente não abre mão do sorvete né? Vem o meu netinho ali, “Gelomel hoje, vô, Gelomel!” Tudo bem, deixa eles comerem essas coisa, e é uma imundície sorvete né, é uma imundície, viciante e tudo, mas são as férias dele aqui, eles passam o ano todo no sítio e não tomam uma gota de refrigerante, eles nem gostam. Me lembro uma vez um neto meu, o Caetano, nós fomos comer uma pizza e o cara falou que tinha Pepsi e meu neto perguntou “que que é isso vô?”. Ele não sabia, tem 6 anos e não sabia o que era pepsi. Eu fiquei feliz que ele não sabe. Talvez você ache “Que ignorante, não sabe o que é Pepsi”. HAHAHA, que ignorante! Deve ser uma cultura incrível saber o que é Pepsi Cola, Coca Cola, Whatsapp, não sei o que lá, mídia, não sei o que. Tu acha que isso é ser muito inteligente. Qualquer energúmeno, idiota sabe isso aí. Tu não precisa nem ter coração, qualquer computador de quinta categoria sabe, daqueles mais furreco, antigo. Agora, ter inocência, ter amor, ter alegria, isso tu não é afim.

Eu to falando isso porque é pra gente olhar de uma vez pra vida, o que a gente quer da vida… você quer entrar nessa loucura? Nessa loucura consumista. Quem deve ficar feliz é o dono da Havan, aquela, sabe? Havan, aquela loja imensa que as pessoas adoram ir pra comprar o que não precisam. Mas o cara botou a Estátua da Liberdade, que não é a Estátua da Liberdade, aquela é a estátua da exploração, estátua da vigarice que tem lá nos Estados Unidos. Porque a liberdade já se foi há muito tempo. Daí esse malandro usa isso aí pra te vender o que tu não precisa, e tu vai lá e compra porque acha que “tá barato, tá barato, tá barato”. Barato nada, ta comendo tua vida pouco a pouco. Eu sei que você tá carente emocional, então você precisa ir lá comprar pra ficar te sentindo satisfeito com aquele carrinho cheio, comprando isso e aquilo. Mas depois quando tu chega em casa, tu já ta arrependido. O buraco continua.

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