Como nossos pais

                                                                           

Por Shamin

“Apesar de termos feito tudo o que fizemos, ainda somos os mesmo e vivemos como nossos pais”.

Essa frase de Belchior diz muito sobre como levamos nossa vida em uma eterna reprodução de padrões familiares. Sempre mais do mesmo. Eu, durante minha adolescência, nunca tive o sonho de casar e ter filhos. Isso me bastava para acreditar que eu não seria uma mulher como minha mãe que vivia para cuidar da casa, dos filhos e trabalhar.

Na minha cabeça eu estava rompendo com a dependência da minha família quando decidi fazer faculdade em outra cidade. Eu escolhi um curso que não havia na minha cidade, nem por perto. Porque queria sair mesmo. Queria me desvincular fisicamente na ilusão de que tudo que eu trazia dentro de mim se desvinculasse também.

Mas essa conta não fecha assim tão fácil. Tudo aquilo que eu mais queria, que era  fugir dos meus pais era justamente o que mais forte dentro de mim gritava. O moralismo, a frieza e o controle do meu pai. A submissão, a carência e a frustração da minha mãe. Minha sexualidade, por exemplo, foi muito marcada pelos valores dos meus pais. Fiz faculdade durante quatro anos, morando numa cidade universitária, numa republica de estudantes. Um prato cheio para qualquer jovem curtir e se experimentar. Mas quase entrei e sai virgem da faculdade. Digo quase, pois, depois de um tempo em terapia percebi que não fazia sentido ser tão cruel com tudo o que eu sentia. Então com 21 anos decidi que ia transar e que estava na hora de deixar de lado os fantasmas que me acompanhavam quando eu sequer pensava em sexo: minha vida toda ouvia meu pai dando exemplos como o da vizinha ficou mal falada porque engravidou do namorado. Minha mãe dizia pra não confiar em homem. Meu pai dizia que sexo era pra depois do casamento, minha mãe dizia que se vivia muito bem sem sexo. Imagina a tensão que eu criei na minha sexualidade!

Bom, transei, tive relacionamentos, e ainda me sinto desconstruindo todos os conceitos que teoricamente eu não queria aplicar na minha vida. Pois quando eu reflito sobre o casamento dos meus pais ou tantos outros que presenciei, obviamente que não quero aquilo pra mim. Mas me vejo reproduzindo a mesma coisa quando transformo um espaço de amor numa instituição segura, num acordo onde tudo vale a pena para continuar num relacionamento. Isso é um casamento ou não é? E não falo só do amor dentro de um namoro, falo também do amor pelos amigos, por uma causa, pela comunidade onde moro. Transformar o amor em acordos seguros é a pior morte ao amor que se pode fazer.

O que tenho percebido nesse processo de viver, me desconstruir e construir de novo é que tenho mesmo é que construir o meu jeito de amar, os meus sonhos de trabalho, de projetos, de preenchimento. E isso não tem nada a ver com os modelos dos meus pais. E quando digo que não tem nada a ver quero dizer que minha vida não precisa ser uma cópia, mas também não precisa ser uma reação a eles. Essa, pra mim, é a pior armadilha do ego. Uma eterna birra com papai e mamãe disfarçada de vida independente. Fazer o contrário, fazer “diferente deles” no fundo é a mesma coisa. São os dois lados da mesma moeda.  A referência continua sendo “eles”. Como posso ser uma pessoa adulta, dona da minha vida se a referência continua sendo fora, e nunca dentro de mim. Como posso ter clareza da vida que quero se minha vida é sempre uma reação ao outro e nunca uma criação do novo?

Acredito que esse é o maior desafio. Traçar o meu caminho depende de uma postura adulta diante da vida. De não ser mais a criança que idealiza e espera, nem a adolescente que desafia e reage.