Plínio Marcos – um guerreiro solitário, um buscador, uma inspiração.

 

Poeta dos esquecidos ou o maldito, como os militares o consideravam, Plinio Marcos se tornou um dos mais renomados escritores brasileiros. Impecavelmente, descreveu a vida nos submundos com assuntos malditos como a homossexualidade, prostituição, marginalidade e violência. De família modesta, nunca gostou de estudar (foi tido como débil mental na infância) e fez de tudo um pouco: começou como funileiro, estivador, tentou ser jogador de futebol, entrou no circo pra poder namorar uma moça de lá, começou a atuar, foi camelô, tarólogo, jormalista e, principalmente, autêntico.

Viveu sem fazer conceções, independente das críticas, sensura ou opinião dos outros, o que faz de Plínio uma criatura no mínimo admirável. Sua primeira peça, foi proibida durante 21 anos após a primeira apresentação. Quando questionou o motivo, a resposta foi: “sua a linguagem crua”. Os críticos o chamavam de pornográfico e subversivo, principalmente por causa do tal palavrão. “Eu, por essa luz que me ilumina, não fazia nenhuma pesquisa de linguagem. Escrevia como se falava entre os carregadores do mercado. Como se falava nas cadeias. Como se falava nos puteiros. Se o pessoal das faculdades de lingüística começou a usar minhas peças nas suas aulas de pesquisas, que bom! Isso era uma contribuição para o melhor entendimento entre as classes sociais.”

Após o ano de 1968, o teatro de Plínio Marcos foi sistematicamente censurado. Era uma pedra no sapato dos militares que governavam o país e várias vezes visitou a prisão. Até mesmo Dois Perdidos Numa Noite Suja e Navalha na Carne, que já haviam sido apresentadas em diversas regiões do Brasil, foram interditadas em todo o território nacional. Na década de 70, Plínio era o próprio símbolo do autor perseguido pela censura, ficando 12 anos sem conseguir emprego. Se ele se resignou? Nunca! Saiu nas ruas a vender livros, nos restaurantes, nas portas de teatro. “Eu nunca fui um escritor profissional, morreria de fome se fosse viver dos meus livros. Teria que acabar fazendo milhares de concessões. Mas, camelô, ahh!, isso eu sou bom. Vendo meus livros, dou autógrafos e prometo morrer logo para valorizar. Eu sou um escritor imortal, não da Academia Brasileira de Letras, mas porque não tenho onde cair morto.”

Após a ditadura e perseguição dos anos 70, Plínio Marcos voltou a investir no teatro. Vendia, ele mesmo, os ingressos na entrada das casas de espetáculo e, no fim da peça, como a de Jesus-Homem, ele subia ao palco e conversava pessoalmente com a plateia, falava o que pensava, quebrava ilusões e não se importava se sua palavra incomodava o conforto e a comodidade dos que preferiam fazer de conta que os submundos não existiam. “Eu em nenhum momento estive à venda, e sempre defendi o direito de ser livre, e sempre fui.”

Em 1985, escreveu no programa da peça Madame Blavatsky, a respeito de seu

interesse por temas místicos: “Sou um homem à procura da religiosidade. Dispensa-

me dos rótulos, por favor, e eu te explico que a religiosidade nada tem a ver com

seitas, igrejas, grupelhos carolas, fanáticos acorrentados a dogmas e superstições. A

religiosidade nada tem de alienação, conformismo ou adaptação a um sistema

político-social-econômico injusto. Aliás, a religiosidade é altamente subversiva. A

religiosidade leva o homem ao autoconhecimento. E o autoconhecimento leva o

homem à subversão. Eu mudei no sentido de que sempre acreditei que o homem

desperto tem o dever de ser mutante. Como espero continuar sempre mudando. Mas,

os valores que dignificam o homem e que eu preservava, esses permanecem.

Continuo, com a graça de Deus, com a coragem de dizer o que penso, sem fazer nenhum esforço para agradar aos poderosos, aos grupos políticos ou religiosos. Tento chocar. Com muito vigor. Não faço isso por política. Faço isso por religiosidade.”

Nunca escreveu sobre ele mesmo, mas sim sobre a realidade que fingimos não ver, a

realidade daqueles muitos que são esquecidos por uma mídia que mostra favela sem

rato e sem sujeira. Plínio não fazia questão nenhuma de fugir da realidade.

Morreu em 1999, aos 64 anos. Até hoje, Plinio continua nas calçadas, nos puteiros,

no catador de papel, no feijão com arroz de todo dia, no barrado sem luz, na cama

onde dormem cinco. Na sua obra, assim como na sua vida, nunca houve ficção ou

mistérios. Cabe a cada um admirar e se inspirar na sua coragem e dignidade de

simplesmente ser quem de é, a qualquer custo.

Por Shuyan