Pai e mãe

father and little daughter walking on sunset beach

Por Prem Milan

É a fonte inicial de nossa vida. Você chegou nesse planeta completamente aberto, vulnerável, amoroso. Muito amoroso.
Você já percebeu que qualquer criança é fascinante por sua amorosidade? Como todo mundo gosta de estar com crianças, principalmente os mais novinhos, que tem uma energia muito boa? Como são encantadoras a espontaneidade e a inocência da criança? Uma semente tão boa, tão linda, acaba se transformando num adulto tenso, entediado, frustrado, não espontâneo, não inocente, não verdadeiro. Eu me pergunto como isso é possível? O que aconteceu com aquela semente maravilhosa para que se tornasse num adulto desse jeito que nós somos?

Crescimento para mim deve significar um aprimoramento dessas qualidades, um amadurecimento dessas qualidades. Tem alguma lógica não ser assim? Tudo na natureza, uma flor, uma planta, um animal também tem essa inocência e quando eles crescem no habitat natural, com condições, eles mantêm uma beleza e uma fascinação. Eu conheço árvores de onde eu moro, que vi crescerem desde pequenas e se tornarem frondosas, grandes, lindas. Qual o sentido do ser mais evoluído desse planeta e não seguir esse caminho? A regra parece oposta. existe algum sentido nisso? Agora, se eu pegar uma árvore dessas e maltratá-la, colocá-la numa terra sem alimento, faltando água, ela não vai ficar legal. Isso eu comprovo na própria natureza onde eu moro: nos lugares mais inóspitos, menos férteis, as árvores são torcidas, é gritante a diferença. Não tem aquele verde reluzente, aquele frescor. Assim como os animais, que tem uma beleza e espontaneidade mas, quando estão no cativeiro, perdem a sua graciosidade e quando são maltratados, mais ainda. Vivem com medo, sempre em posição de alerta, prontos para receber um ataque.

Talvez o ser humano tenha passado por essas privações. Você foi uma criança dessas, você sabe sua história. Talvez você lembre pouco, qual o motivo de não lembrar? Talvez você tenha passado por muita dor, muita mágoa, e aí você prefere esquecer e criar uma fantasia de que foi tudo lindo e maravilhoso. Ora gente, a relação dos pais com os filhos deixa muito a desejar. Eu não falo em teoria, olha pra tua história. Quem olha para uma criança com a mesma amorosidade que ela tem? O que eu vejo normalmente é os pais “curtirem” os filhos porque estão carentes e sedentos por aquela energia fresca e amorosa. Mas a maneira como tratam é impondo regras que não deram certo nem para eles próprios, reprimindo, criando a competição, não respeitando em hipótese alguma a naturalidade da criança.

A criança necessita ser tocada, abraçada, validada e estimulada a aprender. Se isso não vem naturalmente, ela faz de tudo pra conseguir. Se ela não está com vontade de sorrir, ela sorri para que os pais a aprovem e aí ela começa a não ser ela mesma. Se o bebê está chorando, ninguém olha se é uma necessidade dele extravasar aquele excesso de energia que ele tem, logo dão um melzinho na chupeta, ficam balançando para ela parar de chorar. E logo ela recebe aquela mensagem: “tuas emoções não são boas, é ruim chorar, ficar sensível não é bom”. E se ela estiver com raiva, meu deus! Fazem tudo para aniquilar com a raiva. Expressar a raiva é uma necessidade da criança, pra desafogar a sua própria energia. Assim começa a limitação da criança que vai avançando na infância. Aí a estupidez começa a ficar mais forte e pesada. A criança necessita de expansão, quer brincar e muito com os pais, mas eles nunca tem tempo, nunca podem e não sabem brincar, apenas fingem que brincam mas não tem uma alegria interna. E a criança vai aprendendo que esse mundo é sério, cheio de compromissos e regras. Logo os abraços terminam, o carinho termina, além de ser pouco. Ou, por outro lado, mães e pais ficam tão em cima da criança que a única fonte da vida delas é a criança, isto vira um sufoco para os pequenos.
Sem contar o jeito horrível como a sexualidade é tratada, cheio de preconceitos, medos. E os pais normalmente são frustrados sexualmente…

Talvez você ache demais. Ah, é? Eu te faço uma pergunta: você gostaria de ter o nível de satisfação sexual que seu pai e sua mãe tiveram na vida? Se a resposta for sim eu sou um trouxa, mas se a resposta for não, leia com carinho essas palavras. Eu não quero ser igual a meu pai, não quero ter o nível de satisfação que ele teve na vida em hipótese alguma, nem da minha mãe! Eu os amei, eu os amo muito, mas não vou seguir os seus caminhos porque não deram certo nem pra eles mesmos! Eu olho para eles e não vejo um exemplo pra mim, mas reafirmo: eu os amo, não queria ter outros pais. Mas eu enxergo a tristeza e a frustração de sua vidas, e isto me dói. No passado eu me sentia culpado por isso, como se eu fosse o responsável por suas angústias e infelicidades, que por minha causa eles trabalhavam muito, que tinham muito estresse. Ao longo da vida descobri que era mentira porque quando nós, os filhos, crescemos, eles trabalharam mais ainda! Outro mito é que os pais ficaram juntos por nossa causa. Se meus pais se separassem iria doer, mas doeu muito mais presenciar a infelicidade deles, do que qualquer separação. Então essa justificativa furada de os pais ficarem juntos pelos filhos é uma grande mentira.

Meu pai não tinha coragem de se separar de minha mãe porque de certa forma ele transformou ela na sua mãe e vice-versa, e aí dava uma pseudo- segurança para a vida. Então eles não estavam juntos por minha causa, eu era a desculpa. E me enchiam de culpa. Lembro muito da minha mãe, ela queria me amar sim, mas o conceito de amor dela era muito estranho. Ela rezava por mim, mas me punia severamente, me surrava. Me abraçar… never! Fazer um carinho no rosto, bem capaz! Quanta falta fez ela olhar pra mim, ficar feliz com minhas travessuras, minhas vontades, criar desafios, estimular a alegria e brincadeira… Como ela poderia fazer isso se ela mesma não teve isso. Ela achava que amar era fazer uma boa comida, pão doce! Hoje, se eu vacilar, fico uma porca de gordo. Associo afeto com doce, com comida boa, “bucho cheio”. Mas não tapa o buraco emocional, só aumenta a tristeza ao ver o meu corpo fodido. A intenção dela era boa, mas de que adianta intenção? Os momentos mais felizes que eu tinha era quando ela sentava conosco pra ver um filme. Isto era raro, uma vez por semana, no filme chamado “Viagem ao fundo do mar”. Lembro eu e meus irmãos felizes porque ela parava uma hora na frente da televisão pra ver esse filme com a gente – é muito pouco pra esse ser de luz se desenvolver!

Meu pai também queria me amar, mas ele achava que amar era me ensinar a fazer negócios. Lembro-me muito de quando nós íamos para a praia, que ele parava, olhava uma casa e falava: será que essa casa está pra vender? E nós todos caminhando, então ele parava e dizia: vocês vão indo… e ele ia para aquelas casas, conversar com as pessoas. Eu odiava isso porque eu queria tomar banho de mar com ele, jogar um futebol com meu pai na praia, sedento de vontade, e ele lá, naquelas “oportunidades de negócio”. Eu estranhava de vez em quando essa atitude dele. Hoje em dia eu tenho a plena consciência de que ele era um caçador nato. Na real ele ia naquelas casas, porque talvez tivesse uma mulher bonita, meio carente… bingo! Mas eu só queria que ele viesse para a praia e brincasse com a gente. Aí ele chegava, ficava 15 minutos, jogava a gente um pouco na água, a gente ficava feliz achando que iria rolar… hora de ir pra casa! Você acha que com essa miséria aquele serzinho lá do início, inocente e amoroso, iria se transformar em que? Em um adulto medroso, cheio de inseguranças, e que foi desistindo da alegria e da brincadeira. Mas eu nunca liguei “fio com pavio”, a gente não paga imposto pra ser boca aberta… Trouxa então, ganha até gratificação. A minha sorte foi que eu tive contato com trabalhos terapêuticos porradas, com gente não cooptada pelo sistema. Aí eu pude me resgatar, mas então descobri que meu coração era “um pote até aqui de mágoas”… Não foi fácil esvaziar esse pote, porque eu estava viciado em sofrimento. Nós somos craques em lidar com sofrimentos, com angústias, ficamos meses… alegria é fugaz, muito rápido, passa de avião a jato! O sofrimento vem a carreto de boi, passo por passo…

Chorei aos borbotões, tive muita raiva deles. E a grande dor era ter perdido aquela minha espontaneidade, aquela coisa de o pensamento não tomar conta, aquele espaço de harmonia que acontece depois de uma grande transa de amor. Depois de toda essa raiva e essa dor, eu reconectei com esse amor de novo, com essa inocência, inclusive o meu amor natural pelos meus pais. Mas tive que trabalhar com força, não era repetindo mantra, um grupinho melzinho na chupeta. Olhe para tua vida e se dê conta: a tua origem, a tua essência é uma capacidade estonteante de amar, ter alegria, prazer, poder, ter força, tesão. Isso não acontece nas nossas vidas porque nós não fomos devidamente alimentados. Nossos pais passaram pela mesma coisa, os pais deles também eram do mesmo jeito. Mas a minha conta não é com meus avós, é com meus pais. Eles podiam ter sido diferentes, eles não tiveram a coragem de enfrentar suas dores, de encarar seus pais para transformar. E aí acham que são diferentes porque tem um visual diferente, uma linguagem diferente, mas a essência emocional é a mesma, o resultado é o mesmo. O pior de tudo é que eles tem que se convencer que estão certos, por medo de olhar pra trás e ter de chorar muito, sentir muita dor pela vida pobre que se leva.

Bob Marley fez uma música que dizia: não se preocupe, tudo vai dar certo, don´t worry… muito bonita pra quando você está chapado. Na vida real essa não preocupação virou uma desconexão para não olhar. Se você quer resgatar aquilo lá de trás vai ter q passar por isso. Ai, você vai cantar o Raul: “enquanto você se esforça para ser um sujeito normal e fazer tudo igual, eu do meu lado aprendendo a ser louco, um maluco total, na loucura real… eu vou ficar, ficar com certeza maluco beleza.” Mas gente, Raul e só pra cantar e ouvir, o resto, esquece.

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