Miséria atrai miséria

Por uma vida mais abundante

                                                                                                               Prem Subali

                                                                                             

Miséria. Pode ser aquela economia de energia, aquela má vontade com o outro. Não se importar. Não ter cuidado. Não querer saber. Escolher pela economia, não pelo que tu podes ganhar. Deixar de te dar alguma coisa que, no fundo, te faria muito bem. Deixar de dar um bem para o outro. Calcular. Racionalizar. Tudo vai se resumindo a pequenos trocados: miséria.

 

A gente nem lembra, mas não nasceu assim. Se tu olhar uma criança brincando com outra, eles compartilham uma energia. Nenhuma criança está interessada em sacanear a outra, em economizar energia pra deixar de estar junto, de ficar contando os brinquedos pra não brincar. Nenhuma criança deixa de abraçar ou de brigar se tiver vontade. Se tu parar pra lembrar, vai sacar que, na tua infância, aquelas amizades tinham muita troca. Toda brincadeira poderia virar uma grande engenhoca, levar tempo, invenções, conflitos. Muita energia, muita doação. Tudo vale à pena.

 

Me lembro que uma vez, ainda criança, decidi fazer merengue assado e inventar formatos diferentes para brincar com a comida. Ansiosa para servir para minha família, não esperei minha mãe. Peguei a forma muito quente e, perto de colocar tudo na mesa, minha mão já estava queimando. Joguei tudo em cima da mesa que tinha uma toalha de plástico e queimou. Meu pai ficou louco, brigando porque eu “não dava valor para as coisas”: eu tinha queimado uma toalha tosca de plástico. Eu não entendia como aquilo podia importar tanto para ele – é claro que eu sabia que tinha feito algo errado e perigoso, mas aquela maldita toalha não podia ser o mais importante. Essa história me marcou muito. Na minha casa da infância, quebrar ou estragar alguma coisa era uma briga imensa. Eu fui me acostumando a ter medo, economizar. E olha que os meus pais tinham grana. Então a questão não era dinheiro: era a economia. O “desperdício”. A miséria.

 

Até hoje, meu pai é uma pessoa que vive mal pra caramba. A casa dele é um desconforto. Ele economiza em coisas toscas, em pequenas marcas, por exemplo, e gasta muita grana com obras inúteis. Tudo que ele conseguiu foi atrair gente mais miserável do que ele, negócios furados, amigos interesseiros, prejuízos que ele sequer contava.

 

Demorei tempo para sacar, mas ali eu já sentia: na miséria, a questão não é de grana. Nesse ritmo, a gente vai se acostumando a deixar de se dar. Vai contando os trocados da vida… não dar, não ter. Se distanciando. Se incomodando menos. Economizando. E vai atraindo situações miseráveis para a vida. Gente que também não vai te dar nada (em troca de nada). Gente que não vai se importar se tu está bem ou não, como, no meio das tuas economias de energia, tu também esqueceu de se importar.

 

Há pouco tempo atrás, vi um vídeo em que uma médica descrevia os arrependimentos que pacientes terminais relatavam logo antes de morrer. Quase todos se arrependiam de sonhos que não buscaram para si e de sentimentos que tinham deixado de demonstrar. Deve ter viralizado. A gente adora repetir “carpe diem” na internet e se emocionar com os arrependimentos dos outros. E, no fundo, ainda se contém tanto só pra dizer “eu te amo”, “tu é importante para mim”. Ou deixa de querer saber como aquele amigo está mais profundamente – e de lidar com isso na vida real. Se aquela pessoa está realmente precisando de alguma coisa. De dizer. De sentir.

 

Um vida miserável deixa o teu entorno igual. Tudo se apequena. A gente se apequena. É um círculo pobre, muito pobre de energia, de troca, de aprendizado. Pobre de vida. Pouca dor, pouco amor.

 

Agora, qual é o sentido disso tudo? Qual é a novidade de que tanta gente morre arrependida das coisas que não viveu, das palavras que não disse, das decisões que não teve coragem de tomar? E a gente vai seguindo, feito boi do mesmo caminho, para os mesmos arrependimentos. Por quê?

 

Lembro a primeira vez que senti como meu corpo tinha mais energia. Quanto mais me expressava emocionalmente, mais viva e clara com as minhas coisas me sentia. Tinha mais vontade de estar com as pessoas, de trocar, de dar afeto – e receber. Foi um momento muito bonito. Trabalhava mais, estava mais com os amigos, transava mais, me sentia mais disposta, me preocupava mais com as coisas. Brincava, criava, tinha ideias, me importava. Era uma sensação de energia que não acaba – e isso foi o mais precioso. Não tinha nada vindo de fora, era de dentro que eu descobria tudo aquilo.

 

Logo depois, vivendo em comunidade, eu fui entendendo como isso poderia ser ainda maior… eu fui conhecendo muita beleza e percebendo como eu tinha isso dentro para dar. Construir amigos, viver os amores, plantar, criar. Confiar nas pessoas. Doar teu tempo, tua energia, compartilhar algo que tu aprendeu porque alguém já te ensinou antes. Trocar uma hora, um lugar, um conhecimento.

 

Compartilhando a vida amigos, já criei muita coisa e já aprendi muito… já recebi muito. De construções incríveis que já fizemos na minha casa e momentos de amor muito forte que vivi nesse mesmo lugar, minha sensação é de tudo era grande e voltava. A beleza, o investimento, o carinho, o esforço, a alegria. Não tem conta de quanto dá pra ganhar, de quanto se perde. Lembra lá das cenas de criança, de que tudo vale à pena? Quando o coração entra na roda, contar trocados é impossível.

 

Ser abundante é confiar na vida. Saber – e sentir essa confiança – de que essas sementes crescem, voltam, que elas têm um gosto. É muito mais que sobreviver enquanto a morte não vem. É ter sede de vida porque se está vivo.

 

No final das contas, qual vai ser o saldo da tua poupança?