Você trabalha para viver ou vive para trabalhar?

homem afrouxando a gravata

Por Bodhi Manindra

 

Vamos lá você passa a maior parte da sua vida, do seu tempo, do seu dia trabalhando. Já parou pra pensar nisso? Às vezes é difícil conectar com isso. O trabalho é extremamente importante. É ele quem nos dá a base da nossa sobrevivência. É uma atividade produtiva, e é saudável desenvolver uma atividade produtiva, manter a cabeça e o corpo em movimento. Produzir, criar, contribuir de alguma forma com nosso conhecimento. Além disso o trabalho garante que tenhamos dinheiro, não só para sobreviver, mas para ter acesso às coisas que gostamos, lazer, viagens, algum conforto. Mas uma coisa é fato, ele consome bastante tempo de vida. Ou assume uma importância demasiada, de forma que nos deixamos absorver tanto, mergulhar tanto no trabalho e deixar de viver. Para a maioria das pessoas o trabalho é a coisa mais importante. Tu podes achar que não, que é o amor, que são teus filhos. Mas olha a realidade, quanto tempo tu passas namorando, transando ou brincando com teus filhos? E quanto tempo tu passas trabalhando? Parece que com o tempo vamos nos conformando com isso. Lembro quando era criança e olhava meus pais trabalhando mais de 12, 13, 14 horas por dia. Aquilo me fazia mal, eles nunca tinham tempo para estar comigo, eles nunca estavam felizes. Eu só pensava que eu nunca queria ter a vida que eles tiveram. Mas, eu cresci e fiquei exatamente igual a eles.  Sou professora da rede municipal de ensino. Quando comecei, há 13 anos atrás minha carga horária era de 40h semanais. Ficava o dia inteiro dentro da escola. Eu moro num sítio lindo, com uma galera muito legal. Saia pra trabalhar antes das 7h da manhã e voltava depois das 22h, contando outras atividades que eu tinha na cidade. Me doía o fato de não poder desfrutar mais tempo ali no sitio, no meio da natureza, de ter mais tempo pra relaxar, pra meditar, estar em contato com a natureza e com as pessoas que moravam comigo. Então eu comecei a me questionar. Poxa eu trabalho pra poder viver, pra poder morar num lugar assim, mas eu nunca tenho tempo pra estar aqui. Para desfrutar. O que adianta? Às vezes trabalhava também aos sábados. Fim de semana estava podre de cansada e não conseguia fazer muita coisa. Sendo professora ainda tinha que preparar aulas e fazer avaliações dos alunos em casa. Percebi que estava ficando frustrada igual os meus pais. Estava no paraíso vivendo um inferno. Como morrer de sede em frente ao mar. Então eu decidi mudar a minha vida, foi um processo, foi um tempo. Aos poucos fui reduzindo a minha carga horária de trabalho e nunca mais levei trabalho pra fazer em casa. Percebi que eu teria uma vida mais simples. Percebi que muitas das coisas que eu consumia eu não precisava. Percebi que o carro do ano com seguro total valiam 10 horas de trabalho. Percebi que o “ócio” traz culpa pois às vezes no meu tempo livre fazendo coisas que me davam prazer sentia como se fosse errado, que o certo seria estar trabalhando naquele horário, que estava perdendo tempo ao não fazer uma atividade produtiva.

Outros dois exemplos de pessoas que conversei recentemente me trouxeram também essa reflexão sobre o trabalho. Uma colega que está se aposentando. Perguntei quais eram os planos dela pra aposentadoria e ela me disse “Agora eu vou viver.” Eu fiquei chocada com aquilo, por que os melhores anos da vida dela ela não viveu. “Agora vou curtir os netos, já que eu não consegui curtir os filhos.” Eu fiquei chocada pensando caralho!!! Que vida louca. Eu lembro quando era criança escutava meus pais dizendo que faziam sacrifício pra me dar as coisas. Eu pensava que a presença deles valia muito , mas muito mais do que qualquer coisa que eles pudessem me dar. Talvez se meu pai ou minha mãe tivessem abrido mão de um turno de trabalho, só um turno pra ficar comigo, pra me levar num passeio, pra brincar. Eu tenho certeza que isso teria feito muita diferença na minha vida! Agora gente tem pais que ficam dando Ipads pros seus filhos de três e quatro anos. Cada filho tem um. O tempo que tu gasta trabalhando pra pagar essas coisas tu já pensou que poderia estar com teu filho? Olha o absurdo que estão fazendo com as crianças! Cada criança tem um ipad, um celular. Gente isso é louco! O tempo que tu se mata pra pagar esse ipad, duvido, se tu perguntar pros teus filhos, eles vão preferir estar contigo, fazendo coisas simples!

Outro exemplo foi um ex cliente do Namaste que retornou. Ele ficou um ano e meio aqui. Fez escola de meditação, fez bioenergética e saiu. Começou a assumir mais responsabilidade no trabalho, foi ficando sem tempo pra ele mesmo. Outro dia ele voltou. Estava com um tumor na face. Muito triste. Ele se deu conta do que fez. Disse que até quando ficava em casa muitas vezes estava no computador trabalhando enquanto as bençãos estavam na frente dele, que eram os filhos dele. E ao invés de desfrutar com os filhos estava enfiado no trabalho. Então esse tumor fez ele parar e voltar pra si. Para o que é realmente importante.

Eu vejo colegas que trabalham até 60 horas por semana. Eu sei, quando eu entrei pra prefeitura eu também tive vontade de trabalhar 60 horas por que eu ia ter mais dinheiro pra comprar mais coisas. Ainda bem que eu não fiz isso. Com certeza eu  teria mais coisas, mas seria muito infeliz.

Talvez lendo esse texto venham na tua cabeça coisas do tipo “Ah, mas quem vai pagar minhas contas? Eu não tenho condições de fazer isso! Então me diz, quem vai pagar a tua vida? Na hora da tua velhice, da tua morte, quando tu olhar pra trás e ver o que foi a tua vida? Quantas vezes tu vais ter brincado com teus filhos? Quantas vezes tu vais ter realmente desfrutado a vida? A doçura da vida, sua beleza? Quantas vezes tu vais ter feito coisas que te deram prazer e alegria? Talvez te doa ter se tornado um adulto tão sério, tão sisudo, tão sem tempo pra nada, cheio de compromissos. O que tu pode fazer com isso? Não sei, cada um tem a capacidade de criar a sua vida. Talvez tu estejas tão enquadrado, tão amarrado nesse sistema podre que tu nem consegue vislumbrar uma possibilidade. Talvez o trabalho te alienou tanto que tu não enxerga nada além das paredes do teu escritório, do teu consultório, da tua sala de aula, do teu departamento. Talvez tu use inconscientemente o trabalho para não se deparar com coisas da tua vida. Bom isso é tema para outro texto.

Tem um filme que eu gosto muito. “La belle verte” em português o turista espacial. São pessoas que vivem num planeta diferente. Ao acordar a primeira coisa é mover o corpo. Eles nadam, fazem acrobacia aérea, exercitam o corpo. Depois eles trabalham nas lavouras, hortas, plantações de onde vem o sustendo deles. Eles comem o que plantam. Os adultos trabalham junto com as crianças, trabalham ao ar livre de uma forma descontraída. Eles tem os corpos fortes e saudáveis. Vivem em meio à natureza, em contato total com ela. É um filme realmente inspirador, tu podes ver! Viver a vida da forma mais simples e mais rica que é possível, em contato com o seu corpo, com os outros seres humanos, com os teus filhos, com a natureza. Não é pra tu seguir aquilo ali, nem pra virar hippie, nada disso. É pra trazer inspiração pra tua vida.

A vida vale muito. E a gente vive como se fosse na eternidade, mas não é. Quando era adolescente a gente usava uma frase que escrevia nos cadernos, nas agendas das amigas. Pode parecer idiota, mas pra mim ainda diz muito. Curta a vida, pois a vida é curta!