“Amélia que era mulher de verdade”

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Por Anand Aiman

Eu sou machista! Mas relaxe, você também é! Você pode muito bem sair pela generalização banalizante (do tipo “o mundo é machista”) e não se incomodar com isso, mas sim, brother, você é machista. Digo e repito isso como um carimbo na sua testa, pra que em algum momento alguém comece realmente a se questionar sobre o assunto, pois as consequências disso são hoje muito pesadas para as mulheres e para os homens.

Nunca me importei tanto com isso, por me considerar um defensor das mulheres. Devagar comecei a me dar conta de que meu comportamento excessivamente polido e respeitoso com as mulheres, na verdade, só mascarava uma vontade enorme de que aquela determinada moça dependesse de mim. Que existia um silencioso prazer no meu ego quando cozinhavam, lavavam, passavam; quando no motel pediam só a identidade dela e a minha não; quando o garçom trazia a conta para mim com a mesa entupida de mulheres. Pequenas coisas banais e instituídas, que veladamente me coroavam como macho! Detentor de um falso poder perpetuado por gerações.

Você pode ir um pouco além, se quiser… Faça comigo um exercício como os da escola. Complete a frase:

1. Mulher que gosta de transar é…

Gagejou? Tenho certeza que você não disse SANTA. Essa aí, só a sua mãe, que com certeza não transou para concebê-lo… Mas pulemos esta parte por enquanto. Por ora, apenas continue:

2. Mulher que transa no primeiro encontro é…

Puta, vagabunda, safada, galinha… Pode falar, vai! Qualquer que seja sua origem, você vai ter um adjetivo. Ora, são milhares de anos de quebração, só você passou ileso?? Se você se acha descolado e fica entorpecido com as propagandas de carro, de futebol, de cerveja, pare pra pensar um pouco! Talvez o que você esteja consumindo não seja bem uma simples cerveja…

Meu raciocínio pode parecer, aos seus olhos, apressado e determinista. Mas se questione melhor à respeito. Veja se não existe um lado seu que, sim, considera as mulheres INFERIORES! Que pensa que elas tem a obrigação de te suprir, de te servir. Veja bem se tu não queres mesmo uma ESPOSA; se tu não achas que a mulher pra casar é a Amélia, e a que está na vida é PUTA. Confessa aí, vai… Você é apaixonado pela Amélia. Caído de amores desde a mais tenra idade. Talvez algumas mulheres esperem o “príncipe encantando”; já você, é apaixonado pela Amélia.

A verdade é que a arrasadora maioria dos homens quer afirmar sua masculinidade e poder através de uma mulher. Às vezes, nem através de uma mulher por inteira, apenas pelo conteúdo entre suas pernas! E o mais estúpido é que a própria capacidade sexual da mulher é muito maior que a do homem. Engole essa, brother. Deixa entrar bem seco! Toda a sua macheza é pinto perto da possibilidade sexual que tem uma mulher. E não se pode dizer nada a respeito. Imagine a heresia que as mulheres digam algo a seus parceiros! Basta um questionamento para gerar uma ofensa. Sim, moças, saibam que qualquer “inelogio” (nem precisa insultar) à capacidade sexual de um homem é um ultimato cabal de sua inferioridade. Pro macho, é melhor levar um soco no saco, do que ouvir qualquer realidade sobre seus limites na cama. Sim, o EGO sexual do homem é de porcelana… Por isso os homens são tão preocupados com a performance.

A real é que todo homem tem muito medo de mulher. Não é simplesmente um medo, mas sim um pânico histórico que estruturou nossa sociedade e moldou nosso comportamento. Isso precisa acabar! A questão é que não queremos nos relacionar com mulheres livres. Mulheres que vivem a liberdade de sentir e ser o que seus desejos conclamam acima de tudo. Uma mulher que questione a si e a seus homens (amigos, marido, pai, irmãos…); uma mulher com poder; uma Tigresa e não a Amélia… Pra sociedade, mulher de verdade é Amélia. E todos nós vivemos assim, por mais new age que você se considere!

Olha pra você e pra sua história, você pode se surpreender… A namorada de um amigo, serve seu prato pra ele comer! Em casa, no restaurante, onde for. E o mais absurdo é que ela adora fazer isso. Sim, as mulheres são tão machistas quanto os homens. A maioria aceita um papel de subjugação por conveniência. Para não ser responsável pela sua própria luta, sua própria libertação.

Veja, a tensão entre os sexos vai sempre existir, isso faz parte da natureza. Não estou defendendo nenhum feminismo barato, e sim a liberdade. Só através da liberdade o amor florece. Se é amor que queremos, é de liberdade que carecemos! E hoje, te convido a ir mais. A ter coragem de ser mais que nossos comportamentos programados. A largar as frases feitas e encarar a verdade que a mulher tem muito mais do que o papel que lhes foi reservado. Enquanto não há liberdade para elas, não há liberdade para os homens. Somos também reféns disso tudo. Nenhum homem tem a capacidade de amar uma mulher sem liberdade ou vice-versa. Chame de qualquer coisa, menos amor. E repito: se é amor que queremos, é de liberdade que carecemos.

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Eram garotos que, como eu, amavam futebol com padrão de alegria.

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Por Prem Milan

Lembro de mim com o radinho, em 66. Primeiro jogo do Brasil contra a Bulgária. Garrincha, Pelé, Edu! Um ataque e tanto! Ainda o velho Djalma Santos na lateral, Gilmar como goleiro, o Mendes Ribeiro transmitindo e nós, garotos, imaginando as jogadas. Acabava o jogo, saíamos direto pro campo de pelada. Ali nós eramos os craques, tentávamos dar aquela bicicleta que o Pelé deu, ali tentávamos os lançamentos, fazíamos as jogadas do Garrincha. Só na imaginação.

Mas nós tentávamos. Criávamos as nossas jogadas, as nossa belezas. Só parávamos quando escurecia e não dava pra ver mais nada. Chegávamos tarde em casa, onde provavelmente levávamos uma bronca ou uma sova! Era muito incrível. Nós aprofundávamos as amizades, brigávamos, disputávamos poder e depois tínhamos que nos perdoar, porque o jogo tinha que continuar. Esse era o amor principal. Todas as nossas desavenças tinham que ser resolvidas para a nossa brincadeira continuar.

O fominha, que não passava a bola, todo mundo peitava. Todos nós éramos craques. Lá todo mundo era Djalma Santos, Nilton Santos, Gilmar, Beline, Zito, Didi, Vavá, Pelé… Todos nós éramos craques. Ninguém era coadjuvante e isso era bonito, por que nós começávamos a aprender a verdadeira democracia. Não tínhamos que servir ao craque. As imagens, nós só víamos no canal 100, 6 ou 8 meses depois, no cinema. A nossa tecnologia era muito muquirana, mas nosso coração era algo intacto e apaixonante.

Nós criávamos nosso timezinho de futebol, construíamos nosso campinho. Todos pegavam junto. Era toda uma gurizada que pegava uma enxada e ia lá capinar. Ninguém se negava ao trabalho. E era uma lei muito bonita: não trabalhou, não joga! Fazíamos nossos torneios, com as turminhas de cada lugar da cidade. Era algo emocionante, uma vibração, uma paixão contagiante. Era uma tarde inteira de pés descalços, correndo. E aprendemos muito ali. Situações limites, a expansão do nosso corpo, agilidade, equilíbrio corporal que futuramente nos trouxe equilíbrio emocional e, acima de tudo, prazer, alegria! Ir para casa de cabeça erguida e satisfeito, pronto para as broncas da mamãe.

Lembro do nosso timezinho de futebol: o Relâmpago. Éramos 7 garotos no porão da minha casa discutindo sobre como conseguir dinheiro para fazer a camiseta do time. Um sugeria vender vidro, outro, ferro, fio de cobre, e assim nós conseguíamos. Aquela camiseta verde, com o Relâmpago desenhado de um jeito meio grotesco, era linda. Na estréia entramos com uma pompa que nenhum ‘Cristiano Bolstaldo’ tem. Éramos imperadores, pois tínhamos construído aquilo. Lembro do Juventude, timezinho da cidade. Uma paixão que eu tinha. Me lembro de uma cena incrível no café da cidade num sábado, antes do clássico GUAxJU. O treinador desse time, o Cavaim, que era um serrador de lenha, só com dois dentes na frente, entra e vê dois jogadores bebendo e fumando. Aos gritos, ele tira o cigarro e a cerveja e bota os dois a subir o morro enorme da cidade como castigo! Eu ali, impressionado com a energia, com o amor e o respeito que aqueles dois reconheceram o seu erro e aceitaram. Era incrível porque depois, na segunda-feira, esses nossos ídolos estavam com a gente tomando cafezinho.

Eu era e sou gremista fanático, da época do Alcindo, Volmir, Ortunho… Mas eu não queria ser eles, queria ser o Robertinho, o meio-campista do juventude que batia uma falta maravilhosamente bem.

Hoje, olho para meus filhos e eles perderam tudo isso. Tem um amor pelo Grêmio, pelo Inter, mas existe uma distância quilométrica. Não participam em nada, veêm na televisão… Não tem seu campinho de futebol. Por isso, estou organizando a criação de uma escolinha de futebol aqui no sítio, para dar ao meu filho esta experiência, o êxtase do futebol nosso de cada dia.

Eu vou assistir a todos os jogos do mundial. Mas domingo, às 4 da tarde, no Monumental Cantagalo*, vou demonstrar minha categoria acumulada, de 48 anos de copa. Aqui, na Comunidade Osho Rachana, onde moro, todos domingos à tarde, o bicho pega no campo! São craques reproduzindo jogadas… É um simples desfilar de muitos craques exercendo a possibilidade do futebol ser uma brincadeira, um resgate da amizade, uma conexão com o corpo e, acima de tudo, alegria.

Sou quase sessentão e tenho orgulho de poder jogar futebol com a gurizada de 30, 25. Isto é maravilhoso, é saudável. Para mim o futebol é uma meditação pois, naquele momento, solto tudo e fico presente no ato, me superando em muitos aspectos.

Isso é uma alegria à qual nenhum padrão FIFA se equipara. Mas falaremos mais sobre isso adiante.

[segue num próximo post…]

O Corpo e o Equilíbrio Emocional

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Por Prem Milan

O corpo e o equilíbrio emocional estão extremamente vinculados. Você precisa de equilíbrio corporal para poder ter equilíbrio emocional. Se você não consegue andar no meio-fio de uma calçada ou em cima do galho de uma árvore; se não consegue ter esse mínimo de equilíbrio corporal, como é que você vai querer ter equilíbrio emocional? É quase impossível. Por isso é tão fundamental que na infância você tenha espaço e a possibilidade de usar o corpo. Seja subindo em árvores, pulando um muro ou caminhando sobre ele…

É óbvio que você vai levar tombos e se machucar, mas é assim que seu corpo vai aprender; você estará aprendendo o seu equilíbrio. Você estará aprendendo a ter força, impulso. Se você vai subir em uma árvore você precisa de impulsão, você está criando força no seu corpo. Se você vai saltar uma vala você vai precisar de impulsão e quando cair no chão vai precisar de equilíbrio. Você vai estimular músculos no teu corpo a trabalhar. Quando você corre, quando desce um lugar de uma maneira mais rápida, tudo isso também vai criando conexões no seu cérebro e, quando situações emocionais acontecerem, você terá um corpo pra sustentá-las. 

Agora, se você tem um corpo rígido, sem essa capacidade, você não vai conseguir sustentar essas emoções – você vai colapsar. Se você precisar, numa situação de poder, dar um grito, dizer “não!”, você precisa de uma musculatura, uma força. Sem esses músculos você não vai ter potência no teu “não. E, não se sentindo capaz e potente, você vai se calar e engolir, tendo uma atitude emocional passiva.

É importantíssimo que os pais se alertem para isso com seus filhos. Eu consegui, na minha infância, ter equilíbrio caindo. Caí muitas vezes, me esfolei, me machuquei, mas isso não me gerou nenhum dano. Apenas aprendi a sentir aquela dor, aquilo me dava uma motivação maior para eu batalhar pelo meu equilíbrio. Hoje em dia tentamos facilitar tudo e isso é uma grande desgraça. Se acontece uma crise emocional, uma namorada te abandona, teus projetos dão errado, você precisa de uma força pra sair disso e essa força vem do corpo, para se aliar ao teu emocional.

Não confunda força com rigidez! Por isso os esportes são tão fundamentais para as crianças. Mas, hoje em dia, nós não temos mais esportes porque não há espaço e lugar. Sobra aquela educação física vergonhosa dos colégios. As escolinhas de futebol acabam sendo uma mutilação emocional das crianças porque dois ou três são bons e os outros são coadjuvantes que quase não encostam na bola. Ao invés do futebol ser uma brincadeira, virou uma fábrica de craques pro futuro. Pura loucura…

E você, como adulto, também tem que mexer o seu corpo. De preferência com coisas que você gosta e que te dão prazer, senão você vai virar um soldado. Se você usar teu corpo em coisas que te dão prazer, a musculatura que você desenvolve tem força e também é flexível para o prazer. Senão você vai virar uma pessoa rígida e dura, sem alegria.

Nós perdemos espaços e possibilidades de usar o corpo. Nós não subimos mais uma escada, não caminhamos mais um quilômetro, não subimos um telhado, não subimos em uma árvore,  não pegamos uma fruta do pé. Isso é um dano corporal, físico e emocional muito grande!

E, por favor, tirem as crianças do computador senão a única coisa que elas terão de maravilhoso serão seus dedos. Nada como um pai ou uma mãe jogar vôlei, futebol, correr com seu filho, brincar de pega-pega, amarelinha, dar cambalhotas. Tem criança que nunca deu uma cambalhota, gente! Isso é muito importante para o equilíbrio, você perde o medo! Um corpo não usado vai criando muitos e muitos medos, paralisando. Até para fazer amor você precisa de um corpo forte e flexível, senão seu amor vai ser de quarta ou quinta divisão. Isso gera infelicidade.

É urgente que retomemos nossos corpos. Senão você começa a endurecer, ficar igual aqueles navios encalhados no porto do rio Guaíba, que não servem nem pra sucata. E você tem a possibilidade de construir isso. Academia é uma coisa muito chata, porque não tem um prazer, uma alegria. É uma coisa muito chata porque você não vai lá brincar, descontrair, usar o corpo dessa forma. Você vai lá para ter músculo, ficar bonito, fazer força e sacrifício: são músculos que não vão gostar de se divertir, vão gostar de trabalhar.

O que faz teus olhos brilharem?

Por Gyan Pavita

Ei, companheiro humano, homem comum, “Zé-ninguém” do Reich, “dito cidadão respeitável” do Raul, telespectador, internauta, mulher, homem de qualquer idade, essa pergunta é pra ti. Meu amigo, minha amiga, o que faz teus olhos brilharem?

Já te vi se apresentando na palestra, na aula, na mesa do bar, na igreja, no emprego, no consultório, na mesa eleitoral, na casa da sogra… Já te vi falando e tentando convencer o mundo das tuas microcertezas. Já te vi defendendo-as acirradamente, desdenhosamente, preguiçosamente. Já te vi repetindo o que ouviste do pai, da mãe, do padre, do professor, do santo, do chefe, do autor, do poeta, do terapeuta, do ídolo. Já te vi se contorcendo e distorcendo pra encaixar no lugar.

Só anseio por ver teus olhos brilharem.

O que faz teus olhos brilharem, amigo, amiga?

Tô falando daquele brilho que tu vês (se prestares atenção) nos olhos do teu filho, sobrinho, vizinho, criança na rua ao acompanhar os passos das formigas carregando folhinhas em fila… Tão organizadas, responsáveis e incansáveis!

Lembra, amigo, amiga? Porque tu já ficaste tempo infindável admirando este movimento mágico dos bichinhos, das nuvens no céu, das ondas do mar lambendo teus pezinhos. Consegues lembrar? Tanto deleite, arrepio, alegria e prazer nesses momentos.. sem nenhuma cerveja, cigarro, elogio, dinheiro pra te “ajudar a curtir”.

O que aconteceu com tua capacidade de se maravilhar com a vida, minha amiga adulta, meu amigo adulto? Porque as formigas continuam sua marcha incansável, o mar continua lambão e as nuvens nunca pararam de se transformar nas formas mais incríveis! Sim, a gente cresce e desaprende muita coisa. Desaprende que a vida tá sempre acontecendo agora, e não em algum “futuro”. Desaprende que nosso planeta é um ninho de abundância que merece e precisa ser cuidado. Desaprende que é tão bom ser amigo das pessoas, dos bichos, das árvores, da lua e do sol. Desaprende que o corpo da gente é um contínuo milagre a ser descoberto, cuidado, curtido, respeitado. Desaprende que o espírito, a alma da gente, não é uma espécie de parente distante, que a gente sabe que existe mas que só vai encontrar depois de morrer.

Sim, amigo, amiga, os olhos da gente desaprenderam a brilhar. Mas a vida tá sempre aí, cutucando nosso coração pra gente lembrar que ela só vale a pena ser vivida se a gente reaprender a se maravilhar com ela de novo, a sentir, a amar, a criar, a compartilhar, a crescer.

Confesso, amigos, que meus olhos passam por períodos sem brilho e aí eu sinto falta, me incomodo e vou buscar o brilho de novo. E sempre acho! Quer uma dica? Começa pelas pessoas! Olha pra quem tá do teu lado no ônibus, no restaurante, na cama, na rua… Deixa que elas toquem teu coração.

Quando te chamo de amigo, amiga, não tô falando de uma convenção social. Tô fazendo um convite. Pode ser que eu seja a pessoa passando por ti na rua, ou te servindo o almoço no restaurante. Ao me ver, procura o brilho nos meus olhos. Se não encontrares, me pergunta: o que faz teus olhos brilharem?